terça-feira, 4 de outubro de 2011

QUESTÕES DO CORAÇÃO

O texto que passo a transcrever neste blog foi enviado para meu e-mail pela "TRINK - tirando os trinco limitadores da realidade", e pode ser conferido em http://feedblitz.com/r.asp?l=52028821&f=406881&u=25534075&c=4078064.
Achei interessante, por isso estou disponibilizando para vocês aqui. Boa leitura e não deixe de enviar seus comentários. Obrigado!

Amor e paixão


Autor: Luciano Pillar

Quem não quer se apaixonar? E amar, quem não quer? Mas, qual a diferença entre estes sentimentos? Vamos a uma breve história fictícia, com leves pitadas de eventos reais, para lançar uma luz nesta questão.

Sentado sob uma árvore num parque vi dois jovens beijando-se apaixonadamente. Subitamente contaminado pelo clima da paixão viajei para um tempo em que eu mesmo estava apaixonado. A sensação de estar intensamente vivo era gritante e sobrepujava tudo o mais. A pessoa por quem eu me apaixonara era uma deusa que tinha mais importância do que tudo no universo. O mundo era belíssimo, acordar de manhã era uma alegria que antecedia a oportunidade de viver mais um dia, eu ouvia o cantar de cada pássaro e o som do vento. Amando e me sentindo amado eu sentia a presença divina em tudo. Eu me sentia vivo e a vida fazia sentido.

- Você já se perguntou por que vocês só costumam ver a incrível beleza da vida quando estão apaixonados? – foi uma pergunta que me pegou de surpresa, pois partiu de um senhor que estava sentado a meu lado e que eu nem sequer tinha visto chegar ali.
- Como? – meio sem jeito retruquei.
- Se uma pessoa vê a beleza da existência apenas quando está apaixonada, seria esta beleza imaginária?
- Perdão senhor, mas, eu o conheço?
- Conhece-me há muito, mas parece não lembrar. Chamam-me de Pilar. – disse-me estendendo cordialmente sua mão.

Ao apertar a mão daquela inusitada pessoa uma impressionante sensação de bem-estar e amorosidade percorreu cada célula de meu corpo e alma. Difícil descrever, mas me senti profundamente acompanhado e vi, de novo, o brilho divino na existência de tudo ao meu redor. Ele sorriu, largou minha mão, virou-se para a frente e passou a olhar para uma árvore adiante de nós com uma impressionante serenidade. Presenciei um estado de rara comunhão entre eles.

- A paixão é uma porta disponível para que qualquer um possa vislumbrar o amor.

Sem me dar tempo de expressar minha surpresa, ele continuou.

- Quem se apaixona deve lembrar desta visão do amor e buscá-lo depois em sua vida. O amor é o sentimento máximo e um dos maiores aprendizados que se espera das pessoas nesta fase de sua existência e não a paixão, que não passa de uma porta temporária.

Voltou a se aquietar e eu, diante daquele estranho que me parecia mais próximo e conhecido do que qualquer um, fui surpreendido por uma lágrima que desceu pela minha face. De repente eu estava consciente do amor, da paixão como uma forma de vislumbrá-lo e da vida cotidiana de quase todos que, sem o efeito da paixão, não conseguem sentir a grandiosidade de tudo.

- A paixão lhes permite experimentar a sensação direta do amor e não apenas suas consequências. Fazer o bem ao amado, ou até mesmo dar a vida por ele, podem ser meras consequências do amor, assim como ficar queimado é do calor. A paixão permite sentir o amor, da mesma forma que podemos sentir o calor.
- Acho que o senhor tem razão, seu Pilar.
- Querido amigo, em alguns momentos de sua vida você mesmo já experimentou a sensação do amor de forma direta, sem a necessidade da paixão. Você lembra do que lhe aconteceu no ônibus?

Estremeci. Quem era o Sr. Pilar? Como ele podia saber de mim? Por que me sinto tão bem em sua presença? Por que ele estava ali comigo?

- Sim, como poderia me esquecer?
- E então, como foi?

Fiz uma pausa que antecedeu uma apresentação maior, mas com uma estranha sensação de que o Sr. Pilar já sabia de tudo.

- Eu estava sentado no ônibus que me levava para casa depois de meu trabalho, indo para minha casa. A minha frente, várias pessoas também estavam sentadas. De repente, algo mudou e eu senti que o ônibus, a rua e os prédios do lado de fora, assim como minha casa e tudo o mais, não tinham importância alguma a não ser prover um palco onde podemos viver. E, então, aconteceu: eu amei todas aquelas pessoas! Senti um amor enorme por todos, sem exceção. Um amor maior e mais completo do que aquele que já havia sentido numa paixão, pois não havia nenhuma tensão, medo da perda ou dependência. Não havia a comum posse e nem nenhuma segunda intenção. Era um amor puro e desinteressado por todas aquelas pessoas que eu sequer conhecia. Elas não só se tornaram familiares, como também unidas a mim. Neste mundo, época e lugar eram elas que estavam ali comigo naquele ônibus e não há acaso num universo tão extremamente organizado como este.
- E quando essa sensação terminou você se perguntou o que é que acontece normalmente quando esse sentimento não está presente na sua vida cotidiana e…
- … e, Sr. Pilar, eu pergunto agora como pode o senhor saber disso? O senhor me conhece? Quem é o senhor?

Ele simplesmente não respondeu com palavras. Olhou ao redor, num estado de encantamento e união com o mundo que ali estava naquele parque. Ele realmente estava com aquelas árvores, pessoas, cães, pássaros, chão, céu e nuvens que nos cercavam e esse estado de presença dele era uma resposta em si. Eu sei quem é ele, mas meu cérebro, mente e ego mortais é que não podem acessar esse conhecimento. Resolvi não perguntar mais nada. Apenas me tornei presente ali.

- A paixão é a coisa mais próxima do amor que o espírito não desenvolvido pode experimentar. Ela faz com que a alma se revolva e saia de si mesma. Quando vivenciam essa força, mesmo as pessoas menos desenvolvidas tornam-se capazes de superar-se. – Sr. Pilar quebrou repentinamente o silêncio com estas palavras.

E continuou.

- Mas a paixão se consome em seu próprio fogo e isso costuma se tornar um problema às pessoas menos desenvolvidas. Sem entendimento, apegam-se à paixão em si e passam a buscá-la se relacionando com várias pessoas durante suas vidas. Lançam-se inconscientemente aos prazeres sensuais na expectativa de encontrarem novamente a paixão, mas o que invariavelmente descobrem é a frustração, pois não há como forçar a paixão a aparecer pela força bruta. E muito menos o amor. Agindo assim, tornam-se meros escravos dos sentidos.
- É triste. – concluí.
- E muitos confundem o amor não apenas com a paixão, mas também com outras necessidades como a sobrevivência, a posição social e a mera dependência dos hábitos de uma vida levada ao lado de outro. É muito comum que as pessoas chamem de amor a muitas coisas que não possuem relação alguma com ele.
- Você pode me dar um exemplo disso, Sr. Pilar?
- Claro. Quando pessoas que se amam se afastam uma da outra, seja qual for a razão, elas costumam se entristecer. Elas também dialogam, identificam as razões da separação, se perdoam por suas falhas e seguem suas novas vidas ajudando-se mutuamente quando necessário. Com o tempo, a tristeza passa. Isso lhe parece claro?
- Sem dúvida.
- Mas, se a tristeza ou mal-estar não passar nunca, então, ao menos uma destas pessoas se apegou à outra. Isso é uma consequência da dependência de algo passageiro – já que tudo passa – e não é originado no amor, mas no apego.
- Sim, entendo.
- Ainda é comum que a separação de uma relação supostamente amorosa resulte em sentimentos de raiva ou ódio. Estes sentimentos não vêm do amor, mas do medo. Geralmente medo de algo que nem é consciente e que foi escondido no relacionamento supostamente amoroso. Esse medo leva a diversas formas de dependência e posse.
- Já presenciei separações matrimoniais de alguns amigos e essa parece ter sido a situação mais comum. – retruquei.
- É ainda o mais comum na atual humanidade devido ao atual estágio de consciência da maioria.

Notando coerência e sabedoria nas palavras do Sr. Pilar, aproveitei para lhe indagar uma questão que me pareceu pertinente.

- Senhor, permita-me lhe perguntar uma coisa: como posso saber se devo me aproximar amorosamente de uma pessoa a despeito de sentir paixão ou não? Interesso-me muito em saber isso porque já me apaixonei e depois, com o tempo e o fim da paixão, percebi que não havia sobrado um sentimento maior.
- Caro amigo, em primeiro lugar entenda que o amor sempre existe e, apenas por isso, você o visualizou através da paixão. Lembre-se de que o amor é uma presença universal responsável pela união de tudo. Nas pessoas ele se manifesta como o maior sentimento que elas são, atualmente, capazes de experimentar. Já a paixão, você sabe, não passa de uma porta que se abre para dar passagem ao amor, mesmo ao mais atrasado dos espíritos humanos. Uma porta que abre rapidamente. E fecha, certamente.
- Sim, entendo.
- O verdadeiro amor existe entre todas as pessoas, mas ele não é visível e perceptível em sua situação normal de vida. Pelo menos não nesta fase de seu desenvolvimento. Você já sabe isso, mas a maioria ainda não.
- Mas – continuou o Sr. Pilar – quanto ao seu questionamento, eu lhe diria que você deve prestar atenção, pois existem algumas pessoas que são especialmente próximas e vocês podem até ter uma conexão maior e mais antiga do que supõe.
- Sei disso.
- Então, você deve prestar especial atenção àquelas pessoas que se aproximam de você de forma natural e harmoniosa. Observe se a presença da pessoa enriquece alegremente a sua vida. Diante destas pessoas procure não pensar nem julgar. Simplesmente não espere nada e ouça seu coração. Sinta-o falar! Você sempre sabe se souber se ouvir. Existe uma grande chance de você estar diante de alguém com quem tem uma forte conexão amorosa para que as coisas se manifestem desta maneira.

Silenciou e finalizou.

- Com o tempo você será capaz de identificar claramente estes sinais e reconhecerá as poucas pessoas com as quais você deve se envolver amorosamente compondo um casal na concepção humana. Nunca deixe passar uma oportunidade destas quando ela se apresentar e, mesmo que não se configure o relacionamento de casal, tente não se afastar desta pessoa.

Após respirar profundamente, Sr. Pilar retomou a palavra.

- Não esqueça que todos devem buscar o amor. Sentir e viver o amor pelo Criador, pelo universo, por si próprio e pelos outros. E tenha claro que a paixão ilumina temporariamente os que ainda não vêem, mas cega os outros. Ela não é o objetivo a ser alcançado.

Silenciei e sonhei com um amor leve, terno e verdadeiro. Nos braços de uma brisa morna, flutuei imerso num odor floral. Flutuei até parar entre várias pessoas desconhecidas. Virei-me e ali estava ela. Seu sorriso me fez sentir que a conhecia há eras. Entre todos foi com ela que conversei o tempo todo. Então, absortos que estávamos em nosso encontro, notamos que todos saíam a caminhar. Nos afastamos e os acompanhamos. Eu andava sozinho acompanhando o caminho dos outros quando, no mesmo instante em que senti falta dela, notei que ela estava ali, novamente a meu lado. Era ela que caminhava comigo no meio de tanta gente. E eu era feliz neste momento, simplesmente pela sua companhia. Num precioso instante da caminhada, inadvertidamente sua mão tocou na minha. Uma forte energia percorreu todo meu ser. E o dela também, pois senti seu abalo. Então, voei para longe. Voei livre e em paz. No momento em que me senti absolutamente completo e equilibrado com todo o universo, ela novamente apareceu. Ela estava ali só pelo amor que nos unia e nos atraiu a voar juntos, pois, como eu, ela também era completa e não mais precisava de outro para simplesmente ser. Voamos cercados por duas mandalas, uma minha, outra dela. Ao mesmo tempo belas e feias, representavam um passado onde estivemos presos, um momento de ruptura e uma posterior libertação. Cada uma desenhada de uma forma, cada uma por um espírito livre. Ali, flutuando entre nossas mandalas, lembramos que nos libertamos de nossas antigas prisões numa mesma época justamente porque nos uníramos e, assim, ficamos fortalecidos pelo nosso amor. Voando livremente pudemos ver que o amor permanecia, pois ele próprio é atemporal. Beijamo-nos profundamente. Nossos lábios moldavam-se naturalmente um ao outro de tal forma que se tornaram um. Nossas mãos se entrelaçaram em todos os corpos. O odor dela, doce e suave, tornou-se um com o meu. Nossos corpos desnudos se uniram e reuniram, fundindo-se num só. Livres, banhados num imenso oceano de amor, voamos juntos. Rodopiando num estado de sublime reunião com o Todo nos amamos e nos penetramos em todos os tempos, todas as dimensões, todas as vidas. Meu doce e suave amor, há quanto tempo esperei por este momento!

Abri os olhos lentamente e percebi que sou livre. E que conheço o amor.

Olhei para o Sr. Pilar e vi que o amava. Novamente eu me sentia como no evento do ônibus. Não havia o pensar e a razão, mas algo acima disso. Eu amava aquele senhor, as pessoas que ali estavam, a árvore cujas folhas balançavam ao vento assim como este que trazia um agradável frescor a nós. Eu amava profundamente o Criador e isso era Tudo!

Então entendi que o Amor divino e universal é muito maior do que o amor humano, cheio de suas próprias intenções e necessidades de compensações. O Amor divino, também presente em nós, é puro e incondicional. Percebi que eu já não tinha muitas perguntas e, quando entendi que a paixão é apenas um recurso para despertar a visão temporária do amor naqueles que ainda estão adormecidos, passei a admirá-la ainda mais, por um lado, e a valorizá-la menos, por outro. Entendi que a paixão, para seres como o Sr. Pilar, é um sentimento superado, pois ele sente, constantemente, algo muito maior do que ela. Algo que provoca sensações bastante mais intensas e profundas. Algo a que chamamos de amor. Com o incremento do desenvolvimento e da consciência, uma pessoa passa a perceber e a viver o Amor divino que está presente na essência de tudo, inclusive na sua.

O Sr. Pilar sumira da mesma forma como aparecera. Isso não me surpreendeu. Com amor me levantei e algumas pessoas olharam simultaneamente para mim com um sorriso estampado em suas faces. Não me surpreendi novamente, sorri para elas e sai. Amamo-nos ali.

Referências (as cores indicam transcrições literais feitas neste texto):

Palestra 44 de Eva Pierrakos; Pathwork (http://www.pathwork.org/); Pw044-AS FORCAS DO AMOR, DE EROS E DA SEXUALIDADE.doc
A história do amor no ônibus é fato real vivenciado por Luciano Pillar, autor deste texto, e foi descrita tal e qual aconteceu.

DEUS E A INTERNET

CAIU NA REDE, É “DEUS”!

O mundo ocidental, dominado pela religião cristã*, se vangloria de sua cultura e seu modus vivendi, muito mais liberais e “justos”, socialmente falando, do que os dos povos islâmicos, por exemplo, mas, como boa parte do mundo, também não olha para seu próprio umbigo, com isso deixa de ver ou admitir as mazelas e absurdos que o cristianismo perpetua há séculos e a má influência que, nos últimos anos, vem exercendo principalmente sobre os jovens. Nem os escândalos envolvendo padres pedófilos nem as contínuas denúncias de fraudes financeiras contra pastores das igrejas evangélicas põem freio à escalada vertiginosa do cristianismo, aqui no Brasil, além de em outros lugares, é claro, que conquista a cada dia jovens com seus movimentos de renovação (catolicismo) e com seus mega-cultos (evangelismo), tendo agora como poderosa aliada a ultra-famosa e utilizada WWW.
O poderio da Igreja de Roma, herdado desde o apogeu do Império Romano e alavancado com o ouro e as terras, facilmente adquiridos através de sua aliança com imperadores e reis, fez do cristianismo uma “entidade espiritual” frondosa, suficientemente capaz de defender seus interesses, desarticular seus opositores e propagandear sua prática como uma necessidade na formação do caráter do homem, um elemento sem o qual, dizem seus mais fervorosos praticantes, não haveria moralidade sobre a Terra e que é imprescindível à salvação.
Se tudo isso fosse verdade, mas não é!, todas as outras religiões do mundo (e não são poucas) não teriam qualquer valor, uma vez que seus fiéis não adoram “o Deus cristão” (a saber: o Pai de Jesus Cristo, seu único filho, e dos quais somos meras criaturas, até que aceitemos “de coração” que este morreu na cruz por nossos pecados e que somente o seu sangue poderá nos redimir diante do Criador).
Assim como o cristianismo tem seu líder maior, o Papa, e toda uma hierarquia de sacerdotes (homens que se ocupam em levar ao povo os ensinamentos e a filosofia de sua doutrina religiosa), as outras religiões institucionais, como o judaísmo, o islamismo, o budismo e o hinduísmo, também os têm; assim como o cristianismo tem suas dissidências e seus sincretismos, as outras, também. Esse quadro, ou seja, essa diversificação ou “degeneração” do caráter originário de um credo muitas vezes só é percebido em seus elementos superficiais, quase nunca em sua estrutura ou base. Pouca gente, sobretudo os novos convertidos, sabem ou, ao menos, se interessam em saber, se há alguma real diferença entre o catolicismo que praticavam e o neopentecostismo que acabaram de adotaram.
Um jovem indiano da década de 1940, que provavelmente viveu e foi envolvido pela campanha de libertação da Índia do domínio britânico, capitaneada por Mahatma Gandhi, deve ter se orgulhado de ter um líder politicorreligioso hindu daquela estirpe e se mantido fervoroso em sua fé, orando a Vishnu, Brahma ou Krishna (nomes com os quais relacionam Deus), para que “os invasores” saíssem do seu país, talvez sem considerar (ou mesmo saber) que os ingleses eram cristãos, e que, portanto, deveriam ser considerados “infiéis” ou “hereges” (já que não professavam a mesma fé que a sua). Evidentemente, entretanto, outras pessoas daquele tempo, sabendo bem a força que a religião exerce sobre as massas, usou da figura de Gandhi para fomentar o ódio pelos ingleses (um sentimento que potencializaria exponencialmente qualquer reação política em favor de uma causa considerada legítima e justa). Só para registro, existem hindus há pelo menos 4 mil anos e hoje são cerca de 750 milhões no mundo inteiro.
O mundo assistiu estarrecido, no fatídico 11 de setembro 2001, aviões da própria linha comercial americana, que haviam sido seqüestrados por radicais islâmicos, serem atirados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center. Segundo se sabe, através de um plano “diabolicamente” traçado pelo líder terrorista, Bin Laden, os E.U.A deveriam conhecer e reconhecer a força do Islã (ou melhor, “O Poder de Alá”), pagando por sua prepotência política e por seu combate aos povos islâmicos com a morte de centenas de americanos de uma forma cruel e inesquecível. O kamikase islâmico, seja o soturno homem-bomba, seja o estratégico piloto-sequestrador, é considerados um homem abençoado, digno de honras e louvores, tanto na Terra quanto no Céu. O mundo ocidental cristão, representado fortemente pelo povo americano, é visto por cerca de 1,3 bilhão de muçulmanos do mundo inteiro como “o grande inimigo”.
Quando os jovens estudantes brasileiros lêem em seus livros de História que, ao atracarem na costa daquela região continental, mais tarde denominada de “Brasil”, os portugueses encontraram “seres semi-nus”, aos quais deram o nome de “índios” (por erroneamente acharem que tinham chegado “às Índias”) e, imediatamente, tratarem de celebrar uma missa (ritual da Igreja cristã) para, junto com o poder politicoarmamentista português, também aqui instaurar seu poder religioso, esse fato histórico nada diz a seu coração religioso (menos ainda às suas mentes). Quando, através das mesmas leituras, esses jovens ficam sabendo dos métodos empregados pelos jesuítas para transformar, a qualquer custo, “aqueles selvagens” em “povo de Deus”, isto é, para que deixassem sua religião natural e primitiva e aceitassem a “única fé verdadeira”, a fé cristã – também, conhecer esse fato não comove nenhum pouco os corações desses estudantes (quem dirá às suas mentes!).
A maioria das pessoas talvez jamais parou um único momento sequer de sua vida para refletir sobre sua “herança religiosa”. Por que sou cristão? católico? hindu? muçulmano? Se as pessoas o fizessem, teriam muito sobre o que pensar – e é exatamente por isso que não o fazem! Preferem o comodismo de aceitar o que já foi aceito, por seu pais, parentes, amigos ou vizinhos; acomodam-se à mesma religião dos seus pais; concluem, sem refletir, que sua prática religiosa é “a prática universal”. Mas estão enganadas!
Uma parcela significante de jovens brasileiros, ao longo das últimas décadas, vem sendo conquistada pelos cultos extravagantes de pastores das novíssimas igrejas neopentecostais, que brotam deste “solo da mãe gentil”, tal qual o capim nasce no chão de qualquer lugar. Com isso, esses jovens imaginam que estão “mais perto de Deus” (apesar de parecerem muito longe, pois eles só oram gritando, a exemplo de seus pastores, que só sabem pregar “berrando”). O culto-show torna o espetáculo religioso atrativo para um sem-número de adolescentes e jovens que não sabem ler nem seus livros de História, falar ou escrever razoavelmente sua língua, mas acreditam que, carregando suas Bíblias debaixo do braço e se congregando várias vezes por semana, estão agradando àquele que eles acreditam ser “o Deus único”, a despeito da fé diferente de milhões de outras pessoas, mundo afora.
As redes sociais estão pululando de jovens ávidos por escrever e deixar registrado o que pensam, não só para seus amigos íntimos reais, mas também para os novos amigos virtuais. Ali, é muito comum encontrarmos postagens nas quais evidenciam-se as tendências ou práticas religiosas desses jovens. A palavra “Deus” está na rede em um sem-número de publicações, usada desde o seu sentido cultural (“ah, meu Deus, que droga!), até às mais contundentes expressões de louvor (“Seja forte, minha amiga, o nosso Deus te fará vitoriosa!”). “O que há de mal nisso?” é o que muitos perguntarão.
Quem assim perguntar certamente é uma daquelas pessoas já citadas aqui, linhas acima. Daquelas que professam uma fé, acomodadas e convictas que é “a fé verdadeira”, desconsiderando assim todos os outros tipos de fé e de fiéis. No entanto, além desse drástico e rústico pensamento, essas pessoas ainda deixam de perceber que são promotoras, juntamente com milhões de outras, da “banalização de Deus”. Elas convivem com esse “fenômeno degenerativo” do ser supostamente absoluto, empregando nomes “bonitos”, que nada têm a ver com ele – “pregação”, “louvor” e “testemunho”.
“Deus”, portanto, caiu na rede, foi apanhado maliciosamente pelos “tentáculos da Internet” e, se depender de pessoas religiosas como essas (que usam a todo momento “Deus” quase como “senha” para o Facebook, o Twitter e seus e-mails) e de pastores, que não querem apenas “berrar” nas ruas e dentro de suas igrejas, mas também abocanhar rebanhos Web afora; se depender desses aí, Deus logo perceberá que fez uma bobagem ao enviar seu Filho Jesus para ser morto tão cruelmente para nos salvar de nosso próprios pecados. Se tivesse esperado só uns dois mil anos (que para “Ele”, que tem a eternidade, não significam nada), salvaria a todos através de um link direto para o céu. O slongan poderia ser este: “Linkou, salvou!”. O diabo é se “o Diabo” tiver caído na rede primeiro. Aí... é melhor deletar tudo...


*O cristianismo continua a reunir a maioria dos fiéis de todo o mundo, constituindo cerca de um terço da humanidade. Os restantes 67% dividem-se entre religiões não cristãs, dentre as quais as mais importantes são o islamismo, o budismo e o hinduísmo. Mais de 28% dos cristãos concentram-se na Europa, enquanto outros 24% estão na América Latina. Só o número de Católicos ultrapassa, em 1999, a marca de 1 bilhão de adeptos, ficando em 17,5% da população do planeta, segundo aEnciclopédia Britânica. No decorrer da década de 90, os protestantes aumentam o número de adeptos em 120%. O islamismo avança nos países onde essa religião já é predominante: o crescimento é de 157% nos anos 90. As religiões orientais, como o budismo, o zen-budismo e o hinduísmo, no ocidente, passam, no final do século XX, por um período de crescimento.
Fonte: almanaque abril 2001 - religião - página 60.

sábado, 1 de outubro de 2011

Estreia na Mythos Editora

A EXISTÊNCIA COMO REPRESENTAÇÃO DA VONTADE




Com esse artigo, eu inicio minha participação numa Editora nacional com grandes publicações no campo da Filosofia e da Espiritualidade - áreas em que venho me destacando ao longo dos últimos cinco anos, durante os quais conquistei até agora nada mais, nada menos, do que 8 publicações em 4 diferentes revistas de 3 Editoras distintas. O que para mim é uma honra e coroa esforços que envidei nesses últimos anos, no sentido de não ficar estagnado na mera graduação, uma vez que sempre acreditei que há muito mais a fazer.
Em breve, será publicada minha entrevista à Revista Sexto Sentido, na qual trato da questão da suposta vida em outros planetas.

Quero, de público, agradecer mais uma vez à Sra. Ana Elizabeth Cavalcanti pelo convite que fez a mim para esta participação na Revista, pelo apoio que demonstrado aos meus projetos e pelo carinho como me recebe e responde nos e-mails.

Dito isto, ponho na boca de vocês um pouco do mel de minhas palavras, que pode ser encontrado inteiramente na Revista "Grandes Temas do Conhecimento - Filosofia" Nº05, já nas bancas.

Na página 44 da Revista, lemos:

"Se observarmos com criterioso escrutínio, perceberemos que tudo que vem à vida teima em existir, a despeito das intempéries, obstáculos e dificuldades que inapelavelmente se apresentam em contrário. Os espermatozóides correm em direção ao óvulo numa competição salutar e benfazeja de causar inveja a qualquer maratona de tradição internacional ou corrida da bilionária Fórmula 1; a semente que cai ao solo busca sofregamente penetrar nele, para dali extrair seu alimento e, em seguida, brotar triunfante em direção ao sol, que dará alento a uma haste frágil, a qual, em breve, se tornará um frondoso caule. Exemplos na natureza existem num sem-número de casos que ocorrem a todo momento, sem cessar. A vida vem da vida, é certo; mas, acima de tudo, a vida vem da vontade de viver.
Essa foi a conclusão a que chegou um dos mais célebres filósofos pós-kantianos – seu nome, Arthur Schopenhauer (1788-1860). O rótulo de pessimista, cunhado por historiadores da Filosofia, estigmatiza e macula a memória de um dos homens mais sinceros e profundos no tocante a expressar com realismo o que é a vida e, sobretudo, o que é a vida para o homem. “Agora terei de ouvir novamente que minha filosofia é desesperada somente porque me expresso conforme a verdade, mas as pessoas querem que se lhes diga que o Senhor Deus tenha feito tudo do melhor modo. Dirijam-se à igreja, e deixem em paz os filósofos. Ao menos não exijam que estes exponham suas doutrinas conforme seus ensinamentos: isto, fazem-no os trapaceiros, os filosofastros: a estes, podem encomendar doutrinas à vontade”, eis o seu desabafo contra aqueles que esperam que a Filosofia seja a parteira de boas-novas, de verdades doces e de lucubrações pueris".

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

UMA DIETA PARA O SER INTEGRAL

VEGETARIANISMO SEM SENTIMENTALISMO

O desenvolvimento dos diversos elementos em ação no ser humano, requer um estudo todo particular. Antes de agir sobre a natureza, o homem deve ser suficientemente senhor de si mesmo, para resistir às emoções de seu ser impulsivo. O homem orgânico não é senão uma criação da natureza, por ela posta a serviço do homem-espírito, na existência terrestre. O organismo humano toca em dois reinos: o reino animal, pelo peito, e o reino vegetal, pelo abdômen. O homem desenvolvido se tornará assim um gerador consciente de vontade dinamizada e poderá exercer, desde logo, práticas que demandam pouco desenvolvimento de faculdades, mas que facilitarão outras superiores, que exijam mais esforço por oferecerem maiores dificuldades.

A alimentação é de suma importância para todo aquele que deseja realmente obter sucesso no domínio de suas faculdades instintivas, as quais são inerentes aos veículos material e espiritual que o compõem. O ideal a ser atingido por aquele que se submete a um regime alimentar consiste em pôr à disposição da vontade a maior quantidade possível de força nervosa em um tempo dado. Em breve, lhe sobrevirá um certo sintoma pelo qual sentirá que sua vontade já possui a força necessária. A este sintoma denominamos de ‘liberdade de espírito'.

O espírito livre corresponde, enquanto sensação psíquica, ao estado fisiológico no qual a vontade se acha em condições de manejar livremente uma grande quantidade de fluidos nervosos. Esse estado se manifesta, principalmente, pela manhã, ou estando a pessoa em jejum, portanto, nos momentos em que está menos ocupada com qualquer trabalho fisiológico do organismo, sobretudo, pela digestão. Haverá ali uma sensação de ‘desmaterialização progressiva do ser', de separação entre o ser orgânico e o ser psíquico. Essa sensação ou ‘estado de espírito', no entanto, é transitória, pois o jejum não deve ser prolongado e, em casos normais, a pessoa precisa assumir sua vida ordinária.

É fácil entender que tal ‘liberdade de espírito' só pode ser atingida pela diminuição do peso do organismo e, assim, qualquer regime alimentar adotado, notadamente o vegetarianismo, deve ser estipulado sob determinadas condições e prazos, e, jamais, de forma absoluta e contínua, sob pena de submeter o organismo a possíveis problemas de subnutrição, ocasionando-lhe um resultado contrário, isto é, o mal-estar ou a doença, senão mesmo a morte. O estado de saúde físico é obtido por um harmonioso equilíbrio entre o ser espiritual e o ser orgânico. Qualquer desequilíbrio em favor do ser espiritual pode levar ao desfalecimento ou à loucura; enquanto que em favor do ser orgânico pode levar à sonolência e ao embrutecimento.

Os alimentos tirados do reino vegetal agem, quase exclusivamente, no aspecto instintivo e produz calma ao organismo. Aquele, pois, que deseje obter um bom proveito do regime alimentar vegetariano, deve procurar viver ou, pelo menos, passar um período, no campo. Bebendo somente leite e água, em breve, lhe sobrevirá um estado de paz jamais sentido por seu organismo outrora agitado. Se desejar ir mais longe ainda, ele deve acrescentar a esse regime o uso de chás, várias vezes por dia e praticar a meditação, pela manhã e à noite, durante uma hora ou hora e meia.

A exclusão do peixe, da carne e do álcool do regime alimentar será muito mais proveitosa se pessoa morar longe da agitação das grandes cidades, pois poderá ser mantida ininterruptamente, sem qualquer perigo. Este regime acalma os instintos grosseiros do homem, tirando dele qualquer agitação. O leite, os ovos e o queijo são recomendáveis em regimes vegetarianos de longa duração.

O vegetarianismo a longo prazo deve considerar, sobretudo, fatores climáticos. Ser ou tornar-se vegetariano, portanto, é mais uma questão de ‘poder' do que de ‘querer'.  Assim, ninguém deve adotar uma prática vegetariana simplesmente por razões sentimentais, por imposições de sua religião, ou quaisquer outras que não levem primeiramente em consideração seu próprio organismo e as condições do clima do lugar em que vive ou pretende viver. Na Índia, no Egito e nas regiões equatoriais, a nutrição dinâmica exercida pela influência solar e um pouco de arroz podem ser suficientes para uma boa carga nutricional. Já, em outras regiões dessemelhantes, qualquer regime vegetariano pode fazer mais mal do que bem ao seu praticante. O vegetarianismo é, na verdade, uma necessidade fisiológica que depura o organismo, quando se trata de climas onde o dinamismo da atmosfera, devido ao calor do sol, seja muito sensível.

É, a partir do fato de que o regime vegetariano produz a calma orgânica, que diversas seitas foram fundadas, impondo com rigor, umas mais que outras, tal regime a seus adeptos, sem se preocuparem com sua fisiologia, seu meio e clima. Começaram, então, a disseminar nas mentes de seus seguidores argumentos de caráter puramente ideológico e sentimental. Argumentos como: "O homem não precisa matar para se alimentar!". Esquecem-se, porém, que, na natureza, por toda parte, essa é a regra, senão a lei sine qua non para existir ou, pelo menos, continuar existindo. Sabe-se, por exemplo, que a vida vegetal se mantém somente pela dissolução lenta dos minerais e que a dos herbívoros, por sua vez, pelo sacrifício incessante dos vegetais. Isto sem falar de toda a cadeia nutricional das variegadas espécies de animais que, só continuam vivos, porque saem a caça para devorar aquelas outras espécies para as quais a própria natureza os fez predadores.

Desnecessário dizer que devemos deixar de lado esse tipo de sectarismo estreito ao extremo e compreender que o organismo humano é um agregado de seres vivos, que para se desenvolverem, arrebatam à natureza outros seres vivos. Não há o que admitir nesse tipo preconceituoso e pernicioso de misticismo que conduz seus adeptos ás torpezas sensuais, sob o pretexto de que "a alma é totalmente avessa às aspirações do corpo", utilizando-se assim somente da imbecilidade, senão da loucura, a partir do que pretende com isso "espiritualizar o imundo organismo".

De volta às nossas considerações lúcidas sobre o regime vegetariano, devemos lembrar que não se deve passar do regime ordinário para o vegetarianismo de forma abrupta, jamais. Antes, pelo contrário, deve-se eliminar, a pouco e pouco, o consumo de café e álcool, em seguida, suprimir a carne ao almoço ou ao jantar e, por fim, em ambas as refeições. O peixe e outros alimentos mais leves podem ser retirados das refeições um pouco depois. Essa progressividade não somente é benfazeja para a adaptação do organismo, como também ajuda o praticante a tolerar melhor o novo regime.

Nas grandes cidades de vida agitada, onde tudo gravita em torno da esfera passional e não em volta da esfera instintiva, como no campo, as tentativas em adotar um regime exclusivamente vegetariano podem se demonstrar desastrosos, mas, nem por isso deixaria de ser recomendado, considerando-se sempre, é claro, outros fatores que não unicamente o simples "eu quero".

Em resumo, acima de tudo, usar o bom senso na hora de adotar qualquer regime alimentar, sabendo bem que o ser intelectual ou homem-espírito, que só se nutre de sensações e que só sente e age pela força nervosa, pode até permitir-se o capricho de ser vegetariano por mero sentimentalismo, mas o organismo, o ser orgânico, que fornece a energia neural, provavelmente não resistirá aos efeitos de tal capricho.

 

 

* Este artigo é uma adaptação modificada dos Capítulos I, II, III e IV do livreto "Realização do Homem Superior", de autoria de Papus (pseudônimo de Gérard Anaclet Vincent Encausse,médico, escritor, ocultista, rosacrucianista e cabalista francês do século XVII).

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

NIETZSCHE E EU NAS BANCAS

NIETZSCHE - "O CREPÚSCULO DOS SONHOS"


"Antes mesmo que a Europa fosse o palco das duas Grandes Guerras, um filósofo analisava a desilusão e a falta de esperança na vida da sociedade europeia, criticava os valores morais e arrancava do Ocidente sua última muleta espiritual – Deus. Como um psicólogo de sua nação, a Alemanha, Nietzsche combatia contra a filosofia de seus compatriotas, percebia que a virilidade e o orgulho alemães eram traços germânicos indeléveis e antecipava os riscos que representava para o continente aquela que seria a protagonista dos maiores conflitos mundiais de todos os tempos".

Esse é o texto de chamada do meu artigo "O Crepúsculo dos Sonhos, publicado na Revista "Nietzsche Vol.II" (Editora Escala). Nele, analiso como o filósofo lança seu olhar sobre os acontecimentos e valores culturais de sua época, tecendo ali sua filosofia de contraposição. Aí, logo se vê que ele se tornará uma pedra no sapato do convencionalismo e do tradicionalismo, em vista de que percebe que “o valorar errado levou toda a Europa a um viver errado”. Esse papel de intérprete crítico e psicológico de seu tempo e lugar exigirá dele que lance mão de novos valores e representações, sob pena de sucumbir às mesmas “velhas verdades e convicções” que vitimaram seus contemporâneos.

Para uma melhor compreensão da filosofia nietzschiana, é necessário despojar-se de algumas concepções e valores culturais e religiosos, pois, de uma forma ou de outra, foram esses os atacados por esse filósofo. Isso não significa que o estudante deva abdicar de suas convicções ou ignorar seus valores em definitivo, não! Significa que seus valores e convicções não devem se impor aos temas e pontos estudados, sob pena de este estudo se tornar um embate de valores e convicções, o que não será nada proveitoso. Compreender o universo nietzschiano é mergulhar na solidão, na doença e no contexto historicocultural do filósofo. Nenhum desses três elementos pode ser considerado isoladamente ou mesmo deixado de lado. Outro fator importante é manter sempre uma análise interpretativa e psicológica direcionada para os conceitos e representações do autor. A preocupação da Filosofia com os conflitos interiores e exteriores do homem são, como se sabe, os fomentadores do surgimento da Psicologia e da Sociologia. As guerras entre povos e nações, os conflitos políticos, a desagregação social, a submissão da razão à fé serão para Nietzsche a matéria-prima de sua nova filosofia: a filosofia do martelo.

Voltando ao meu artigo, lá eu digo: "Alguns comentadores da obra de Nietzsche dizem que a forma aforismática como escrevia dava vazão às mais variadas interpretações, ao modo como fazem os que lêem os escritos deixados por Nostradamus; por outro lado, há outros que enxergam na obra de Nietzsche não fragmentos mas apontamentos que precisavam ser registrados por ele imediatamente, antes que sua mente intempestiva investisse para novas questões, num mundo em que o que estava em ruínas ainda precisava tornar-se pó, para semelhante à Fênix, ressurgir em todo seu esplendor. Percebendo desta maneira o conjunto de sua obra, vemos que as partes se encontram e se juntam, como se juntariam para formar o quadro que estava logo à sua frente, ainda no alvorecer do século XX".

Enfim, Nietzsche é um filósofo polêmico e instigador que influenciou muitos outros pensadores e ainda influencia leitores, estudiosos e professores de filosofia, talvez por isso haja tantas publicações nos últimos tempos a seu respeito. Eu, como bom nietzschiano que sou, não deixo de estudá-lo praticamente todos os dias, e estou convencido de que ele, algum dirá, me desvelará sua filosofia.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

MONOGRAFIA

MINHA MONOGRAFIA (PARTE V) Dando continuidade às postagens de meu trabalho de conclusão de curso, chegou a vez de darmos uma olhada em como eu revisitei o cristianismo, traçando algumas pontuações de outras doutrinas e religiões. Acompanhe e deixe seu comentário. Obrigado!!!
3 O CRISTIANISMO REVISITADO A Bíblia, escrita originalmente em hebraico, aramaico e grego, e hoje traduzida para mais de 2 mil línguas e dialetos do mundo inteiro, é composta, segundo os católicos, de 73 livros e, segundo os protestantes, de 66, contendo ensinamentos, aventuras, personagens reais e míticos, poemas e, principalmente, a história do povo hebreu de adoração e busca de seu Deus. Esses relatos começaram a ser redigidos em cerâmica e pergaminho, cerca de 2.800 anos atrás. Os hebreus, ou israelitas como também são chamados, diferenciaram-se dos demais povos antigos, principalmente, por sua adoração a um único deus – Javé ou Jeová, um deus ora com características de pastor (guia, condutor do seu rebanho), ora com características de guerreiro (expressão da luta e da certeza de vitória sobre os inimigos e as adversidades da vida). As demais religiões antigas eram caracteristicamente politeístas, constituídas de um panteão de vários deuses que se dedicavam a proteger seus adoradores, abençoar as atividades humanas, como plantio e colheita, ou ainda representar arquetipicamente as expressões e sentimentos humanos como o amor, a bondade, o castigo, o sofrimento, etc. Ainda que se considerasse um poder divino central, ele não era onipotente ou hegemônico e sim resultante dos demais poderes de outros deuses e/ou semi-deuses. Javé, no entanto, vai ser para os hebreus o Deus todo-poderoso, criador do céu, da terra, de todos os seres e coisas do mundo, diante do qual não se poderia admitir adoração a nenhum outro deus, forma ou expressão divinas, que, a partir do pensamento religioso hebraico, se tornariam ídolos, que só conduziriam os povos à idolatria, à perdição e, consequentemente, ao desfavorecimento da graça divina. “Tirai do meio de vós os deuses estrangeiros, purificai-vos e mudai vossos vestidos” (Gen. 35,2). Jacó, um dos patriarcas da fé cristã convoca sua família a uma mudança de comportamento religioso, pois considera que Jeová o ouvira em sua aflição. Perceba-se que mudar hábitos, vestimentas e costumes é uma forma mordais de desculturalizar e assim enfraquecer a tradição de um povo. “Eis o que diz o Senhor, o Deus dos hebreus: até quando recusarás humilhar-te diante de mim? Deixa ir o meu povo para que ele me preste o seu culto” (Ex. 10,3). Aqui, Moisés e Aarão ameaçam Faraó de enviar gafanhotos por todo Egito para devorar toda a colheita e todos os campos, caso a ordem do Senhor não seja cumprida. Note-se que aqui Javé exige de Faraó humilhação e obediência, como se este estivesse sob seu jugo – inversão de valores: é o povo hebreu que está sob o jugo egípcio. A saga do povo hebreu é capitaneada pela adoração e pela proteção de Javé. Onde quer que fossem, tornavam-se numerosos e constituíam uma ameaça à nação ali instalada. No Egito, o Faraó, percebendo a proximidade do perigo, tomou duras medidas contra eles, mas segundo o relato bíblico, Javé fez de Moisés o libertador de seu povo. O livro sagrado dos cristãos é dividido em Velho e Novo Testamentos, sendo que o primeiro relata os eventos desde a criação, com Adão e Eva, passando pelos patriarcas hebreus, Noé, Abraão, Jacó, Moisés, Davi e Salomão; o segundo narra a vida , “paixão” e morte de Jesus, o Cristo, considerado pelos cristãos o redentor, o filho de Deus Altíssimo, mas para os judeus (povo descendente dos hebreus e israelitas) apenas mais um profeta de Javé. A Bíblia, também chamada de “A Palavra de Deus”, por todos os cristãos, apesar de ter autores variados e de diferentes épocas, por ser considerada uma inspiração do Espírito Santo, deve ser compreendida como tendo uma só autoria, a de Deus. Comparada aos Vedas (compilação dos livros sagrados dos hindus) a Bíblia pode ser vista como apenas mais uma das muitas tentativas de se explicar a origem do mundo, da humanidade e sua necessidade de espiritualidade, de religiosidade, sua “natural” predisposição a alimentar o espírito, alimentar a alma. O Dhamapada dos budistas e o Tao te King dos taoístas trazem, assim como a Bíblia, profundos ensinamentos morais e comportamentais, dentro de uma perspectiva “religiosa”. “Lute por lutar, sem considerar felicidade ou tristeza, perdas ou danos, vitória ou derrota – e, agindo assim, você nunca incorrerá em pecado” (Prabhupada, 1976, p. 80). Krishna, no Bhagavad-Gita instrui Arjuna para uma luta na Terra; exorta-o a esquecer seus laços familiares e lutar para conquistar o reino de Mahabharata ( a Índia), pois um general como ele jamais deve abandonar seu “dever” de lutar a despeito dos adversários (ainda que fossem pessoas veneráveis). A força, a idéia de combate, a honra e a altivez do espírito ali estão presentes, valorizando a auto-estima e aquilo que o filósofo alemão chamaria de “vontade de potência”. “Quem de boa vontade carrega o difícil, supera também o menos difícil. Quem sempre conserva a quietude, é senhor também da inquietude. Por isto, o sábio carrega de boa mente o fardo da sua jornada terrestre” (Rohden, 1982, p. 80). Neste trecho o Tao te king destaca o fardo de viver neste mundo como etapa para a elevação dos grandes homens, dos sábios. Também aqui percebemos o sentido de resistência como virtude para a ascensão. No budismo, Buda não é deus, nem é nome próprio, é o título dado àquele que alcançou o nirvana, a iluminação. O budismo é menos religião e mais filosofia. Nietzsche o considerava uma religião “higiênica”, querendo dizer com isso que o budismo não trazia podridão à vida, como ele considerava que o cristianismo traz. Para o islamismo, Maomé não é deus, nem filho de deus, é apenas um profeta, e o Alcorão é o livro dos preceitos divinos. Entretanto, tendo a mesma origem do judaísmo e do cristianismo, estabelece sua fé em um deus único. É verdade que na Bíblia também podemos encontrar passagens que convocam os homens para a luta e para a resistência, mas, nas entrelinhas, ressoa a moral cristã, onde menos vale o homem e mais vale a ordem do Deus todo-poderoso. O que se pretende aqui é mostrar que há outras grandes religiões no mundo, no entanto, o cristianismo, postula ou impõe à humanidade uma única via, sem a qual os seres humanos estão excluídos do “reino dos céus”, uma filosofia de pregação contra a natureza e a vida, ou se auto-intitula religião do povo eleito por Deus. O que se vê, ao longo da História, é a busca de vários povos em se auto-preservarem, criando para si, conforme a necessidade, filosofias e práticas que alicerçam-se em divindades antropomórficas e arquetípicas e em prol de uma vida melhor. O cristianismo não passa de mais uma dessas perspectivas. As bases da crítica nietzscheana ao cristianismo estão no fato de ele ser a religião predominante no Ocidente, conseqüentemente na Europa, e de, no exercício do seu poder paralelo ou simbólico, a Igreja, ter alquebrado o espírito humano com seus postulados contrários à vida (pecado original, perdição humana, juízo final, etc.) e, sub-repticiamente, ter tolhido e combatido nossa “vontade de potência”, à maneira como a compreende o filósofo. Nietzsche, com sua perspectiva histórica, nos lembra o seguinte: “(...) nenhum deus era a negação, a blasfêmia de um outro deus!” (Nietzsche, 2003, p. 123). O filósofo prussiano usa sua mais instintiva visão histórica para declarar: “Olhar a natureza como uma prova da bondade e da providência de um deus, interpretar a história em honra de uma razão divina, como o testemunho constante de uma ordem e de um finalismo moral do universo, explicar tudo o que vos acontece, à maneira das pessoas piedosas, por uma intervenção divina, um sinal, uma premeditação, uma mensagem da Providência tendo em vista a salvação da nossa alma, tudo isso é passado, a consciência opõe-se a isso; não há consciência um pouco sutil que não veja aí inconveniência, deslealdade, mentira, feminilidade, fraqueza, covardia; é esta severidade, mais do que qualquer coisa, que faz de nós bons europeus, herdeiros da mais longa e da mais corajosa vitória que a Europa obteve sobre si” (NIETZSCHE, 2003, p. 202).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

MINHA MONOGRAFIA (Parte IV)

CONTRA O CRISTO OU CONTRA O CRISTIANISMO?

Nesta quarta parte de minha monografia, tento mostrar que Nietzsche, apesar do título que deu a seu livro, "O Anticristo", faz ataques veementes não exatamente ao Cristo (e diz que ele foi "o único cristão verdadeiro"), mas ao Cristianismo, o qual combate em toda sua obra.
Acompanhe mais um capítulo e deixe seu comentário. É importante!


2.2 Quem é o anticristo?*

O título “O Anticristo” provavelmente leva a uma apressada interpretação de que a obra de Friedrich W. Nietzsche assim denominada seria um manifesto contra o Cristo, o nazareno. Aos milhões de cristãos do mundo inteiro, tal título já é suficiente para repudiar o livro e condenar por blasfêmia tão maldito autor ao fogo eterno do inferno, sem direito ao purgatório. No entanto, apesar de o nome Cristo, para os fiéis, ser indissociável do nome Deus, chegando mesmo a serem um e único ser, sob o ponto de vista do filósofo alemão, um e outro são personagens completamente diferentes. Deus, para Nietzsche, é uma invenção mental ardilosa dos hebreus, resultante da fraqueza e da covardia de um povo que, temendo por seu destino, teve a necessidade de se sentir submetido, e ao mesmo tempo protegido, a uma entidade metafísica, que pairasse acima das vicissitudes humanas e, principalmente, legislasse a seu favor. Por outro lado, Cristo, o ungido, é um personagem humano, portanto histórico, de carne e osso, emergente de uma cultura impregnada de secular esperança religiosa no advento de um representante desse “Deus” na Terra.
Em seu prefácio ao livro “O Anticristo”, o mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP, Mauro Araújo de Sousa esclarece esse ponto de vista do filósofo da seguinte maneira:
“É bom que se esclareça também que há uma grande diferença para o filósofo entre Cristo e o cristianismo. E, se ele posiciona-se como o anticristo, é porque quer despertar uma nova cultura que não seja embasada em leituras que se fizeram de Cristo e nem do próprio Cristo, que para Nietzsche não passava de um romântico que pretendia mudar as coisas a partir do seu bom coração”.
E mais a frente acrescenta:
“(...) o anticristo não considera Cristo como um fanático, mas o ver como criança, em inocência, sem rancor. O mesmo não acontece com o Cristianismo, a pátria do ressentimento”. Para concluir Souza sentencia: “Que tipo de leitura, em suma, Nietzsche faz de Cristo? Uma pessoa boa que atravessou todas as lutas construindo aqui mesmo o seu “Reino dos céus”.”
O próprio Nietzsche tem palavras bastante conclusivas sobre o nazareno, que, se não apascentam a revolta dos cristãos contra ele, pelo menos, não se pode deixar de notar que são palavras de uma análise profundamente honesta e sóbria de um personagem histórico, não de um mito divino:

“A própria palavra “Cristianismo” é já um equívoco – no fundo só existiu um cristão, e esse morreu na cruz. O “Evangelho” morreu na cruz. Aquilo a que desde então se chamou “Evangelho” era o contrário do que o Cristo havia vivido: uma “má nova”, um “Dysangelium”. É falso até à estupidez o ver numa “fé”, neste caso a fé na salvação por Cristo, o sinal distintivo do cristão, só a prática cristã, uma vida tal como a viveu aquele que morreu na cruz, é cristã...”

(NIETZSCHE, 2000, p. 73-74).
Comparado ao que o filósofo dirá sobre Deus, deve ficar evidente quão diferenciadas são as noções que ele tem de um e de outro:

“A concepção cristã de Deus - Deus como Deus dos doentes, Deus que tece como aranha, Deus espírito – é uma das mais corruptas concepções de Deus a que sobre a Terra se tem apresentado; representa até, possivelmente, o nível mais baixo de evolução declinante do tipo divino: Deus degenerado em contradição da vida em vez de ser a sua glorificação, e a sua eterna afirmação! Declarar guerra em nome de Deus à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus, essa fórmula para todas as calúnias contra o “aqui e agora”, e para todas as mentiras do “além”! O nada divinizado em Deus, a vontade do nada divinizada”

(NIETZSCHE, 2000, p. 51-52).

Assim, “O Anticristo” é mais propriamente um “anti-Deus”, “anticristianismo”, “antídoto” contra os detratores da vida, contra os traidores da terra, contra os pregadores da morte – numa palavra, contra todos que não são dignos de desatar as sandálias dos espíritos livres.
O ser metafísico, ao qual se opõe o filósofo, o legislador do mundo e da
humanidade, “O Deus único”, deixou denunciar sua inexistência quando desamparou a primeira e última esperança de redenção:
“Eli, Eli, lamma sabactáni!” (Mateus 27:46).


* Esta publicacção continuará em edições futuras. Não perca!!!