Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

MORAL, ÉTICA E RELIGIÃO - COMO DESCONSTRUIR ESSES ÍDOLOS






             O homem comum[1] (esse “produto industrial da natureza”, como dizia Arthur Schopenhauer[2]) dificilmente consegue admitir a ausência da “moral” em sua vida e na dos seus semelhantes. Isso porque, além de ter nascido numa sociedade cuja cultura se baseia na necessidade de códigos morais, moral compreende moralidade, ética e valores comuns, que facilitam o convívio social, assegurando, ou melhor, dando a sensação de que todos concordam e vivem segundo esses códigos. Mas como é fácil comprovar, tal sensação não passa de “falsa sensação”, teoria sem comprovação prática, pois a sociedade não pode contar com essa certeza – a certeza de que todos seguem esses códigos morais. Com isso cai também por terra a ideia de que a moralidade serve para conter os instintos animalescos dos homens, trazidos dos tempos remotos, chamados primitivos; de que a ética guia os atos humanos nesta ou naquela atividade; de que os valores se impõem como superiores, servindo aos seres humanos como pontos de referência em suas vidas. A moral diz dos costumes, regras, tabus e convenções estabelecidas por cada sociedade; ela orienta o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau – isso não quer dizer que é seguida por todos os cidadãos em todas as circunstâncias, e é bem aí que está sua vulnerabilidade. Diante dessa perspectiva da moral, há os que se dizem ou são chamados de moralistas (aqueles que querem impor a moral vigente sobre os seus pares), os imorais (que não seguem a moral vigente) e os amorais (que não consideram qualquer tipo de moral).

            Em todas as culturas, entre todos os povos, a verdade sempre reinou imponente sobre a mentira e foi ensinada a ser zelada desde a infância, para gerar homens íntegros, nos quais se pode confiar. A verdade é tida como a afirmação do que é correto, do que é seguramente o certo e está dentro da realidade apresentada. Será? Ou, segundo o caso e as circunstâncias, ela se deixa corromper em nome de indivíduos ou grupos que detém o poder local, tornando-se questionável? Será que a verdade é uma só ou está sujeita a interpretações? Há verdades que ganham status pela tradição ou pela força da autoridade, as quais geralmente não são questionadas e sim aceitas com uma naturalidade suspeita.

            Desde tempos remotos, o homem instituiu seus cultos a entidades invisíveis, considerando que estas moviam as forças da natureza e podiam causar-lhes o bem ou o mal. O temor diante do desconhecido e a impotência perante situações como o sonho e morte se encarregaram de povoar o imaginário dos seres humanos daqueles tempos com inúmeras crendices que deram origem às religiões. Religião tem sua origem nas palavras religio e religare[3], as quais significam o ato de se religar a alguma força ou ser superior. A Religião não se manteve uma só. Cada povo em cada época desenvolveu sua maneira peculiar de adorar e entrar em contato com seu deus ou deuses, criando para si cultos, modelos de adoração, que se diversificaram muito ao longo dos séculos. Esse deus ou deuses tinham poder sobre o bem e o mal, ou também poderiam ser apenas do bem ou apenas do mal, segundo esta ou aquela crença, assim, quando se queria obter um benefício, faziam-se oferendas ou sacrifícios ao(s) deus(es) do bem e quando se queria atingir um inimigo com um malefício, recorria-se da mesma forma ao(s) deus(es) do mal. Essas oferendas e sacrifícios podiam ser de sangue, de animais ou de pessoas que, embora horrendos, eram feitos com naturalidade, e até sob certa festividade, pelos cultuadores. O certo é que as religiões que vingaram até nossos dias agora disputam o monopólio de ser as que cultuam o deus ou deuses verdadeiros. Algumas religiões ainda possuem traços de seus rituais primitivos, enquanto outras apenas reafirmam constantemente seus rituais e dogmas, embora adaptando-os aos novos seguidores.


            
               Moral, verdade e religião andam praticamente juntas e caracterizam o tipo de pessoa que se é, ou seja, falam do caráter de cada ser humano. Não é raro entre os homens comuns se acreditar que aquele que não se comporta segundo a moral vigente, não prima pela verdade e o que não professa uma religião é um ser humano sem caráter e perigoso para o bem-estar social. Assim, essas três senhoras distintas são tidas como as aferidoras do tipo humano, nesta ou naquela sociedade, nesta ou naquela época. Desta forma, moral, verdade e religião são as novas deusas da humanidade, mesmo que aqui e ali se diversifiquem e até divirjam. Embora muitas pessoas, dos últimos séculos para cá, tenham se rebelado contra elas e questionado seus papeis como referência do tipo “bom homem”, há ainda uma multidão de outras (a grande maioria) que as teem como verdadeiros ídolos.


            É bem aqui que este trabalho põe seu foco e, tomando por referência principalmente a obra do filósofo Friedrich W. Nietzsche, vai lançar um outro olhar sobre esses “ídolos”, de forma a demonstrar como teem pés de barros, que são vulneráveis a qualquer criteriosa investigação e que sua fragilidade jaz na própria origem de cada um deles. A que se dizer também que o intuito precípuo deste trabalho não é simplesmente desconstruir esses ídolos, deixando escombros onde eram edificações aparentemente sólidas, e sim dar destaque a novíssimos critérios de avaliação da humanidade que não se estabeleçam por valores confirmadamente frágeis, que se estabeleceram, como já foi dito acima, pela força da tradição e da autoridade.

            Pois bem! Quando se utiliza da obra nietzscheana para elencar argumentos contra valores, ideias e crenças fortificadas durante séculos, é preciso que se saiba de antemão da dificílima tarefa que isso representa e que se tenha um bom domínio de toda a sua filosofia, e não apenas fragmentos dela. As ponderações, as máximas apresentadas por Nietzsche são tão profundas que não nos deve tentar interpretá-las, isto é, usar abusivamente nossas próprias palavras para transmiti-las. O perigo de deturpá-las é muito grande e tentador. Isso não significa dizer que não possamos, nós mesmos, apresentar o pensamento nietzscheano para os outros, significa que melhor será apresentá-lo com suas próprias palavras, assegurando-nos de que aquele recorte não só convém aos nossos interesses, mas também é fiel à integridade de sua obra. Para tanto, é bom que tenhamos certeza que seu pensamento seja já reconhecido pelos outros.

             Dentre as obras que utilizo para tratar da temática proposta neste trabalho, uma das mais úteis é Crepúsculo dos Ídolos ou Como filosofar a marteladas (1888). Um livro ousado, como toda a obra de Nietzsche, que não deixa pedra sobre pedra daquilo que ataca, por isso, “a marteladas”. Podemos começar citando uma frase que cai como uma luva para este trabalho: “Há mais ídolos que realidades neste mundo”. Dito isto, agora creio que podemos caminhar juntos nessa tarefa de desconstrução.

            Nietzsche tem por referência, como valor superior, a Vida, mas essa vida não é em favor do homem – ela não está aí por causa dele, e sim o contrário: ele está aí por causa dela. Então, a Vida é um valor por si mesma. Por outro lado, a moral surge como um valor modelador do homem, “domestificador do animal homem”, e nesse afã, ela se contrapõe à própria Vida, contra os instintos trazidos pelo homem. Além disso, não existe apenas uma moral. A moral foi tecida, aqui e ali, por forças dominantes, por classes, grupos, indivíduos que estavam no poder. Assim, ela funciona em prol de quem está no poder, subjuga os dominados de então e submete os que vêm depois pela força da tradição, como se ela fosse um valor inato, válido em todos os tempos para todos os povos. A moral dita as ações, diz o que se deve e o que não se deve fazer dentro de uma sociedade. Desta forma, os homens fortes se vêm acorrentados por códigos morais que, se não seguidos à risca, os transformam em marginais, a escória da sociedade. Então Nietzsche dirá: “A moral anti-natural, isto é, toda moral ensinada, venerada e pregada até o presente, se dirige, ao contrário, precisamente contra os instintos vitais – ela é uma condenação, ora secreta, ora ruidosa e descarada desses instintos[4]”.

            Com essa citação, muitos poderão perguntar: “Nietzsche pretende então que os homens se mantenham no estágio selvagem? Vivendo quase como animais?”. Então, vejamos! Embora a moralidade tenha sido instaurada há muitos séculos nas sociedades da África às Américas, o que há de selvagem no homem foi debelado? Toda a violência que se tem conhecimento de norte a sul e de leste a oeste foi aplacada pela moral? O comportamento doentio, de ódio, de traição, de mau-caratismo de um sem-número de pessoas, história adentro até os dias de hoje, demonstra um declínio na animalidade humana? Alguém ousará responder essas perguntas com um sincero e sonoro “Sim!”? A mordaça da moral com os seus “Tu deves” e “Tu não deves” não passa de um artifício difundido para a dominação de uns por parte de outros. A moral que até agora foi imposta pretende igualar todos os homens, fracos e fortes, para a domestificação por parte da classe ou dos indivíduos que estão e pretendem se manter no poder em cada sociedade. Nas palavras de Nietzsche: “A fórmula geral que serve de base a toda religião e a toda moral se exprime assim: “Faça isto ou aquilo, não faça isto ou aquilo – então serás feliz! Caso contrário...” Toda moral, toda religião não é senão esse imperativo – eu o chamo o grande pecado hereditário da razão a imortal não-razão”.



[1] Aquele que tem por prioridades ganhar o pão de cada dia, ter um emprego, uma família, alguns bens básicos, sem se importar com as questões profundas, filosóficas, que pairam sobre a vida.
[2] Filósofo alemão, rotulado como “pessimista”, por apresentar em sua obra-prima, “O Mundo como Vontade e Representação”, uma visão de mundo nua e crua, onde toda a realidade é movida por uma vontade cega, sem objetivo racional, sem um fim que agrade a razão e o coração dos seres humanos.
[3] Termos retirados do latim.
[4] Crepúsculo dos Ídolos, Cap. A Moral como Manifestação contra a Natureza.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

REFLEXÕES DO SÉCULO XXI (Parte III)

SE DEUS NÃO EXISTE, QUEM OU O QUE GOVERNA O MUNDO?


O termo “Deus” tem significados diversos e conotações as mais variadas: “Senhor”, “Criador”, “Pai”, são alguns dos sinônimos, enquanto “Ser Supremo” “Bem Supremo”, “Soberano do Universo”, também são expressões usadas para se referir a Ele. Em cada religião o termo “Deus” ganha um nome próprio, também pode mudar de forma e atributos. A palavra “Deus” se tornou tão forte entre nós que, quando emitida, gera nas pessoas algum tipo de reação emocional, a qual será mais forte ou mais fraca, agradável ou desagradável, conforme seja a identificação de cada pessoa com ela. Embora em cada religião a ideia “Deus” se modifique, o que não muda basicamente é a sua relação com o homem e este com Ele. Dito de maneira objetiva e clara, o que as religiões parecem dizer é que ‘Deus foi feito para o homem e o homem foi feito para Deus’, o que evidentemente não leva a lugar algum.

Até aqui, nesta série de reflexões propostas, temos analisado apenas a noção de Deus conforme apresentada pelas religiões, já que são elas que pretendem dar conta do que Ele seja. Mas o que espero fique claro é que, além das divergências entre elas, há ainda incongruências enormes dentro delas mesmas. Como, por exemplo, na vertente católica do cristianismo, a ideia “Deus” é apresentada como “o bom Pai” que tem moradas no Reino dos Céus para todos os seus filhos (como está escrito no Novo Testamento). Ora, essa perspectiva não dá lugar para Jeová, “O Deus Irado” que amava apenas o povo hebreu. A vertente evangélica, embora maciçamente atrelada ao nome Jesus Cristo, parece remeta a ideia “Deus” de volta à sua concepção no Velho Testamento, tendo, inclusive, seu “Povo Escolhido”, “O Povo de Deus”, “Os Eleitos”, o que não é corroborado nem um pouco pelas palavras do Cristo. Assim, vemos que o que há, na verdade, é uma adequação da ideia “Deus” aos interesses de cada doutrina, fazendo daquele que deveria representar “o Absoluto” um joguete, uma marionete, que é apresentado aqui ou ali conforme não o que é, mas o que querem que seja.

Já se foi o tempo em que não se podia questionar a existência desse “Deus das religiões” (embora a Idade Média, insisto, ainda não tenha acabado). Hoje, esse questionamento já não é restrito à Filosofia acadêmica, aos tratados filosóficos de grandes pensadores, já podem ser encontradas publicações em bancas de revistas que trazem o tema à baila. Citarei duas aqui. A renomada revista Planeta (Editora Três), na sua edição 471, de dezembro de 2011, trouxe, como matéria de capa, “Sem fé nem Deus”. O texto de Mariana Tavares apresenta números do crescente aumento daqueles que não professam nenhuma religião, dos agnósticos e dos ateus. A matéria chama a atenção para o fato de que “ateu” não é apenas aquele que “não crê em Deus”, ele também “crê que Deus não existe” (o que se aproxima mais do objetivo deste artigo). Além disso, a matéria apresenta nomes de várias personalidades que “não acreditavam em Deus, como Portinari e Sartre, assim como os nomes de grandes opositores das religiões e da existência de Deus, como o biólogo britânico Richard Dawkins e o filósofo norte-americano Daniel Dennett. Enfim, o texto de Mariana Tavares é elucidativo e contextualizado, pois evoca também questões socioculturais e políticas deste início de século 21.


A segunda revista que citarei é a “Psique – Ciência & Vida” (Ed. Escala), que em sua edição 97 trouxe estampada em sua capa “Fé Cega”. Nela, o texto “Quem precisa de religião?”, Marcelo da Luz (professor, conferencista e autor do livro “Onde a Religião termina?”) faz uma abordagem mais psicológica dessas questões da fé em Deus. Ali, o autor cita, por exemplo, Freud, que considerava o fenômeno religioso “uma neurose coletiva”. O texto tenta contrabalançar os prós e os contras da fé, mas parece enfático em lembrar que certos fatores psicológicos como o medo da morte, por exemplo, fazem as pessoas se deixarem “manipular consciencialmente” pelas religiões. Também diz que “pessoas inseguras quanto as próprias capacidades anseiam encontrar alguém que lhes aponte uma estrada e lhes diga o que fazer”. Claro: é bem aí que a muleta “Deus” passa a ser o totem das religiões e aquela velha imagem do “pastor guiando as ovelhas”, tão atrelada ao cristianismo, não deixa dúvidas do nível de dependência dos fieis. Parece-me pertinente também transcrever aqui dois momentos do pensamento do autor, bastante corroboradores do que tenho dito: “[...] a idéia da religião pacífica parece ser um mito, pois as religiões, historicamente, sempre fizeram apologia da tirania e da escravidão”. “Se o ser superior é mensageiro de verdadeiro amor e fraternidade, não seria mais lógico que estimulasse os seres humanos à autonomia moral da consciência, no lugar de exigir adoração e louvores para si mesmo?”.

Acreditando que neste ponto todos já tenham percebido (embora não necessariamente aceitado) ao onde pretendo chegar, pois a fé se mostra renitentemente opositora da razão, devemos partir para a análise do que afinal sustenta, equilibra e governa todo o Universo, pois, como vimos, aquilo que até aqui foi chamado genericamente de “Deus” pelas religiões jamais poderia ser o promotor de tanta harmonia, sendo Ele próprio um ‘desequilibrado’, que ora tem um humor, ora tem outro; ora é de um jeito, ora é de outro.

Segundo nossa maneira lógica de perceber o Universo, a Natureza, a Existência, já concluímos, há algum tempo, que tudo isso é um “organismo auto-regulado”, auto-suficiente, tendo “leis” extremamente eficientes em mantê-lo e preservá-lo. Todas as espécies, aves, animais, plantas, assim como rios, montanhas, vales e florestas, enfim, tudo pode sucumbir, ser extinto, ser substituído, ser modificado etc, sempre parecendo que há ali um plano de “manutenção” de algo maior. Os primeiros filósofos se debruçaram sobre essa preocupação – qual a origem do Universo? qual a sua natureza? A isso deram o nome de cosmogonia (a gênese do cosmo); em seguida, empreenderam meditações sobre o Universo e suas possíveis leis, dando a isso o nome de cosmologia (o estudo do cosmo). Ali não havia qualquer preocupação ou qualquer esperança de se chegar a um “Deus” criador e mantenedor do mundo. A ideia “Deus”, no sentido religioso que tratamos até agora, era totalmente desconhecida para eles. É impressionante o que aqueles homens descobriram, embora carecendo totalmente de instrumentos tecnológicos e outros recursos, que somente surgiriam muitos séculos depois.

 Paulo de Tarso, o verdadeiro fundador da Igreja cristã, disse em uma de suas epístolas que “A razão do homem é, para Deus, loucura!” (I Coríntios: 3, 19). Mas quem deu a “Razão” para o homem, o Diabo? Se assim fosse, não haveria negar que o Diabo é realmente o grande rival de Deus, e que ambos são forças antagônicas poderosíssimas. Aí, nos veríamos diante de mais uma incongruência religiosa: a Religião nos diz que “Deus” é “onipotente”, o que significa dizer, lembremos, que só Ele detém todo o poder. E agora? Como vemos, se insistirmos em admitir a existência desse “Deus” das religiões, teremos ainda mais um problema: o Diabo. Portanto, como tenho proposto, deixemos “Deus” na sua santa inexistência, porque problemas nós já temos demais sem Ele.

Se, durante séculos, nos convencemos de que somos seres especiais, já é mais do que hora de, também, repensarmos essa ideia. Se somos racionais e livres, como muitos creem, já é tempo de compreender que essas qualidades podem não significar exatamente “vantagens” ou “privilégios”, haja vista o mau uso que temos feito dessa nossa razão e liberdade. Saímos da Idade Média, do obscurantismo, para o otimismo iluminista do início da Era Moderna. Mas esse otimismo com o futuro do homem, ao que parece, ‘morreu na praia’, assim que chegou ao século 19. E, para piorar as coisas, presenteamos a primeira metade do século 20 com as duas Grandes Guerras – o animal racional tinha aprendido a matar os da sua mesma espécie com requintes de crueldade e com armas cada vez mais poderosas; enquanto o animal irracional, aquele sem privilégios, continuava predador apenas das outras espécies que eram necessárias à sua alimentação. Quanta inveja a nossa, não?! Àquela altura, a tábua com os dez mandamentos divinos já podia ser usada para qualquer outra coisa, menos para ser o “Código das Leis de Deus”. Mais uma vez, vemos como os alicerces e as colunas dos templos religiosos, suas ideias, ideais e dogmas, são perigosamente abalados, sobrando apenas uma edificação em ruínas.

No século 17, portanto, logo depois da Idade Média, vamos ter notícia de um filósofo, chamado Baruch de Spinoza (1632-1677). Spinoza, como ficaria conhecido, surgiu com ideias inovadoras sobre o tema destas nossas reflexões. Apesar de ele ainda usar o termo “Deus”, sua noção sobre Ele era bastante diferente das dos demais filósofos de sua época e anteriores a ele, e praticamente oposta à das religiões – o que, evidentemente, lhe valeu uma tenaz perseguição religiosa, que culminou na excomunhão do filósofo, promulgada pela comunidade judaica de Amsterdam, em 27 de julho de 1656, conforme o trecho que se lê abaixo:

“Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Spinoza... Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai e maldito seja quando regressa... Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele”.

Como se pode ver, anjos e santos têm em seus corações a mesma malignidade de qualquer homem mesquinho e a mesma ira dos rancorosos e ofendidos. Levando em conta que tal texto realmente fosse a decisão de seres celestiais, não me restaria dúvida de que eu preferiria a companhia de assassinos e ladrões a compartilhar com eles qualquer céu. Mas saiba-se que tal ira e rancor habitam o âmago de todas essas religiões que se dizem promotoras da paz e da fé, simplesmente porque são invencionices de homens; e, pior, dos homens mais baixos e obtusos – os sacerdotes. A escória que quer manter-se sempre no poder, escondendo-se sob o manto da ‘falsa humildade’.

Como disse linhas acima, embora Spinoza use o termo “Deus”, veremos que o “Deus-criador” do qual ele fala nada tem a ver com o da teologia cristã. Na sentença a seguir, o filósofo explica a existência de Deus: “[...] os homens confundem inteiramente a natureza divina com a humana. [...] Deus está em toda parte não como um espectador num teatro, isto é, exterior ao espetáculo, mas está em toda parte como força, que põe e conserva as coisas, força interior às coisas postas por ela.” Neste ponto, é bom lembrar o objetivo de nossa “reflexão”: não é o de devolver a existência ao “Deus das religiões”, e, sim, descobrir o que ou quem mantém o Universo. O ‘Deus de Spinoza’ se confunde com o que chamamos de “Natureza”, só que numa perspectiva existencial imanente, e não ecológica, como se costuma falar dela. Deus, nessa concepção, seria a Natureza não só que cria todos os seres, mas também a que está neles, os atualiza e os mantém. Spinoza acrescenta: “É claro que o vulgo não conhece absolutamente a natureza divina e lhe atribui uma vontade semelhante à do homem que, em nós, é concebida como distinta do intelecto. Creio que se deve ver nisso a base da superstição e de inúmeros crimes”. Sem dúvida!

Creio pertinente acrescentar ainda três noções maduras do pensamento do filósofo, a saber: “o bom e o mau”, “essência e existência” e “o que é a vida nos seres”. Para tanto, resumirei o pensamento de Spinoza, buscando não prejudicar (e, sim, facilitar) sua compreensão. Pois, muito bem! O filósofo diz que considerar uma coisa como boa ou má é uma questão puramente humana, pois o homem pensa tudo em relação ao bem ou ao mal que lhe causa; por sua vez, Deus desconhece esse bem ou mal, pois, sendo Ele perfeito, vê tudo o que acontece (portanto, também o que nos acontece) como “perfeito”, e somente em nossa mente, consideramos algo bom ou mau. Inferimos daí que “o Deus-bondade” dos religiosos é um absurdo, uma impossibilidade, visto que na suposta mente de Deus, “bom” e “mau” não existem, quando muito, “tudo seria apenas bom”, então como ele poderia vir ao auxílio do homem, quando solicitado em prece, para lhe proporcionar um bem, se, em última instância, Ele só fez e faz “o bem”?

 A segunda noção a considerar é aquela que o filósofo fala da “essência e existência de Deus”. Diz ele que, “em Deus, essência e existência são a mesma coisa”, ou seja, a verdade é que “Deus é”, enquanto nós, seres humanos, dizemos “Deus existe”. Volto a lembrar que o que está sendo dito neste parágrafo de nenhuma forma entra em contradição com o que já foi dito anteriormente, isto é, que “Deus não existe”. Primeiramente porque o que está sendo alvo de desconstrução nestas “Reflexões” é a ideia “Deus” das religiões, e agora passamos a considerar (como posto no título deste capítulo) o que ou quem ordena, atualiza e mantém o Universo, a despeito de Spinoza ainda chamar “isso” de “Deus”.

A terceira e última noção a ser considerada será dita nas próprias palavras do filósofo de Amsterdam, como segue: “Entendemos por vida a força pela qual as coisas perseveram em seu ser” (o grifo é dele). Em outras palavras: há uma força que produz o que chamamos “o ser vivente”, ou “o ser vivo”. O que há de importante nisso que remete à temática da existência ou não de Deus? Esclareço! Se estiverem me acompanhando (ou melhor, acompanhando o pensamento de Spinoza), lembrarão que aqui foi dito que o filósofo, em seu pensamento, faz com que “Deus” e “Natureza” sejam uma e a mesma coisa. Assim, se considerarmos que a “Natureza” tem seus próprios objetivos (criação, manutenção e preservação), dentre as suas “preocupações”, digamos assim, também está “o homem”, mas não que ele seja “o queridinho dela”, o que não nos dará margem para crermos que “rogando seus favores” (como se faz ao Deus e deuses das religiões) ela virá ao nosso auxílio, como “um fiel menino de recados”. Portanto, estamos sós com os nossos problemas, embora a “Natureza” também cuide de nós, dentro do que ela se propôs desde toda a eternidade, amém!



Para concluir este capítulo, embora sem a pretensão de termos encerrado a temática, tal é a sua profundidade, direi, como tenho dito reiteradamente, que o que pretendi com esses três primeiros capítulos da série “Reflexões” foi incentivar aqueles que realmente desejam se libertar das amarras da Idade Média e dos horrores e absurdos das religiões a encontrarem por si mesmos, sem o auxílio de intermediários inescrupulosos e interesseiros, os mercenários da fé, qual seria essa “Força” que, sem contradito, é a que manifestou o Universo e deu vida a todos os seres, que os equilibra com suas leis inexoráveis e que tudo preserva, ainda que impingindo a todas as coisas mutações, como a morte, por exemplo. Se compreendemos que essa “Força” tem o poder de criar, manter e preservar tudo o que “é”, pois tudo se resume nela mesma, e, ainda assim, ao mesmo tempo, compreendemos que, por sermos mortais, somos descartáveis, como o mais insignificante lixo humano, e desaparecemos para sempre, então nada ficou entendido de tudo o que foi exposto até aqui. De minha parte, serei sempre fiel não à mera ideia, mas, sim, à convicção, respaldada no sério escrutínio da Razão, de que o fato de sermos mortais, como corpos, não nos tira o direito supremo, outorgado pela própria Natureza, de sermos “eternos”, posto que nossa “essência” participa não da existência efêmera e fugaz, mas da Eternidade.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

REFLEXÕES DO SÉCULO XXI

DEUS NÃO ESTÁ MORTO, DEUS NÃO EXISTE!



Há milhares de anos, o homem teceu para si a ideia de “Deus”. Não apenas o seu criador, do mundo e de todas as coisas, mas um ser todo-bondade, cujo bem é seu único atributo, embora, para tanto, também seja onipotente, onisciente e onipresente, qualidades sem as quais ele não poderia ser o detentor de todo o bem. Dizem que essa ideia surgiu por pura necessidade – era preciso atribuir uma causa para todas as coisas; uma força, uma entidade, um ser, que também, e necessariamente, fosse causa sui, para que não houvesse uma busca por causas das causas ad infinitum.

A Religião se apropriou desse “Deus”, e tudo seria menos complexo se ela fosse uma só – “a religião da humanidade com um único Deus”. Mas não! Ela se diversificou em muitas e, ao mesmo tempo, diversificou a ideia de “Deus”. De tal modo que “Ele” não parece o mesmo em cada uma delas. Durante muito tempo, em algumas das religiões mais antigas de que se tem conhecimento, “Ele” nem mesmo era “um” – por lá se adoravam “deuses”, cada qual útil a certas necessidades humanas. Então, adorava-se ao “deus” que lhe conviesse – o que, efetivamente, gerou mais dissidências e divergências. Em outras, nem mesmo era “Ele” – era “Ela”, um “deus feminino”, ou seja, uma “deusa”.

O hinduísmo, uma das grandes religiões do mundo em quantidade de seguidores, tem um panteão repleto de deuses e deusas que, ao que dizem, convergem para um único ser supremo, mas são variados os nomes que dão a "Ele", segundo a variedade de seitas que existem no Oriente. E esse ser supremo tanto pode ter uma aparência antropomórfica, como é o caso de Krishna, quanto a de um animal, como Vishnu, que, às vezes, é retratado como um peixe. Dizem que a religião budista é uma “religião sem Deus ou deuses”. Buda, ou melhor, os budas, como Siddharta Gautama, são seres elevados – homens que chegaram à excelência da qualidade humana, e decidiram zelar por nossa espécie, muitos deles renunciando ao Nirvana, que corresponderia no cristianismo a “chegar ao céu”. Mas, no caso budista, não fica muito bem explicado que “céu nirvânico” seria esse, quem o teria criado e qual a necessidade dele estar “lá”. Os hebreus, cuja religião é o judaísmo, dão ao seu “Deus” o nome de “Jeová” – o deus guerreiro. Um deus que exige do seu povo  adoração, obediência e uma vida irrepreensível. Quando tais requisitos não são observados, é muito comum que Deus-Jeová produza muitas calamidades, causando mesmo até a morte de milhares ou milhões (vide o Velho Testamento) – o que, certamente, já nos dá o direito de considerar que não há aí qualquer possibilidade de Jeová ser “todo-bondade”.

A Bíblia é um livro complexo que tenta “amarrar” numa só verdade ou compreensão deuses bastante diferentes, a saber: o guerreiro Jeová dos judeus e o Pai no Céu, anunciado por Jesus Cristo. Isto é, tenta nos fazer crer que o Jeová, que se ira com muita facilidade (até porque os homens são imperfeitos e cometem erros a todo momento), é o mesmo que “amou o mundo de tal maneira que enviou seu próprio filho, para sacrificar-se pelos homens pecadores”. O que aconteceu ao velho Jeová? Teria o seu coração amolecido com o passar dos anos? Por que não destruir todos os pecadores, como fizera outrora aos de Sodoma e Gomorra? O que pessoas como Maria Madalena, uma prostituta, que pelas leis judaicas deveria ser apedrejada em praça pública, e Pedro, um covarde, que negou por três vezes ser seguidor do Cristo, teriam de tão especial aos olhos de “Deus-Jeová” que merecessem, assim como outros milhões de semelhantes a eles, o sacrifício do “Cordeiro de Deus”? Difícil saber, não é mesmo? Então, fica a indagação, para , quem sabe, uma resposta plausível a posteriori, quando a humanidade poderá está mais madura para questões tão complexas (caso os homens não concluam seu intento de destruírem-se uns aos outros em nome de Deus, como têm feito até aqui, é claro!)

O islamismo chama seu “Deus” de “Alá” e, assim como o cristianismo tem seu livro sagrado e seu profeta maior, ele também tem os seus: o Alcorão e Maomé, respectivamente. Os muçulmanos são muitos devotados e praticam um culto bastante rigoroso, com rituais que não podem deixar de ser observados, sob pena de o faltoso ser considerado um infiel e sofrer duríssimas penalidades por parte de sua comunidade. O islamismo também exige respeito até dos que não professam sua fé. O que está bastante claro na atualidade, com todos esses eventos, que a imprensa insiste em veicular com termos disfarçados. Durante anos, na Idade Média, a Igreja Católica promoveu um grande conflito entre muçulmanos e cristãos, nos episódios que foram chamados de “As Cruzadas". Por Trás de toda fé e de toda propaganda articulada pelo Vaticano, o objetivo era mesmo retomar terras consideradas da cristandade das mãos dos mouros (muçulmanos) – locais considerados sagrados, porque lá estivera ou vivera o Cristo. O certo é que todas essas dissidências ou divergências de pensamento dificultaram, e ainda dificultam, uma compreensão cabal da existência de Deus e do que ou quem seria “Ele”.

Na segunda metade do século 19, o filósofo Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) declarou, através do protagonista do seu livro “Assim falava Zaratustra”, “Deus morreu”, e já em "A Gaia Ciência" (Aforismo 125), o filósofo se delonga em expor questionamentos que muitos se fariam decorrentes da tomada de consciência da "morte de Deus". O filósofo teve uma vida repleta de males e, nos últimos anos de existência, sua saúde deteriorou bastante, culminando em loucura, o que fez com que seus adversários e desafetos, os cristão mais precisamente, fizessem também uma declaração contra ele, parafraseando-o ironicamente: “Deus disse ‘Nietzsche está morto!'”. Nesse pormenor, os cristãos podem bater no peito, vitoriosos: realmente Nietzsche está morto e a ideia Deus ainda sobrevive até os dias de hoje.

No entanto, há sobejas evidências de que nem cristãos, nem judeus, nem muçulmanos, nem ateus, nem seguidores do filósofo Nietzsche, estão com a razão. Não há nenhuma prova (ou mesmo vestígios) de que um Deus-bondade, um Deus-guerreiro ou um Deus-justiça exista (ou "seja"). O que a Razão pode nos levar a perceber é que a ideia Deus tornou-se um disparate diante de tudo o que testemunhamos, não só ao longo da História, como também no nosso dia-a-dia. O que há em nossa existência é o total desamparo por parte de qualquer ser ou força suprema, exceto os atributos que nos foram dados pela mãe Natureza. A sentença de Nietzsche foi mal interpretada por muitos (sobretudo pelos obtusos cristãos). O filósofo não pretendia informar sobre a morte de uma “divindade suprema”; ele vaticinava, esperançoso, a morte da ideia “Deus”. Uma ideia que, embora para os religiosos seja salutar e benfazeja, para o homem não-religioso, que faz uso da razão, que observa o mundo e o quer modificar, é uma ideia totalmente perniciosa e falaciosa. Por quê? Muito simples! Esse “Deus” (fosse Ele o que) não faz (nem faria) desse mundo, ou das pessoas desse mundo, algo melhor, sendo Ele próprio motivo de intolerância, desavenças pequenas e guerras descomunais. Somente um grandíssimo tolo, na verdade, um insano, conseguiria ver em qualquer coisa que se pudesse atribuir a “Ele” algo de “plena bondade ou justiça”.


Este mundo pode parecer “cosmos” (ordenado) em suas leis gerais, ou seja, que não levam em consideração os atos humanos (o fato de serem bons ou maus, ou agirem bem ou mal); leis que equilibram este Universo, de maneira que sintamos certa segurança na regularidade quase invariável das coisas. Basta observarmos que todos estamos sujeitos aos mesmos horrores, às mesmas vicissitudes, às mesmas calamidades etc, etc. Ninguém está a salvo de uma doença terrível, de uma morte violenta e injusta, ou de qualquer outro fatalidade medonha. Somos todos vítimas do tempo, da sorte, dos que não nos querem bem e dos que simplesmente, sem qualquer razão, podem nos fazer o mal. Nenhum “Deus” apresentado até agora pelas religiões se demonstrou nosso “protetor”, “pai” ou “amigo”, no sentido em que esses termos têm sua melhor definição. Estamos totalmente desprotegidos e sós, a despeito de todas as orações, todas as adorações, todos os nossos atos de fé, todos os nossos pedidos de clemência. A verdade é que estamos como naus à deriva, e o nosso medo nos faz clamar pelo invisível, ou pior, pelo inexistente.


Os milhares de anos de adoração em vão, de cultos e rituais pueris e insanos, não foram ainda suficientes para nos despertar dessa “loucura” – queremos “Deus”; queremos qualquer “Deus”; queremos qualquer coisa que nos dê alívio, paz, segurança. Por isso mantemos a chama acesa no altar da esperança – seremos salvos pelo sangue de um justo, pela espada de um guerreiro ou pelo favor da morte, a única até agora capaz de tirar de sobre nossos ombros o peso da existência e da condição falaciosa de “condenados à liberdade”. “Liberdade” já deveríamos saber há muito o que é: uma gaiola imensa, da qual não conseguimos ver as grades, senão quando esbarramos nelas. E então dizemos: “Melhor assim! Lá fora poderia ser pior para mim!”. Esse pensamento não é raciocínio, é medo. Não temos medo de Deus nem do que Ele pode nos dá ou tirar (afinal Ele é bom, não é?) – temos medo de nós mesmos, pois assim é que nos ensinaram, porque de outra forma jamais adoraríamos um “Deus”; jamais inventaríamos um “Deus”; jamais sequer cogitaríamos tal possibilidade. Portanto, que seja o medo o guardião de todo e qualquer “Deus”. Pelo medo (se preferirem termos bíblicos, “pelo temor) Deus está justificado... Mas nem por isso “Ele” existe!