quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

REFLEXÕES DO SÉCULO XXI (Parte III)

SE DEUS NÃO EXISTE, QUEM OU O QUE GOVERNA O MUNDO?


O termo “Deus” tem significados diversos e conotações as mais variadas: “Senhor”, “Criador”, “Pai”, são alguns dos sinônimos, enquanto “Ser Supremo” “Bem Supremo”, “Soberano do Universo”, também são expressões usadas para se referir a Ele. Em cada religião o termo “Deus” ganha um nome próprio, também pode mudar de forma e atributos. A palavra “Deus” se tornou tão forte entre nós que, quando emitida, gera nas pessoas algum tipo de reação emocional, a qual será mais forte ou mais fraca, agradável ou desagradável, conforme seja a identificação de cada pessoa com ela. Embora em cada religião a ideia “Deus” se modifique, o que não muda basicamente é a sua relação com o homem e este com Ele. Dito de maneira objetiva e clara, o que as religiões parecem dizer é que ‘Deus foi feito para o homem e o homem foi feito para Deus’, o que evidentemente não leva a lugar algum.

Até aqui, nesta série de reflexões propostas, temos analisado apenas a noção de Deus conforme apresentada pelas religiões, já que são elas que pretendem dar conta do que Ele seja. Mas o que espero fique claro é que, além das divergências entre elas, há ainda incongruências enormes dentro delas mesmas. Como, por exemplo, na vertente católica do cristianismo, a ideia “Deus” é apresentada como “o bom Pai” que tem moradas no Reino dos Céus para todos os seus filhos (como está escrito no Novo Testamento). Ora, essa perspectiva não dá lugar para Jeová, “O Deus Irado” que amava apenas o povo hebreu. A vertente evangélica, embora maciçamente atrelada ao nome Jesus Cristo, parece remeta a ideia “Deus” de volta à sua concepção no Velho Testamento, tendo, inclusive, seu “Povo Escolhido”, “O Povo de Deus”, “Os Eleitos”, o que não é corroborado nem um pouco pelas palavras do Cristo. Assim, vemos que o que há, na verdade, é uma adequação da ideia “Deus” aos interesses de cada doutrina, fazendo daquele que deveria representar “o Absoluto” um joguete, uma marionete, que é apresentado aqui ou ali conforme não o que é, mas o que querem que seja.

Já se foi o tempo em que não se podia questionar a existência desse “Deus das religiões” (embora a Idade Média, insisto, ainda não tenha acabado). Hoje, esse questionamento já não é restrito à Filosofia acadêmica, aos tratados filosóficos de grandes pensadores, já podem ser encontradas publicações em bancas de revistas que trazem o tema à baila. Citarei duas aqui. A renomada revista Planeta (Editora Três), na sua edição 471, de dezembro de 2011, trouxe, como matéria de capa, “Sem fé nem Deus”. O texto de Mariana Tavares apresenta números do crescente aumento daqueles que não professam nenhuma religião, dos agnósticos e dos ateus. A matéria chama a atenção para o fato de que “ateu” não é apenas aquele que “não crê em Deus”, ele também “crê que Deus não existe” (o que se aproxima mais do objetivo deste artigo). Além disso, a matéria apresenta nomes de várias personalidades que “não acreditavam em Deus, como Portinari e Sartre, assim como os nomes de grandes opositores das religiões e da existência de Deus, como o biólogo britânico Richard Dawkins e o filósofo norte-americano Daniel Dennett. Enfim, o texto de Mariana Tavares é elucidativo e contextualizado, pois evoca também questões socioculturais e políticas deste início de século 21.


A segunda revista que citarei é a “Psique – Ciência & Vida” (Ed. Escala), que em sua edição 97 trouxe estampada em sua capa “Fé Cega”. Nela, o texto “Quem precisa de religião?”, Marcelo da Luz (professor, conferencista e autor do livro “Onde a Religião termina?”) faz uma abordagem mais psicológica dessas questões da fé em Deus. Ali, o autor cita, por exemplo, Freud, que considerava o fenômeno religioso “uma neurose coletiva”. O texto tenta contrabalançar os prós e os contras da fé, mas parece enfático em lembrar que certos fatores psicológicos como o medo da morte, por exemplo, fazem as pessoas se deixarem “manipular consciencialmente” pelas religiões. Também diz que “pessoas inseguras quanto as próprias capacidades anseiam encontrar alguém que lhes aponte uma estrada e lhes diga o que fazer”. Claro: é bem aí que a muleta “Deus” passa a ser o totem das religiões e aquela velha imagem do “pastor guiando as ovelhas”, tão atrelada ao cristianismo, não deixa dúvidas do nível de dependência dos fieis. Parece-me pertinente também transcrever aqui dois momentos do pensamento do autor, bastante corroboradores do que tenho dito: “[...] a idéia da religião pacífica parece ser um mito, pois as religiões, historicamente, sempre fizeram apologia da tirania e da escravidão”. “Se o ser superior é mensageiro de verdadeiro amor e fraternidade, não seria mais lógico que estimulasse os seres humanos à autonomia moral da consciência, no lugar de exigir adoração e louvores para si mesmo?”.

Acreditando que neste ponto todos já tenham percebido (embora não necessariamente aceitado) ao onde pretendo chegar, pois a fé se mostra renitentemente opositora da razão, devemos partir para a análise do que afinal sustenta, equilibra e governa todo o Universo, pois, como vimos, aquilo que até aqui foi chamado genericamente de “Deus” pelas religiões jamais poderia ser o promotor de tanta harmonia, sendo Ele próprio um ‘desequilibrado’, que ora tem um humor, ora tem outro; ora é de um jeito, ora é de outro.

Segundo nossa maneira lógica de perceber o Universo, a Natureza, a Existência, já concluímos, há algum tempo, que tudo isso é um “organismo auto-regulado”, auto-suficiente, tendo “leis” extremamente eficientes em mantê-lo e preservá-lo. Todas as espécies, aves, animais, plantas, assim como rios, montanhas, vales e florestas, enfim, tudo pode sucumbir, ser extinto, ser substituído, ser modificado etc, sempre parecendo que há ali um plano de “manutenção” de algo maior. Os primeiros filósofos se debruçaram sobre essa preocupação – qual a origem do Universo? qual a sua natureza? A isso deram o nome de cosmogonia (a gênese do cosmo); em seguida, empreenderam meditações sobre o Universo e suas possíveis leis, dando a isso o nome de cosmologia (o estudo do cosmo). Ali não havia qualquer preocupação ou qualquer esperança de se chegar a um “Deus” criador e mantenedor do mundo. A ideia “Deus”, no sentido religioso que tratamos até agora, era totalmente desconhecida para eles. É impressionante o que aqueles homens descobriram, embora carecendo totalmente de instrumentos tecnológicos e outros recursos, que somente surgiriam muitos séculos depois.

 Paulo de Tarso, o verdadeiro fundador da Igreja cristã, disse em uma de suas epístolas que “A razão do homem é, para Deus, loucura!” (I Coríntios: 3, 19). Mas quem deu a “Razão” para o homem, o Diabo? Se assim fosse, não haveria negar que o Diabo é realmente o grande rival de Deus, e que ambos são forças antagônicas poderosíssimas. Aí, nos veríamos diante de mais uma incongruência religiosa: a Religião nos diz que “Deus” é “onipotente”, o que significa dizer, lembremos, que só Ele detém todo o poder. E agora? Como vemos, se insistirmos em admitir a existência desse “Deus” das religiões, teremos ainda mais um problema: o Diabo. Portanto, como tenho proposto, deixemos “Deus” na sua santa inexistência, porque problemas nós já temos demais sem Ele.

Se, durante séculos, nos convencemos de que somos seres especiais, já é mais do que hora de, também, repensarmos essa ideia. Se somos racionais e livres, como muitos creem, já é tempo de compreender que essas qualidades podem não significar exatamente “vantagens” ou “privilégios”, haja vista o mau uso que temos feito dessa nossa razão e liberdade. Saímos da Idade Média, do obscurantismo, para o otimismo iluminista do início da Era Moderna. Mas esse otimismo com o futuro do homem, ao que parece, ‘morreu na praia’, assim que chegou ao século 19. E, para piorar as coisas, presenteamos a primeira metade do século 20 com as duas Grandes Guerras – o animal racional tinha aprendido a matar os da sua mesma espécie com requintes de crueldade e com armas cada vez mais poderosas; enquanto o animal irracional, aquele sem privilégios, continuava predador apenas das outras espécies que eram necessárias à sua alimentação. Quanta inveja a nossa, não?! Àquela altura, a tábua com os dez mandamentos divinos já podia ser usada para qualquer outra coisa, menos para ser o “Código das Leis de Deus”. Mais uma vez, vemos como os alicerces e as colunas dos templos religiosos, suas ideias, ideais e dogmas, são perigosamente abalados, sobrando apenas uma edificação em ruínas.

No século 17, portanto, logo depois da Idade Média, vamos ter notícia de um filósofo, chamado Baruch de Spinoza (1632-1677). Spinoza, como ficaria conhecido, surgiu com ideias inovadoras sobre o tema destas nossas reflexões. Apesar de ele ainda usar o termo “Deus”, sua noção sobre Ele era bastante diferente das dos demais filósofos de sua época e anteriores a ele, e praticamente oposta à das religiões – o que, evidentemente, lhe valeu uma tenaz perseguição religiosa, que culminou na excomunhão do filósofo, promulgada pela comunidade judaica de Amsterdam, em 27 de julho de 1656, conforme o trecho que se lê abaixo:

“Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Spinoza... Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai e maldito seja quando regressa... Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele”.

Como se pode ver, anjos e santos têm em seus corações a mesma malignidade de qualquer homem mesquinho e a mesma ira dos rancorosos e ofendidos. Levando em conta que tal texto realmente fosse a decisão de seres celestiais, não me restaria dúvida de que eu preferiria a companhia de assassinos e ladrões a compartilhar com eles qualquer céu. Mas saiba-se que tal ira e rancor habitam o âmago de todas essas religiões que se dizem promotoras da paz e da fé, simplesmente porque são invencionices de homens; e, pior, dos homens mais baixos e obtusos – os sacerdotes. A escória que quer manter-se sempre no poder, escondendo-se sob o manto da ‘falsa humildade’.

Como disse linhas acima, embora Spinoza use o termo “Deus”, veremos que o “Deus-criador” do qual ele fala nada tem a ver com o da teologia cristã. Na sentença a seguir, o filósofo explica a existência de Deus: “[...] os homens confundem inteiramente a natureza divina com a humana. [...] Deus está em toda parte não como um espectador num teatro, isto é, exterior ao espetáculo, mas está em toda parte como força, que põe e conserva as coisas, força interior às coisas postas por ela.” Neste ponto, é bom lembrar o objetivo de nossa “reflexão”: não é o de devolver a existência ao “Deus das religiões”, e, sim, descobrir o que ou quem mantém o Universo. O ‘Deus de Spinoza’ se confunde com o que chamamos de “Natureza”, só que numa perspectiva existencial imanente, e não ecológica, como se costuma falar dela. Deus, nessa concepção, seria a Natureza não só que cria todos os seres, mas também a que está neles, os atualiza e os mantém. Spinoza acrescenta: “É claro que o vulgo não conhece absolutamente a natureza divina e lhe atribui uma vontade semelhante à do homem que, em nós, é concebida como distinta do intelecto. Creio que se deve ver nisso a base da superstição e de inúmeros crimes”. Sem dúvida!

Creio pertinente acrescentar ainda três noções maduras do pensamento do filósofo, a saber: “o bom e o mau”, “essência e existência” e “o que é a vida nos seres”. Para tanto, resumirei o pensamento de Spinoza, buscando não prejudicar (e, sim, facilitar) sua compreensão. Pois, muito bem! O filósofo diz que considerar uma coisa como boa ou má é uma questão puramente humana, pois o homem pensa tudo em relação ao bem ou ao mal que lhe causa; por sua vez, Deus desconhece esse bem ou mal, pois, sendo Ele perfeito, vê tudo o que acontece (portanto, também o que nos acontece) como “perfeito”, e somente em nossa mente, consideramos algo bom ou mau. Inferimos daí que “o Deus-bondade” dos religiosos é um absurdo, uma impossibilidade, visto que na suposta mente de Deus, “bom” e “mau” não existem, quando muito, “tudo seria apenas bom”, então como ele poderia vir ao auxílio do homem, quando solicitado em prece, para lhe proporcionar um bem, se, em última instância, Ele só fez e faz “o bem”?

 A segunda noção a considerar é aquela que o filósofo fala da “essência e existência de Deus”. Diz ele que, “em Deus, essência e existência são a mesma coisa”, ou seja, a verdade é que “Deus é”, enquanto nós, seres humanos, dizemos “Deus existe”. Volto a lembrar que o que está sendo dito neste parágrafo de nenhuma forma entra em contradição com o que já foi dito anteriormente, isto é, que “Deus não existe”. Primeiramente porque o que está sendo alvo de desconstrução nestas “Reflexões” é a ideia “Deus” das religiões, e agora passamos a considerar (como posto no título deste capítulo) o que ou quem ordena, atualiza e mantém o Universo, a despeito de Spinoza ainda chamar “isso” de “Deus”.

A terceira e última noção a ser considerada será dita nas próprias palavras do filósofo de Amsterdam, como segue: “Entendemos por vida a força pela qual as coisas perseveram em seu ser” (o grifo é dele). Em outras palavras: há uma força que produz o que chamamos “o ser vivente”, ou “o ser vivo”. O que há de importante nisso que remete à temática da existência ou não de Deus? Esclareço! Se estiverem me acompanhando (ou melhor, acompanhando o pensamento de Spinoza), lembrarão que aqui foi dito que o filósofo, em seu pensamento, faz com que “Deus” e “Natureza” sejam uma e a mesma coisa. Assim, se considerarmos que a “Natureza” tem seus próprios objetivos (criação, manutenção e preservação), dentre as suas “preocupações”, digamos assim, também está “o homem”, mas não que ele seja “o queridinho dela”, o que não nos dará margem para crermos que “rogando seus favores” (como se faz ao Deus e deuses das religiões) ela virá ao nosso auxílio, como “um fiel menino de recados”. Portanto, estamos sós com os nossos problemas, embora a “Natureza” também cuide de nós, dentro do que ela se propôs desde toda a eternidade, amém!



Para concluir este capítulo, embora sem a pretensão de termos encerrado a temática, tal é a sua profundidade, direi, como tenho dito reiteradamente, que o que pretendi com esses três primeiros capítulos da série “Reflexões” foi incentivar aqueles que realmente desejam se libertar das amarras da Idade Média e dos horrores e absurdos das religiões a encontrarem por si mesmos, sem o auxílio de intermediários inescrupulosos e interesseiros, os mercenários da fé, qual seria essa “Força” que, sem contradito, é a que manifestou o Universo e deu vida a todos os seres, que os equilibra com suas leis inexoráveis e que tudo preserva, ainda que impingindo a todas as coisas mutações, como a morte, por exemplo. Se compreendemos que essa “Força” tem o poder de criar, manter e preservar tudo o que “é”, pois tudo se resume nela mesma, e, ainda assim, ao mesmo tempo, compreendemos que, por sermos mortais, somos descartáveis, como o mais insignificante lixo humano, e desaparecemos para sempre, então nada ficou entendido de tudo o que foi exposto até aqui. De minha parte, serei sempre fiel não à mera ideia, mas, sim, à convicção, respaldada no sério escrutínio da Razão, de que o fato de sermos mortais, como corpos, não nos tira o direito supremo, outorgado pela própria Natureza, de sermos “eternos”, posto que nossa “essência” participa não da existência efêmera e fugaz, mas da Eternidade.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

REFLEXÕES DO SÉCULO XXI (Parte II)

COMO VIVER, SE DEUS NÃO EXISTE?


Durante muitos séculos, o homem vem vivendo sob a perspectiva de que “Deus existe”. Essa noção, evidentemente, moldou por todo esse tempo seu comportamento, determinou suas atitudes, gerou linhas de pensamento atreladas a esse viés. Pensamentos que, provavelmente, jamais teríamos tido, caso pensássemos ao contrário – “Não existe Deus!”. Homens comuns e até pensadores se viram obrigados a levar em consideração essa ideia massificada pelas multidões de desvalidos e pelas religiões institucionais. Por muito tempo, pensar diferente disso era o mesmo que assinar sua condição de “renegado social”; ser considerado um ateu era quase uma pena de morte. A Igreja decretava a sentença e, quando não cumpria ele própria a execução, deixava naturalmente a cargo da multidão enfurecida (lembrem-se: a Idade Média ainda não acabou!). Não admitir a existência de Deus, ou falar algo que sugerisse isso, era o mesmo que trazer a inscrição 666 na testa – o número da Besta, do Anticristo, segundo a Bíblia. Deus tinha que existir, aceitássemos isso ou não!

Os antigos egípcios tiveram seus deuses e deusas; os gregos também tiveram seus deuses do Olimpo. Se tivéssemos vivido nesses lugares, naquela época, sem sombra de dúvida, teríamos achado normal adorar Osíris ou Ísis, ou então Zeus ou Poseidon. Povos imemoriais também tiveram os seus “Senhores Invisíveis”. Então, poderíamos nos perguntar de onde vem essa propensão a acreditar em “Deus” ou “deuses”? Como homem do século 21, e sem o peso da fé, ou sem o punho massacrante da Igreja, ouso dizer que, não sabendo quase nada sobre nós, ficou mais fácil inventar “um outro”, sobre o qual “sabemos tudo” – porque nós o inventamos. Mas, perdão! Esse pensamento não é meu. Ele é uma versão menos poética e mais direta de um outro, escrito pelo menos um século e meio atrás, que pertence ao filósofo Nietzsche. Em seu “Assim falava Zaratustra”, encontra-se a matriz do que acabo de dizer: “Ainda não vos havíeis procurado: então me encontrastes. Assim fazem todos os crentes; por isso importa tão pouco toda crença”. É por isso que os crentes (religiosos de toda a espécie) são muito práticos e categóricos em emitir sentenças como estas: “Deus não gosta disso”; “Deus não aprova esse tipo de ação”, “Deus quer que nós façamos tal e tal coisa”. Somente aquele que “inventou Deus” teria tal capacidade de saber o que se passa na mente d’Ele, quais são seus gostos e caprichos. Em resumo: tudo demasiado humano!

Depois de inventar o seu “Deus”, cada povo tratava de confeccionar seus cultos e rituais. São as formas de agradar esse “Deus” ou aplacar sua cólera, conseguindo em seguida seus favores, pelo menos era o que se pensava. Dito de outra forma, inventamos um ser apenas para fazer de nós mesmos "escravos voluntários" d’Ele. Estabelecemos os horários, os dias e os locais de adoração desse ser. E, depois de realizarmos todo esse ritual inventado, sentimos naturalmente algo no coração que nos diz que Ele aceitou as oferendas, as palavras de bajulação e a nossa disposição de deixarmos de lado nossas próprias vidas por alguns instantes para brincar com o “Homem Invisível” que nós mesmos criamos. Esses rituais foram passados de geração para geração, sempre acrescentando algum detalhe que o sofisticasse, como uma imagem de ouro, uma vestimenta cheia de símbolos para os sacerdotes e outra para os devotos, e um livro ou mais onde ficassem registrados os pontos marcantes dos louvores e das falas dos homens mais elevados na hierarquia daquele credo. Com isso, amalgamava-se ali o que ficou conhecido como “tradição”, a qual se tornaria a guardiã direta dos dogmas – preceitos que jamais podem ser mudados ou questionados. As religiões institucionais surgiram para dar garantia a tudo isso e providenciar para o povo, que se agrega a ela (os fieis), a noção de que estão irmanados, congregados em torno de algo que é bem maior que todos juntos, a Igreja – e no final das contas, Deus.


Religião, da raiz latina “religio”, quer significar que, seguindo tais rituais de certo credo, a pessoa se “religa” ao seu criador (Deus). Ou seja, sem essa atitude religiosa, o homem estaria afastado do seu criador e, por conseguinte, toda sua vida seria em vão. Quando pensamos nos atributos conferidos ao Deus cristão, em particular o de ser Ele “onipresente”, para nós, que usamos o raciocínio para entender o que precisa ser entendido, surge uma clara incongruência: como posso ter me desligado daquele que não só está em toda parte ao meu redor, como também me preenche em todos os sentidos? O cristianismo tem as melhores artimanhas para driblar os mecanismos da lógica, e quando todos as anteriores falham em dar explicação, ele se sai com a mais infalível de todas: esse é o mistério de Deus. E aí todo o debate desmorona, feito um castelo de areia tomado pelas águas do mar.

A reconhecida Igreja Católica, de linhagem cristã, estendeu seu domínio por todo o Ocidente, embora também se admita por aqui outras religiões e cultos a outros deuses. Se por um lado há o discurso nas várias religiões tentando convencer os fieis de diferentes credos de que “Deus é um só!”, e sendo um e o mesmo, todas as religiões são co-irmãs, há também um forte movimento na direção contrária, que não abre mão de ter o monopólio do “Deus verdadeiro”. Esse esforço pela supremacia não é velado, muito pelo contrário, ele é explícito e violento, e tem tentáculos em diversos setores da sociedade, nas nações, mais precisamente. Quando a religião está ligada diretamente ao Estado, os males para a população são incalculáveis. Um discurso feito pelo papa sobre qualquer assunto sociopolítico tem grande influência e repercussão no mundo. Da mesma forma, um pronunciamento do Dalai Lama, ou qualquer outro líder religioso, mesmo aqueles que só têm projeção graças à mídia, sedenta de manchetes polêmicas – os famosos “gurus da moda”.


As igrejas evangélicas usam o nome do seu garoto-propaganda, Jesus Cristo, para espalharem templos por toda parte. Templos cada vez mais suntuosos. A megalomania religiosa não tem limites e pode ser lida em letras garrafais nas fachadas dessas igrejas: Universal, Mundial etc. Não há o que negar: Deus é acima de tudo “uma máquina de fazer dinheiro” – em todas as línguas e moedas. Portanto, caso se comprovasse sua inexistência, o cataclismo econômico se abateria sobre os que ganharam, e ainda ganham, muito dinheiro à sua custa. Milhões de pessoas estariam falidas, negócios bilionários simplesmente iriam à bancarrota. O próprio Vaticano, que enriqueceu graças ao ouro das novas terras, descobertas ou conquistadas pelas nações católicas durante o período do colonialismo não teria mais como manter seu patrimônio nem como pagar os altos salários a seus padres, bispos, arcebispos, cardeais etc. Pois é! Vendo por esse prisma, podemos entender muito bem por que Deus tem que continuar existindo. Dentro da conjuntura a que se chegou, o mundo, ao que parece, não subsistiria sem Ele.

Mas será que não há mesmo um modo de se viver e até ser feliz sem Deus? Será que, despertando desse "sono dogmático”, não veríamos uma verdadeira luz, que não fosse apenas um subterfúgio para a nossa covardia, para nossa fraqueza e nosso medo? Será que, a partir daí, não encontraríamos uma nova perspectiva? Que grande calamidade ou mal poderia sobrevir a nós por simplesmente, compreendermos, aceitarmos, descobrirmos que “Deus não existe”?

Muitos são os que cometem a tolice de dizer que sem Deus os homens abandonariam a moralidade, pois nossos mais elevados valores morais cairiam por terra e a selvageria tomaria conta da humanidade. Quanto absurdo! Será que esses tolos, que dizem tal asneira, não conseguem perceber que em todos os tempos e em qualquer lugar, mesmo com milhões de seres humanos acreditando em Deus, a humanidade não se tornou melhor do que era de maneira expressiva, significativa? Nem mesmo as pessoas consideradas as mais religiosas são “boas”, como nos levam a pensar – elas são capazes dos mesmos atos cruéis de qualquer outro homem comum, pois podem trazer consigo as mesmas tendências, os mesmos apetites animalescos. De quantos padres pedófilos já se tem notícia? Quantos pastores abusaram de jovens ou extorquiram dinheiro de incautos? Quantos são os gurus prestidigitadores da fé? Quantos homens-bomba seguem matando inocentes em nome de Deus? Deus, portanto, não serve de inspiração só para os grandes homens santos, como São Francisco de Assis, Gandhi ou Madre Teresa de Calcutá. Ele também é a força motriz das várias espécies de assassinos e criminosos, de toda e qualquer religião.



Talvez decretar a morte ou a inexistência de Deus não seja a solução dos nossos problemas existenciais, mas mantê-Lo vivo não é, sim, erro danoso para nós. Tentar matá-Lo seria já em si um grande problema – como se mata um “fantasma”? Melhor seria negligenciá-Lo. Deixá-Lo tão esquecido no seu céu de algodão-doce que o próprio tempo daria cabo dEle. O tempo faria por nós o que a nossa covardia, nossa fraqueza e nosso temor juntos foram incapazes de fazer até hoje. Aí, nós, como filhos órfãos de um Deus nunca existente, talvez nos abraçássemos, e um entre nós, que jamais poderia ser um sacerdote, tomando a palavra, talvez assim falasse: “Agora que não resta qualquer dúvida de que estamos sós, que não há nenhum deus, nenhum amparo celeste, façamos o melhor de nossa existência!”. Eis o que seria a nossa verdadeira redenção.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

REFLEXÕES DO SÉCULO XXI

DEUS NÃO ESTÁ MORTO, DEUS NÃO EXISTE!



Há milhares de anos, o homem teceu para si a ideia de “Deus”. Não apenas o seu criador, do mundo e de todas as coisas, mas um ser todo-bondade, cujo bem é seu único atributo, embora, para tanto, também seja onipotente, onisciente e onipresente, qualidades sem as quais ele não poderia ser o detentor de todo o bem. Dizem que essa ideia surgiu por pura necessidade – era preciso atribuir uma causa para todas as coisas; uma força, uma entidade, um ser, que também, e necessariamente, fosse causa sui, para que não houvesse uma busca por causas das causas ad infinitum.

A Religião se apropriou desse “Deus”, e tudo seria menos complexo se ela fosse uma só – “a religião da humanidade com um único Deus”. Mas não! Ela se diversificou em muitas e, ao mesmo tempo, diversificou a ideia de “Deus”. De tal modo que “Ele” não parece o mesmo em cada uma delas. Durante muito tempo, em algumas das religiões mais antigas de que se tem conhecimento, “Ele” nem mesmo era “um” – por lá se adoravam “deuses”, cada qual útil a certas necessidades humanas. Então, adorava-se ao “deus” que lhe conviesse – o que, efetivamente, gerou mais dissidências e divergências. Em outras, nem mesmo era “Ele” – era “Ela”, um “deus feminino”, ou seja, uma “deusa”.

O hinduísmo, uma das grandes religiões do mundo em quantidade de seguidores, tem um panteão repleto de deuses e deusas que, ao que dizem, convergem para um único ser supremo, mas são variados os nomes que dão a "Ele", segundo a variedade de seitas que existem no Oriente. E esse ser supremo tanto pode ter uma aparência antropomórfica, como é o caso de Krishna, quanto a de um animal, como Vishnu, que, às vezes, é retratado como um peixe. Dizem que a religião budista é uma “religião sem Deus ou deuses”. Buda, ou melhor, os budas, como Siddharta Gautama, são seres elevados – homens que chegaram à excelência da qualidade humana, e decidiram zelar por nossa espécie, muitos deles renunciando ao Nirvana, que corresponderia no cristianismo a “chegar ao céu”. Mas, no caso budista, não fica muito bem explicado que “céu nirvânico” seria esse, quem o teria criado e qual a necessidade dele estar “lá”. Os hebreus, cuja religião é o judaísmo, dão ao seu “Deus” o nome de “Jeová” – o deus guerreiro. Um deus que exige do seu povo  adoração, obediência e uma vida irrepreensível. Quando tais requisitos não são observados, é muito comum que Deus-Jeová produza muitas calamidades, causando mesmo até a morte de milhares ou milhões (vide o Velho Testamento) – o que, certamente, já nos dá o direito de considerar que não há aí qualquer possibilidade de Jeová ser “todo-bondade”.

A Bíblia é um livro complexo que tenta “amarrar” numa só verdade ou compreensão deuses bastante diferentes, a saber: o guerreiro Jeová dos judeus e o Pai no Céu, anunciado por Jesus Cristo. Isto é, tenta nos fazer crer que o Jeová, que se ira com muita facilidade (até porque os homens são imperfeitos e cometem erros a todo momento), é o mesmo que “amou o mundo de tal maneira que enviou seu próprio filho, para sacrificar-se pelos homens pecadores”. O que aconteceu ao velho Jeová? Teria o seu coração amolecido com o passar dos anos? Por que não destruir todos os pecadores, como fizera outrora aos de Sodoma e Gomorra? O que pessoas como Maria Madalena, uma prostituta, que pelas leis judaicas deveria ser apedrejada em praça pública, e Pedro, um covarde, que negou por três vezes ser seguidor do Cristo, teriam de tão especial aos olhos de “Deus-Jeová” que merecessem, assim como outros milhões de semelhantes a eles, o sacrifício do “Cordeiro de Deus”? Difícil saber, não é mesmo? Então, fica a indagação, para , quem sabe, uma resposta plausível a posteriori, quando a humanidade poderá está mais madura para questões tão complexas (caso os homens não concluam seu intento de destruírem-se uns aos outros em nome de Deus, como têm feito até aqui, é claro!)

O islamismo chama seu “Deus” de “Alá” e, assim como o cristianismo tem seu livro sagrado e seu profeta maior, ele também tem os seus: o Alcorão e Maomé, respectivamente. Os muçulmanos são muitos devotados e praticam um culto bastante rigoroso, com rituais que não podem deixar de ser observados, sob pena de o faltoso ser considerado um infiel e sofrer duríssimas penalidades por parte de sua comunidade. O islamismo também exige respeito até dos que não professam sua fé. O que está bastante claro na atualidade, com todos esses eventos, que a imprensa insiste em veicular com termos disfarçados. Durante anos, na Idade Média, a Igreja Católica promoveu um grande conflito entre muçulmanos e cristãos, nos episódios que foram chamados de “As Cruzadas". Por Trás de toda fé e de toda propaganda articulada pelo Vaticano, o objetivo era mesmo retomar terras consideradas da cristandade das mãos dos mouros (muçulmanos) – locais considerados sagrados, porque lá estivera ou vivera o Cristo. O certo é que todas essas dissidências ou divergências de pensamento dificultaram, e ainda dificultam, uma compreensão cabal da existência de Deus e do que ou quem seria “Ele”.

Na segunda metade do século 19, o filósofo Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) declarou, através do protagonista do seu livro “Assim falava Zaratustra”, “Deus morreu”, e já em "A Gaia Ciência" (Aforismo 125), o filósofo se delonga em expor questionamentos que muitos se fariam decorrentes da tomada de consciência da "morte de Deus". O filósofo teve uma vida repleta de males e, nos últimos anos de existência, sua saúde deteriorou bastante, culminando em loucura, o que fez com que seus adversários e desafetos, os cristão mais precisamente, fizessem também uma declaração contra ele, parafraseando-o ironicamente: “Deus disse ‘Nietzsche está morto!'”. Nesse pormenor, os cristãos podem bater no peito, vitoriosos: realmente Nietzsche está morto e a ideia Deus ainda sobrevive até os dias de hoje.

No entanto, há sobejas evidências de que nem cristãos, nem judeus, nem muçulmanos, nem ateus, nem seguidores do filósofo Nietzsche, estão com a razão. Não há nenhuma prova (ou mesmo vestígios) de que um Deus-bondade, um Deus-guerreiro ou um Deus-justiça exista (ou "seja"). O que a Razão pode nos levar a perceber é que a ideia Deus tornou-se um disparate diante de tudo o que testemunhamos, não só ao longo da História, como também no nosso dia-a-dia. O que há em nossa existência é o total desamparo por parte de qualquer ser ou força suprema, exceto os atributos que nos foram dados pela mãe Natureza. A sentença de Nietzsche foi mal interpretada por muitos (sobretudo pelos obtusos cristãos). O filósofo não pretendia informar sobre a morte de uma “divindade suprema”; ele vaticinava, esperançoso, a morte da ideia “Deus”. Uma ideia que, embora para os religiosos seja salutar e benfazeja, para o homem não-religioso, que faz uso da razão, que observa o mundo e o quer modificar, é uma ideia totalmente perniciosa e falaciosa. Por quê? Muito simples! Esse “Deus” (fosse Ele o que) não faz (nem faria) desse mundo, ou das pessoas desse mundo, algo melhor, sendo Ele próprio motivo de intolerância, desavenças pequenas e guerras descomunais. Somente um grandíssimo tolo, na verdade, um insano, conseguiria ver em qualquer coisa que se pudesse atribuir a “Ele” algo de “plena bondade ou justiça”.


Este mundo pode parecer “cosmos” (ordenado) em suas leis gerais, ou seja, que não levam em consideração os atos humanos (o fato de serem bons ou maus, ou agirem bem ou mal); leis que equilibram este Universo, de maneira que sintamos certa segurança na regularidade quase invariável das coisas. Basta observarmos que todos estamos sujeitos aos mesmos horrores, às mesmas vicissitudes, às mesmas calamidades etc, etc. Ninguém está a salvo de uma doença terrível, de uma morte violenta e injusta, ou de qualquer outro fatalidade medonha. Somos todos vítimas do tempo, da sorte, dos que não nos querem bem e dos que simplesmente, sem qualquer razão, podem nos fazer o mal. Nenhum “Deus” apresentado até agora pelas religiões se demonstrou nosso “protetor”, “pai” ou “amigo”, no sentido em que esses termos têm sua melhor definição. Estamos totalmente desprotegidos e sós, a despeito de todas as orações, todas as adorações, todos os nossos atos de fé, todos os nossos pedidos de clemência. A verdade é que estamos como naus à deriva, e o nosso medo nos faz clamar pelo invisível, ou pior, pelo inexistente.


Os milhares de anos de adoração em vão, de cultos e rituais pueris e insanos, não foram ainda suficientes para nos despertar dessa “loucura” – queremos “Deus”; queremos qualquer “Deus”; queremos qualquer coisa que nos dê alívio, paz, segurança. Por isso mantemos a chama acesa no altar da esperança – seremos salvos pelo sangue de um justo, pela espada de um guerreiro ou pelo favor da morte, a única até agora capaz de tirar de sobre nossos ombros o peso da existência e da condição falaciosa de “condenados à liberdade”. “Liberdade” já deveríamos saber há muito o que é: uma gaiola imensa, da qual não conseguimos ver as grades, senão quando esbarramos nelas. E então dizemos: “Melhor assim! Lá fora poderia ser pior para mim!”. Esse pensamento não é raciocínio, é medo. Não temos medo de Deus nem do que Ele pode nos dá ou tirar (afinal Ele é bom, não é?) – temos medo de nós mesmos, pois assim é que nos ensinaram, porque de outra forma jamais adoraríamos um “Deus”; jamais inventaríamos um “Deus”; jamais sequer cogitaríamos tal possibilidade. Portanto, que seja o medo o guardião de todo e qualquer “Deus”. Pelo medo (se preferirem termos bíblicos, “pelo temor) Deus está justificado... Mas nem por isso “Ele” existe!

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

SCARLETT MARTON COM A PALAVRA

EUTANÁSIA: A FAVOR OU CONTRA?*
Por Scarlett Marton

A eutanásia tornou-se uma questão central nos debates de Bioética na atualidade. Em geral, distingue-se a eutanásia da ortotanásia e da distanásia. Por eutanásia entende-se a conduta médica que apressa a morte de um paciente incurável e em terrível sofrimento. Vista por alguns como um suicídio assistido, a eutanásia inscreve-se numa situação em que o paciente quer morrer, mas, por incapacidade física, não consegue realizar sozinho o seu desejo. Aliás, no seu sentido etimológico, eutanásia significa "boa morte".

Por ortotanásia designa-se a suspensão dos meios medicamentosos ou artificiais de manutenção da vida de um paciente em coma irreversível. E, por distanásia, aponta-se o emprego de todos os meios terapêuticos possíveis, inclusive os extraordinários e experimentais, num paciente terminal. Enquanto com a ortotanásia se aceita o processo natural de morrer, com a distanásia, pela obstinação terapêutica, se provocam distorções. Num caso, permite-se ao paciente ir ao encontro da morte; no outro, a ele se impõe um tratamento insistente, desnecessário e prolongado, sem nenhuma certeza de sua eficácia. Com a eutanásia, adianta-se a morte, atendendo à vontade expressa e manifesta do paciente, no sentido de evitar sofrimentos que ele julga insuportáveis ou de encurtar uma existência que acredita penosa e sem sentido.

Na antiguidade greco-romana, reconhecia- se o direito de morrer; era o que permitia aos doentes desesperançados pôr fim à própria vida, contando por vezes com o auxílio de outrem. Com o cristianismo introduziu-se a noção de sacralidade da vida, passando-se a concebê-la como um dom de Deus a ser preservado; foi o que levou à extinção das práticas dos antigos.

Ora, tomar a vida como bem supremo implica não só proibir categoricamente a eutanásia, impedindo o paciente de pôr termo a sofrimentos insuportáveis, como também aderir à distanásia, impondo a ele sofrimentos ainda maiores causados pelos tratamentos fúteis e pela obstinação terapêutica. Considerar a vida o direito primeiro da pessoa humana implica, também, que não se permita que tomem parte da discussão acerca da eutanásia todos os que são por ela afetados (além do paciente, os familiares e amigos, os grupos e segmentos sociais). E seria possível ainda argumentar que, em nossa sociedade, o "valor sagrado da vida" não evitou que se aceitassem as guerras, a pena de morte e a legítima defesa, sem falar no extermínio dos animais.

É preciso ainda notar que, ao defender "a vida a qualquer preço", adota-se um modo de pensar dualista, opondo-se a vida à morte. Privilegia-se um dos termos da oposição em detrimento do outro, dispondo-se a tudo fazer pela vida contra a morte. Excluindo-se o seu contrário, converte- se então o direito de viver em dever.

Defensores da eutanásia, por sua vez, argumentam em favor do direito de morrer. [...] O direito de morrer se basearia antes de qualquer coisa no princípio de autonomia. Toda pessoa tem o direito de tomar decisões acerca da própria vida; é capaz de decidir o que ela quer fazer e o que quer que outrem lhe faça. Não cabe, pois, à lei vir tolher tal direito nem limitar a sua liberdade; ninguém sabe melhor do que ela o que lhe convém. Este mesmo argumento valeria para o aborto provocado e para o suicídio; constituiria um desrespeito ao princípio de autonomia penalizar criminalmente quem decidisse provocar um aborto ou tentasse o suicídio. Assim, toda pessoa gozaria, dentre os seus direitos, do privilégio de dispor de sua existência em quaisquer circunstâncias, desde que, por livre e espontânea vontade, desistisse de viver. E ainda mais nos casos de doença incurável, acrescida de dores insuportáveis e sofrimentos inúteis.

Lançando mão do pensamento de Nietzsche, não seria desmedido dizer que é a vida, ela mesma, que, vencida, se reduz à sobrevivência, quando não suporta a doença nem tolera a dor. Dessa óptica, apressar a morte de um paciente incurável e em terrível sofrimento, atendendo à sua vontade expressa e manifesta, não equivaleria a tirar-lhe a vida, mas a abreviar-lhe a sobrevivência. [...] no quadro do pensamento de Nietzsche importa antes de qualquer coisa recusar todo e qualquer dualismo.

Num mundo marcado pela crise de valores, amplia-se o debate entre os que advogam o caráter sagrado da existência humana e os que defendem os seus aspectos qualitativos. Enquanto uns julgam que a medicina tem de estar a serviço da vida, outros entendem que ela deve prezar antes de tudo a pessoa. Daí, o impasse teórico em que nos encontramos hoje. Ou advogamos o valor sagrado da existência humana e acabamos atrelados a posições dogmáticas, que encerram a discussão em vez de promovê-la, ou então defendemos a qualidade de vida e, embora talvez mais aparelhados para refletir sobre questões que se impõem hoje nos debates de Bioética, como a da eutanásia, corremos o risco de engrossar o discurso das empresas de saúde.

Na sociedade em que vivemos, o ser humano que está à morte é tido por um insucesso. Nesta sociedade que preconiza a produtividade e o lucro, que prega a eficácia a qualquer preço, que promove o espírito de competição e a lógica da exclusão, o moribundo é visto como um malogro. Na nossa sociedade, a "cultura da morte" manifesta-se antes de qualquer coisa no descaso pela vida. E não me refiro aqui aos que morrem no âmbito médico-hospitalar, mas aos milhares de indivíduos a quem se nega o direito de viver. Refiro-me à morte imposta a todos aqueles que se acham abaixo da linha de pobreza.

É notável, pois, a discrepância entre a idolatria da vida de que se beneficiam alguns e a cultura da morte a que se condenam tantos.

Mas por que não perseguir a utopia de que, numa outra sociedade, todo ser humano teria assegurado o seu direito a uma morte digna, porque veria antes respeitado o seu direito a uma vida digna? 



* Este artigo, publicado na revista Ciência & Vida – Filosofia Nº38, Ed. Escala, foi aqui editado, por questão de espaço e maior compreensão em favor do tema abordado.

terça-feira, 6 de maio de 2014

A BARBÁRIE DA PÓS-MODERNIDADE

O ANIMAL EM NÓS

A existência humana demonstra-se, acima de tudo, como a luta pela sobrevivência, o que poderia até ser aceitável, uma vez que assistimos no espetáculo que a Natureza nos apresenta à grande e permanente guerra que é travada entre as várias espécies animais. No entanto, o que causa espanto (ou, pelo menos, deveria causar) é que a guerra dos humanos se dá entre os da mesma espécie – o homem contra o homem. Paira ainda sobre a humanidade a máxima “bellum omnium contra omnes” (guerra de todos contra todos), ou, como ficou mais conhecida na obra Leviatã, do filósofo inglês Thomas Hobbes, "Homo homini lupus" (o homem é o lobo do homem). Vivemos ameaçados por nós mesmos, uns contra os outros, numa guerra insana que faz suspeitar se somos mesmo seres da racionalidade e se esta tem verdadeiro poder sobre nossas ações e decisões. A barbárie que praticamente presenciamos todos os dias ou acompanhamos pela mídia em geral já bateu todos os limites do que denominamos absurdo. A violência avança não só nas grandes cidades, como era décadas atrás, ela se disseminou por toda parte, num índice sem precedentes. Não há mais como nos enganar – o inimigo mora dentro de nós.

Embora a História ponha em destaque apenas as duas Grandes Guerras e dê menor importância a muitas outras travadas da Antiguidade até aqui, provavelmente não há no mundo um único lugar (vilarejo, cidade ou região) que se possa encontrar sem qualquer vestígio de conflito humano – há, certamente, por toda parte, brigas entre duas ou mais pessoas, familiares ou vizinhos, ou entre grupos, famílias ou setores da sociedade. Como escrevi no artigo “Demasiado humano?” (revista Conhecimento Prático – Filosofia Nº29, ed. Escala), “Em algum recanto do mundo, neste instante, há um conflito, talvez grande ou pequeno, mas certamente sério o suficiente para nos pôr em alerta contra nós mesmos. O mundo jamais conheceu um único momento de verdadeira paz, em todos os lugares, ao mesmo tempo. Se a racionalidade ainda não foi capaz de instituir um contrato social baseado no respeito pela alteridade de indivíduos, povos e nações, e se o sentido de responsabilidade no homem, até o presente momento, não foi suficientemente rigoroso em firmar as bases de uma justiça social abrangente, então, tampouco, ou dificilmente, o ideal de felicidade poderá ser alcançado aqui na terra, a despeito dos avanços científicos, da melhoria na qualidade de vida, dos tratados filosóficos, da exortações religiosas e dos esforços dos homens de boa vontade que ainda existam por aí”. As leis são inócuas contra as desavenças humanas; as punições, ineficazes. Quando todos se acham com a “razão”, ninguém está a salvo!

Alguém disse certa vez que numa guerra a primeira vítima é a Verdade, eu diria, porém, que, antes dela, a vítima foi a Razão. Na verdade, a Existência em si é um palco multifacetado de conflitos; a Existência é em si mesma um “Grande Drama”, recheado de dramas menores. Já o disse Heráclito: Pólemos pánton patér (O conflito é o pai de todas as coisas). No homem, no entanto, era de se crer que esses dramas, a pouco e pouco, encontrassem desfechos razoáveis, e que alguns até pudessem ser evitados. Porém, o que se vê é um aumento galopante de sua perniciosidade e periodicidade. O bem e o mal são componentes inexoráveis da Existência e encontram no ser humano uma expressão inigualável, jamais possível de ser encontrada nas outras espécies animais, destituídas de raciocínio. A malignidade humana confere a certos atos de violência os chamados “requintes de crueldade”, de que só o homem é capaz. O holocausto perpetrado pelos nazistas contra os judeus é um dos exemplos maiores dela. Todos os anos, os cristãos revivem o martírio do Cristo na cruz, condenado pelos hebreus a sofrer tal morte, segundo as leis romanas de dois mil anos atrás. Tais fatos, assim como um bilhão de outros já ocorridos, relembrados de tempos em tempos, ainda não foram suficientes para causar uma reforma moral e existencial do homem. O sangue humano derramado até hoje sobre a Terra seria suficiente para manchar todos os nossos oceanos, mares e rios, se assim a Natureza (ou Deus, seja lá o que for) resolvesse deixar que acontecesse, para nos fazer lembrar quão sanguinários nós somos. Talvez assim, o medo ou a vergonha de nós mesmos nos fizesse parar de matar. Mas apenas “talvez”.

Aqui mesmo no Brasil, recorrentemente somos chocados com fatos que escapam à nossa capacidade de compreensão, atos criminosos, como o dos bandidos que atearam fogo numa dentista, somente porque ela tinha pouco dinheiro na conta bancária, e o dos que, aqui em São Luís do Maranhão, puseram fogo num ônibus cheio de passageiros, causando a morte de uma menina e queimaduras gravíssimas em pelo menos mais três pessoas. Não fica de fora desse ranking dos horrores as brigas entre torcidas rivais, nas quais torcedores de times de futebol diferentes não são apenas adversários no esporte, são verdadeiros inimigos, que, por isso mesmo, devem se matar mutuamente, antes, durante ou após as partidas. O caso mais chocante (para dizer o mínimo) foi o do torcedor do Sport Recife, atingido e morto por um dos dois vasos sanitários, atirados de cima da arquibancada, contra ele e os amigos que deixavam o estádio do Arruda em Recife, após a partida entre Santa Cruz e Paraná. A pergunta que nos vem logo de cara é “Que tipo de ser humano é esse, que arranca vasos sanitários de banheiros do estádio, para arremessá-los contra outros seres humanos, somente porque não concorda com a opção destes em serem torcedores de outro clube, e não é do seu?”. A resposta é simples: “Um monstro!” – o mostro que há em nós. Ou talvez “o animal”!

Na Europa, há tanto tempo já civilizada, alguma coisa ainda não desatrelou a errônea noção das raças superiores e inferiores, ou o pensamento retrógrado escravagista, da sociedade que estabeleceu e tenta zelar pelos Direitos Humanos. O racismo impera em estádios da Espanha, nos quais jogadores negros são chamados de macacos, denunciando que. em algumas sociedades europeias. há pelo menos indivíduos (esses agressores racistas) que ainda não atingiram o nível da civilização. O brasileiro Daniel Alves reagiu com espirituosidade quando, durante a partida de domingo (27/04) entre Vilarreal e Barcelona, pelo campeonato espanhol, um torcedor atirou próximo dele, dentro do campo, uma banana (numa evidente tentativa de referir-se a ele como “macaco”). Ele pegou a fruta atirada e comeu. Isso repercutiu controversamente nas redes sociais e nos jornais do mundo inteiro. Aqui no Brasil, um movimento autodenominado “somos todos macacos” apareceu em apoio ao jogador brasileiro, mas desagradou outras pessoas, que começaram a protestar contra a ideia de serem comparadas a macacos (houve até manifestações em favor dos macacos). O que diria Charles Darwin sobre tudo isso, se vivo fosse?

A barbárie é um fenômeno que às vezes demonstra-se sazonal, outras, endêmico. Ela às vezes parece que se autojustifica, outras, que é justificada pela população, ou por um certo número de pessoas. A barbárie não tem escrúpulos, não tem rosto, mas pode parecer justificável e até agradável para alguns (o que é inexplicável no ser humano, é inexplicável). Esse "inexplicável" encontra-se, por exemplo, no caso de uma dona de casa de 33 anos, de nome Fabiane Maria de Jesus, que foi torturada até a morte por dezenas de moradores, na noite de sábado (03/05), no bairro de Morrinhos, no Guarujá, litoral de São Paulo, somente porque um site postou um retrato falado de uma suposta praticante de magia negra que, também supostamente, costumava sequestrar crianças para fazer com elas rituais macabros. Sem pensar duas vezes, moradores próximos da residência da dona de casa, achando que ela fosse a mesma da foto, trataram de se livrar da “bruxa má”, linchando-a até desfalecer sem vida (e que o diabo se encarregasse do resto, devem ter pensado os justiceiros pós-modernos, ao estilo do que também devem ter pensado os algozes da Igreja, no tempo da Santa Inquisição).

Estaríamos todos muito mais seguros se houvesse de fato um animal selvagem à solta em nossa vizinhança. Escondido em tocas instintivamente buscadas, para atacar de surpresa qualquer um de nós que por perto dele passasse, ou então que pulasse os muros de nossas casas e as invadisse, nos fazendo ter que enfrentá-lo cara a cara, com seu olhar de fome de nossa carne e sede do nosso sangue. Se o nosso inimigo fosse esse animal selvagem fictício que descrevo e houvesse neste instante um em cada lugarejo que possamos imaginar no mundo, haveria certamente muitas vítimas deles – pelo menos uma em cada lugar, mas também sem dúvida ele seria dominado e capturado, de uma forma ou de outra. Infelizmente, meu relato é apenas um símile muito aquém da realidade. Não há nenhum animal solto pelas ruas, que se tenha notícia no momento (embora seja possível, mas ainda assim improvável e desinteressante para o mote deste artigo). Infelizmente, mais uma vez, o animal não está à vista ou escondido num covil ou toca. Curiosamente, ele está sob a guarda e a proteção daqueles a quem fatalmente irá devorar. O verdadeiro e real animal selvagem que é o protagonista deste nosso drama existencial real está dentro em nós, e, em vez de correr pelas ruas em busca de sua presa, ele se infiltra e se multiplica na multidão, e ali mesmo faz o seu banquete – a carnificina humana.

THE END, NO!
TO BE CONTINUED...

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O FIM DO MUNDO EM WWW

ZEPELINS, ROLEZINHOS E BUNDAS

Só quem é alienado ou está com a vida tão bem resolvida que não liga para o mundo à sua volta não percebe que estamos vivendo tempos em que coisas sem precedentes estão ocorrendo, aqui no Brasil e fora dele. Para as bandas de lá, todo aquele rebuliço iniciado com a Primavera Árabe, em dezembro de 2010, e agora mais essa da Rússia com a Ucrânia, e a velha “Guerra Fria” querendo esquentar o panorama político mundial. E aqui no Brasil, todas essas manifestações “por tudo em toda parte”, desde julho do ano passado, que, ao que parece, encontrará seu ápice neste auspicioso ano de Copa do Mundo e Eleições. Tudo isso sob os auspícios da “todo-poderosa Internet”, que liga “todo mundo a todo mundo”, junta ideias desconexas, vomita (des)informação, elege celebridades do besteirol generalizado, denuncia preconceitos de todas as espécies, gera processos inimagináveis, etc, etc.

Eu, que não me enquadro em nenhum dos casos da primeira linha deste despretensioso artigo, também “dou minhas cacetadas” por aí. E, vez por outra, não resisto a "meter o bedelho" em uns disparates que não consigo deixar passar em branco. Vamos a alguns!
As manifestações contra a realização da Copa do Mundo aqui no Brasil, acusando o Governo de gastar bilhões com estádios de futebol, enquanto a situação de hospitais e escolas existentes é degradante, sem falar naqueles que não inauguram ou não funcionam, demonstrando o total descaso com a saúde e a educação neste país, encontram os ecos mais efusivos e desproporcionais, que jamais se poderia imaginar. Um exemplo disto encontrei na seguinte declaração: “E eu, aqui, torço para que o fêmur de Neymar seja partido em dois lugares diferentes uma semana antes do início da Copa, e que todos os filhos que ele teve e terá, que todos sejam pernas de pau”. O autor é Sr. Marcelo Mirisola que, no perfil do seu blog, se diz considerado pela crítica como “o Pedro Alvares Cabral da autoficção aqui em nossas plagas” (embora eu não saiba o que “isso” significa). O mesmo Marcelo, linhas abaixo, na mesma postagem no seu blog, em 08/04/14, acrescenta: “O Brasil não precisa de jogadores de futebol, precisa de pilotos de dirigíveis, engenheiros, médicos para reconstituir o fêmur do Neymar, e professores de cálculo para ensinar os netos do seu Neymar da Silva Santos (pai do Neymar Jr.) que é mais fácil um dirigível cair na cabeça do Felipão do que o futebol tirar do zero a zero a vida daqueles que não tiveram a sorte de nascer de um gol de placa do camisa 11 da seleção – isso antes de ele ter o fêmur partido em dois, claro”.

Ora, caros leitores, o que temos aí, senão a extrema distorção da maneira como se deve protestar, rechaçar ou simplesmente opinar contra um evento? Por que o pobre (riquíssimo, aliás!) Neymar deve ser o bode-expiatório de uma problemática nacional, que nada tem a ver com ele, senão no tocante à palavra “futebol”? Terá ele, no entanto, que ter o fêmur partido e os filhos, que porventura gerar, como “pernas de pau”, só porque o sr. Mirisola é um dos milhares de brasileiros que pretendem ter voz e vez contra o evento, mostrando que têm atitude crítica ativa e contundente? Tenham a santa paciência! Que um zepelim carregue esse senhor, e todos os que tiverem opiniões disparatadas como a dele, para longe de nós, amém!

Também aqui em terras tupiniquins, jovens da periferia das grandes cidades, reivindicando “seu direito de ir e vir”, por onde quiserem, inclusive dentro dos luxuosos shoppings, frequentados por “Mauricinhos e Patricinhas”, filhinhos e filhinhas de papai que têm e podem tudo, resolveram programar pelas redes sociais encontros que passaram a chamar de “rolezinhos”, os quais deixaram apavorados clientes, proprietários e seguranças das lojas desses shoppings, porque quase sempre concomitantemente com esses “rolezinhos” também aconteciam “arrastões” e “saques” em lojas de grife. Os defensores dos direitos das crianças e adolescentes, carentes ou não, assim como educadores e outros profissionais afins, que se pretendem de vanguarda, manifestaram-se em favor dos “rolezinhos”, enquanto os shoppings reforçavam a segurança, criando assim maior revolta na turba juvenil e junto a seus defensores adultos e formadores de opinião. Por sua vez, as autoridades estaduais e municipais se faziam cautelosas em se contrapor ou tomar qualquer providência, no sentido de evitar esses “legítimos e inofensivos encontros da rapaziada”. Não demorou muito para que em algum lugar, onde aconteceu esses “encontros juvenis”, surgisse um representante, uma espécie de líder desses jovens. Tal representante era, nada mais, nada menos que o jovem Lucas Oliveira Silva de Lima, de 18 anos, intitulado “o Rei do Rolezinho”. Porém, sua liderança não lhe rendeu apenas os 15 minutos de fama, na Internet e no raio de alguns quilômetros de seu bairro. Ela também foi a causa provável de sua morte.

Vejamos o que escreveu a Srª. Laura Capriglioni em seu blog, também na data de 08/04/14, sobre a morte desse “famoso” adolescente: “No chão do baile funk, ficou o corpo do menino Lucas Oliveira Silva de Lima, 18, o Rei do Rolezinho. O delegado José Lopes, do 64º DP, diz que o garoto morreu espancado. “Traumatismo craniano causado por instrumento contundente”. E acrescenta em tom de dor e de reconhecimento do “herói” que tinha um futuro brilhante e extenso pela frente”: “O “Cocão, menino do morro”, como se denominava, tinha 57.480 seguidores no Facebook, a maioria garotas. Era um ídolo. Orgulhoso, assumia suas origens. Escola: Favela. Moradia: Itaquera, zona leste”. A autora do blog lembra, em tom de desabafo, os primeiros “momentos de glória” do rapaz: “Em janeiro, Lucas tornou-se celebridade, depois de organizar um rolezinho no Shopping Itaquera, vizinho de sua casa, na favela da Vila Campanela. Três mil adolescentes participaram, cantando as letras desafiadoras do funk. A polícia interveio com bombas de gás”.

Muito bem, me pergunto “quem foi esse jovem Lucas? Um arruaceiro, um mártir juvenil ou uma pobre vítima de uma sociedade cujos valores há muito se perderam?”. Concluo, sem muita dificuldade, que nossa sociedade tateia às escuras, não apenas destituída de qualquer valor moral ou social, mas também como triste produtora de valores idênticos a moedas de ouro falsas – que conseguem por algum tempo ludibriar os incautos e fazer negócio, mas logo são descobertas e descartadas, elas como lixo e seus fabricantes como escória da sociedade. Penso que a juventude deve ter, sim, seu direito de ir e vir preservado e garantido, mas deve também exercê-lo não com “libertinagem” e ao “bel-prazer”. Muitos adolescentes (muitos mesmo!) engajam-se em manifestações e eventos considerando apenas a oportunidade de “ter diversão a qualquer custo”, e desconsiderando que o mundo (resumido à sua cidadezinha ou a seu pobre bairro, que seja) está longe de ser um parque de diversões.

O espaço público deve ser pensado com sendo “meu” e “não meu” – quase um paradoxo, mas não é – pois isso significa (ou, pelo menos, deveria nos fazer lembrar) que há um “contrato social” que nos faz apenas “sócio” desse espaço comum e que, portanto, prevê que há outros que precisam “concordar” com o tipo de uso que fazemos desse espaço. Desconsiderar essa “cláusula” é ferir esse “contrato”, o que faz de qualquer cidadão, não importando sua idade ou classe social, um “infrator” dos direitos sociais já conquistados e simbolicamente acordados, quando fazemos parte de uma comunidade. Para que um evento seja considerado inofensivo e pacífico é preciso que se demonstre nos fatos reais, observáveis; em suas consequências imediatas e posteriores. Enxergar a juventude deste país apenas como carente de oportunidades e esquecida pelas autoridades, em suas instâncias municipais, estaduais e federais, é perceber apenas uma das facetas de uma triste realidade. As razões, que se tornam causas efetivas nos eventos reais, precisam ser analisadas e também corrigidas, não apenas glorificadas para justificar seus efeitos.

Por último, mas não por fim, temos ainda o caso do professor de Filosofia que também queria os seus 15 minutos de notoriedade nacional, e conseguiu. Na prova que elaborou para alunos do Ensino Médio de uma escola em Taguatinga, no Distrito Federal, incluiu uma questão em que citava a cantora de funk, Valesca Popozuda, famosa mais pela protuberância que traz entre suas costas e suas coxas do que propriamente por suas “produções líricas” (que ela e seus admiradores insistem em chamar de “música”), como “grande pensadora contemporânea”. O nome do professor? Antonio Kubitschek, isso mesmo, Kubitschek! Apesar de toda a polêmica que sua questão produziu, ele ainda se fez hábil em argumentar, numa entrevista para a rádio Band News FM, dizendo o seguinte: “Se eu tivesse colocado Chico Buarque como grande pensador contemporâneo, não teria causado polêmica nenhuma”.

O Sr. Kubitschek, ao que parece, não vê qualquer diferença entre as “letras e melodias” buarquianas e as da Popozuda, o que me faz duvidar duplamente de suas concepções: será que ele sabe o que é música? Será que ele ao menos suspeita o que seja Filosofia? Como se tudo isso não bastasse, ainda encontrei pela Net esta “bela argumentação” da professora Bruna Mitrano, da rede pública do município do Rio de Janeiro, que parece aliar-se ao pensamento do professor Kubitschek: “Nada contra a Popozuda, já usei letras de funk em aula. A polêmica com a Valesca ficou no epíteto “grande pensadora contemporânea”. Pensadores todos somos, contemporâneos também, mas quem julga o que é grande?”.

O que temos aí, caros leitores? Professores inseridos em seus contextos socioculturais, tentando “falar a língua” dos seus jovens alunos, ou, visto por outro ângulo, a comprovação de que, em vez de certos educadores tentarem elevar o grau de qualidade cultural dos nossos jovens, utilizam-se do “lixo” que está aí, entrando pelos ouvidos, destruindo os miolos de jovens e adolescentes, à força da massificação midiática, radiofônica, televisiva, etc, etc, para se tornarem “o professor queridinho dos seus alunos”? Comparar Valesca Popozuda a Chico Buarque, como sendo ambos “grandes pensadores contemporâneos”, ou usar letras do funk, para atrair o interesse dos alunos pelas aulas, denunciam por si mesmos a péssima qualidade da Educação, que passa não só pelo descaso dos governantes, mas também por dentro e por fora das escolas – no seu entorno, nas diretorias, nas salas dos professores, na sala de aula –, enfim, onde quer que se pretendesse “respirar” conhecimento, educação e cultura.

O problema não está no funk! Poderia ser o rock, o samba, o pagode, ou qualquer outro estilo musical. É preciso perceber a problemática em sua inteireza, embora esteja nos detalhes o ponto crucial. Se uma música, seja qual for seu estilo, faz apologia ao uso de drogas, ao tráfico de drogas, ao estupro, à ostentação, à pedofilia, à violência, ou coisas do gênero, como eu, professor, posso utilizar tal música como ferramenta de transformação sociocultural dos meus alunos (já que essa é uma das funções básicas da Educação)? Similarmente, qual a utilidade de fazer referências aos propagadores dessas letras e melodias e ainda lhes conferir “epítetos” que os valorizam ainda mais diante dos seus jovens admiradores? Fazendo assim, ao invés de conduzir nossas “pobres ovelhas” ao pasto, estaremos levando-as exatamente para o covil dos lobos. Será isso mesmo que queremos?

Como vemos, caros leitores, vivemos momentos difíceis até mesmo para a reflexão. Sobreviver entre tantos “manifestantes”, “líderes de classes sociais”, “filósofos”, “pedagogos”, “blogueiros”, “pensadores”, “formadores de opinião” e outros “bichos-de-sete-cabeças” (ou nenhuma), não tem sido uma tarefa tão simples quanto outrora. Tudo isso me leva a enxergar um quadro sombrio bem à nossa frente. Talvez por isso mesmo, esta noite, tive um terrível pesadelo: sonhei que a 3ª Guerra Mundial se realizava no Universo WWW. Um vírus letal destruíra nossas ideias, nossos pensamentos, nossas mensagens, nossas imagens e tudo mais que tenhamos postado nas redes sociais, enviado por e-mail e compartilhado com os que concordam (as forças aliadas) ou não (as forças inimigas) conosco. Nosso “day after” era ainda mais terrível. Nenhum zepelim nos vinha resgatar de nossas insignificâncias, ninguém tinha força ou vontade para participar de um “rolezinho” qualquer, não havia mais escolas ou qualquer instituição de educação, não sabíamos mais distinguir o som produzido por uma orquestra de um barulho qualquer. E quando parecia que nada mais restava sobre a face da Terra, apareceu, na tela dos nossos computadores e afins uma imensa bunda, que crescia assustadoramente na tela até nos “devorar” a todos. Nem mesmo tivemos tempo de compreender que aquela bunda descomunal era o que sempre foi posto para nós como a coisa mais “sagrada e misteriosa” de nossas vidas – aquela bunda monstruosa era “Deus”. Felizmente (ou não!), eu acordei e disse para mim mesmo: “Eu tive um pesadelo!”.