ZEPELINS, ROLEZINHOS E BUNDAS
Só quem é alienado ou está com a vida tão bem resolvida que não liga para o mundo à sua volta não percebe que estamos vivendo tempos em que coisas sem precedentes estão ocorrendo, aqui no Brasil e fora dele. Para as bandas de lá, todo aquele rebuliço iniciado com a Primavera Árabe, em dezembro de 2010, e agora mais essa da Rússia com a Ucrânia, e a velha “Guerra Fria” querendo esquentar o panorama político mundial. E aqui no Brasil, todas essas manifestações “por tudo em toda parte”, desde julho do ano passado, que, ao que parece, encontrará seu ápice neste auspicioso ano de Copa do Mundo e Eleições. Tudo isso sob os auspícios da “todo-poderosa Internet”, que liga “todo mundo a todo mundo”, junta ideias desconexas, vomita (des)informação, elege celebridades do besteirol generalizado, denuncia preconceitos de todas as espécies, gera processos inimagináveis, etc, etc.
Eu, que não me enquadro em nenhum dos casos da primeira linha deste despretensioso artigo, também “dou minhas cacetadas” por aí. E, vez por outra, não resisto a "meter o bedelho" em uns disparates que não consigo deixar passar em branco. Vamos a alguns!
As manifestações contra a realização da Copa do Mundo aqui no Brasil, acusando o Governo de gastar bilhões com estádios de futebol, enquanto a situação de hospitais e escolas existentes é degradante, sem falar naqueles que não inauguram ou não funcionam, demonstrando o total descaso com a saúde e a educação neste país, encontram os ecos mais efusivos e desproporcionais, que jamais se poderia imaginar. Um exemplo disto encontrei na seguinte declaração: “E eu, aqui, torço para que o fêmur de Neymar seja partido em dois lugares diferentes uma semana antes do início da Copa, e que todos os filhos que ele teve e terá, que todos sejam pernas de pau”. O autor é Sr. Marcelo Mirisola que, no perfil do seu blog, se diz considerado pela crítica como “o Pedro Alvares Cabral da autoficção aqui em nossas plagas” (embora eu não saiba o que “isso” significa). O mesmo Marcelo, linhas abaixo, na mesma postagem no seu blog, em 08/04/14, acrescenta: “O Brasil não precisa de jogadores de futebol, precisa de pilotos de dirigíveis, engenheiros, médicos para reconstituir o fêmur do Neymar, e professores de cálculo para ensinar os netos do seu Neymar da Silva Santos (pai do Neymar Jr.) que é mais fácil um dirigível cair na cabeça do Felipão do que o futebol tirar do zero a zero a vida daqueles que não tiveram a sorte de nascer de um gol de placa do camisa 11 da seleção – isso antes de ele ter o fêmur partido em dois, claro”.
Ora, caros leitores, o que temos aí, senão a extrema distorção da maneira como se deve protestar, rechaçar ou simplesmente opinar contra um evento? Por que o pobre (riquíssimo, aliás!) Neymar deve ser o bode-expiatório de uma problemática nacional, que nada tem a ver com ele, senão no tocante à palavra “futebol”? Terá ele, no entanto, que ter o fêmur partido e os filhos, que porventura gerar, como “pernas de pau”, só porque o sr. Mirisola é um dos milhares de brasileiros que pretendem ter voz e vez contra o evento, mostrando que têm atitude crítica ativa e contundente? Tenham a santa paciência! Que um zepelim carregue esse senhor, e todos os que tiverem opiniões disparatadas como a dele, para longe de nós, amém!
Também aqui em terras tupiniquins, jovens da periferia das grandes cidades, reivindicando “seu direito de ir e vir”, por onde quiserem, inclusive dentro dos luxuosos shoppings, frequentados por “Mauricinhos e Patricinhas”, filhinhos e filhinhas de papai que têm e podem tudo, resolveram programar pelas redes sociais encontros que passaram a chamar de “rolezinhos”, os quais deixaram apavorados clientes, proprietários e seguranças das lojas desses shoppings, porque quase sempre concomitantemente com esses “rolezinhos” também aconteciam “arrastões” e “saques” em lojas de grife. Os defensores dos direitos das crianças e adolescentes, carentes ou não, assim como educadores e outros profissionais afins, que se pretendem de vanguarda, manifestaram-se em favor dos “rolezinhos”, enquanto os shoppings reforçavam a segurança, criando assim maior revolta na turba juvenil e junto a seus defensores adultos e formadores de opinião. Por sua vez, as autoridades estaduais e municipais se faziam cautelosas em se contrapor ou tomar qualquer providência, no sentido de evitar esses “legítimos e inofensivos encontros da rapaziada”. Não demorou muito para que em algum lugar, onde aconteceu esses “encontros juvenis”, surgisse um representante, uma espécie de líder desses jovens. Tal representante era, nada mais, nada menos que o jovem Lucas Oliveira Silva de Lima, de 18 anos, intitulado “o Rei do Rolezinho”. Porém, sua liderança não lhe rendeu apenas os 15 minutos de fama, na Internet e no raio de alguns quilômetros de seu bairro. Ela também foi a causa provável de sua morte.
Vejamos o que escreveu a Srª. Laura Capriglioni em seu blog, também na data de 08/04/14, sobre a morte desse “famoso” adolescente: “No chão do baile funk, ficou o corpo do menino Lucas Oliveira Silva de Lima, 18, o Rei do Rolezinho. O delegado José Lopes, do 64º DP, diz que o garoto morreu espancado. “Traumatismo craniano causado por instrumento contundente”. E acrescenta em tom de dor e de reconhecimento do “herói” que tinha um futuro brilhante e extenso pela frente”: “O “Cocão, menino do morro”, como se denominava, tinha 57.480 seguidores no Facebook, a maioria garotas. Era um ídolo. Orgulhoso, assumia suas origens. Escola: Favela. Moradia: Itaquera, zona leste”. A autora do blog lembra, em tom de desabafo, os primeiros “momentos de glória” do rapaz: “Em janeiro, Lucas tornou-se celebridade, depois de organizar um rolezinho no Shopping Itaquera, vizinho de sua casa, na favela da Vila Campanela. Três mil adolescentes participaram, cantando as letras desafiadoras do funk. A polícia interveio com bombas de gás”.
Muito bem, me pergunto “quem foi esse jovem Lucas? Um arruaceiro, um mártir juvenil ou uma pobre vítima de uma sociedade cujos valores há muito se perderam?”. Concluo, sem muita dificuldade, que nossa sociedade tateia às escuras, não apenas destituída de qualquer valor moral ou social, mas também como triste produtora de valores idênticos a moedas de ouro falsas – que conseguem por algum tempo ludibriar os incautos e fazer negócio, mas logo são descobertas e descartadas, elas como lixo e seus fabricantes como escória da sociedade. Penso que a juventude deve ter, sim, seu direito de ir e vir preservado e garantido, mas deve também exercê-lo não com “libertinagem” e ao “bel-prazer”. Muitos adolescentes (muitos mesmo!) engajam-se em manifestações e eventos considerando apenas a oportunidade de “ter diversão a qualquer custo”, e desconsiderando que o mundo (resumido à sua cidadezinha ou a seu pobre bairro, que seja) está longe de ser um parque de diversões.
O espaço público deve ser pensado com sendo “meu” e “não meu” – quase um paradoxo, mas não é – pois isso significa (ou, pelo menos, deveria nos fazer lembrar) que há um “contrato social” que nos faz apenas “sócio” desse espaço comum e que, portanto, prevê que há outros que precisam “concordar” com o tipo de uso que fazemos desse espaço. Desconsiderar essa “cláusula” é ferir esse “contrato”, o que faz de qualquer cidadão, não importando sua idade ou classe social, um “infrator” dos direitos sociais já conquistados e simbolicamente acordados, quando fazemos parte de uma comunidade. Para que um evento seja considerado inofensivo e pacífico é preciso que se demonstre nos fatos reais, observáveis; em suas consequências imediatas e posteriores. Enxergar a juventude deste país apenas como carente de oportunidades e esquecida pelas autoridades, em suas instâncias municipais, estaduais e federais, é perceber apenas uma das facetas de uma triste realidade. As razões, que se tornam causas efetivas nos eventos reais, precisam ser analisadas e também corrigidas, não apenas glorificadas para justificar seus efeitos.
Por último, mas não por fim, temos ainda o caso do professor de Filosofia que também queria os seus 15 minutos de notoriedade nacional, e conseguiu. Na prova que elaborou para alunos do Ensino Médio de uma escola em Taguatinga, no Distrito Federal, incluiu uma questão em que citava a cantora de funk, Valesca Popozuda, famosa mais pela protuberância que traz entre suas costas e suas coxas do que propriamente por suas “produções líricas” (que ela e seus admiradores insistem em chamar de “música”), como “grande pensadora contemporânea”. O nome do professor? Antonio Kubitschek, isso mesmo, Kubitschek! Apesar de toda a polêmica que sua questão produziu, ele ainda se fez hábil em argumentar, numa entrevista para a rádio Band News FM, dizendo o seguinte: “Se eu tivesse colocado Chico Buarque como grande pensador contemporâneo, não teria causado polêmica nenhuma”.
O Sr. Kubitschek, ao que parece, não vê qualquer diferença entre as “letras e melodias” buarquianas e as da Popozuda, o que me faz duvidar duplamente de suas concepções: será que ele sabe o que é música? Será que ele ao menos suspeita o que seja Filosofia? Como se tudo isso não bastasse, ainda encontrei pela Net esta “bela argumentação” da professora Bruna Mitrano, da rede pública do município do Rio de Janeiro, que parece aliar-se ao pensamento do professor Kubitschek: “Nada contra a Popozuda, já usei letras de funk em aula. A polêmica com a Valesca ficou no epíteto “grande pensadora contemporânea”. Pensadores todos somos, contemporâneos também, mas quem julga o que é grande?”.
O que temos aí, caros leitores? Professores inseridos em seus contextos socioculturais, tentando “falar a língua” dos seus jovens alunos, ou, visto por outro ângulo, a comprovação de que, em vez de certos educadores tentarem elevar o grau de qualidade cultural dos nossos jovens, utilizam-se do “lixo” que está aí, entrando pelos ouvidos, destruindo os miolos de jovens e adolescentes, à força da massificação midiática, radiofônica, televisiva, etc, etc, para se tornarem “o professor queridinho dos seus alunos”? Comparar Valesca Popozuda a Chico Buarque, como sendo ambos “grandes pensadores contemporâneos”, ou usar letras do funk, para atrair o interesse dos alunos pelas aulas, denunciam por si mesmos a péssima qualidade da Educação, que passa não só pelo descaso dos governantes, mas também por dentro e por fora das escolas – no seu entorno, nas diretorias, nas salas dos professores, na sala de aula –, enfim, onde quer que se pretendesse “respirar” conhecimento, educação e cultura.
O problema não está no funk! Poderia ser o rock, o samba, o pagode, ou qualquer outro estilo musical. É preciso perceber a problemática em sua inteireza, embora esteja nos detalhes o ponto crucial. Se uma música, seja qual for seu estilo, faz apologia ao uso de drogas, ao tráfico de drogas, ao estupro, à ostentação, à pedofilia, à violência, ou coisas do gênero, como eu, professor, posso utilizar tal música como ferramenta de transformação sociocultural dos meus alunos (já que essa é uma das funções básicas da Educação)? Similarmente, qual a utilidade de fazer referências aos propagadores dessas letras e melodias e ainda lhes conferir “epítetos” que os valorizam ainda mais diante dos seus jovens admiradores? Fazendo assim, ao invés de conduzir nossas “pobres ovelhas” ao pasto, estaremos levando-as exatamente para o covil dos lobos. Será isso mesmo que queremos?
Como vemos, caros leitores, vivemos momentos difíceis até mesmo para a reflexão. Sobreviver entre tantos “manifestantes”, “líderes de classes sociais”, “filósofos”, “pedagogos”, “blogueiros”, “pensadores”, “formadores de opinião” e outros “bichos-de-sete-cabeças” (ou nenhuma), não tem sido uma tarefa tão simples quanto outrora. Tudo isso me leva a enxergar um quadro sombrio bem à nossa frente. Talvez por isso mesmo, esta noite, tive um terrível pesadelo: sonhei que a 3ª Guerra Mundial se realizava no Universo WWW. Um vírus letal destruíra nossas ideias, nossos pensamentos, nossas mensagens, nossas imagens e tudo mais que tenhamos postado nas redes sociais, enviado por e-mail e compartilhado com os que concordam (as forças aliadas) ou não (as forças inimigas) conosco. Nosso “day after” era ainda mais terrível. Nenhum zepelim nos vinha resgatar de nossas insignificâncias, ninguém tinha força ou vontade para participar de um “rolezinho” qualquer, não havia mais escolas ou qualquer instituição de educação, não sabíamos mais distinguir o som produzido por uma orquestra de um barulho qualquer. E quando parecia que nada mais restava sobre a face da Terra, apareceu, na tela dos nossos computadores e afins uma imensa bunda, que crescia assustadoramente na tela até nos “devorar” a todos. Nem mesmo tivemos tempo de compreender que aquela bunda descomunal era o que sempre foi posto para nós como a coisa mais “sagrada e misteriosa” de nossas vidas – aquela bunda monstruosa era “Deus”. Felizmente (ou não!), eu acordei e disse para mim mesmo: “Eu tive um pesadelo!”.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
quinta-feira, 6 de março de 2014
QUANDO O GALVÃO NÃO É "BUENO"
ELE NÃO NARROU O GOL DO OSCAR
“O narrador da Globo, Galvão Bueno, ignorou o primeiro gol da Seleção Brasileira em amistoso contra a África do Sul. Em vez do grito de gol, seguiu lendo um recado para a participação do "amigo internauta" na transmissão, irritando os telespectadores.” – Fonte: Yahoo Notícias (e segue):
"[...] ele narrou, de forma tímida, e atrasada, já com os jogadores comemorando. "O Brasil chega a 1 a 0 logo no princípio de jogo, aos nove minutos, Vamos rever com calma”."
“Até a vinheta da Globo entrou tardiamente por conta do que erro grosseiro do narrador, que depois se desculpou com os telespectadores. "Peço perdão, porque me fixei ali na mensagem que pedia pro telespectador. Vamos rever com calma...".”
"A posição era legal. Confesso que quando peguei a imagem pensei que fosse ser marcado impedimento, mas eu peço perdão a todos os telespectadores do Brasil inteiro. Repito, peço perdão pela falha", voltou a se desculpar Galvão.”
A última partida da seleção brasileira de futebol antes da Copa do Mundo no Brasil foi nesta quarta-feira de cinzas (05/03/14), na África do Sul. Uma data meio ofuscada pelo último dia de Carnaval, mas bastante comemorada pela FIFA, que promoveu, simplesmente 51 partidas em todo o mundo, e, no caso especial da partida entre África do Sul e Brasil, uma homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, falecido no final do ano passado.
Bem, o que realmente me levou a escrever esse artigo, se não sou técnico nem jogador de futebol; não sou comentarista nem narrador esportista? Ora, não é novidade que a mídia, seja ela noticiosa ou esportista, atualmente apela para o lado sensacionalista, buscando fisgar o maior número de pessoas que levam mais em consideração a “quantidade” do que a “qualidade” da notícia. Assim, a Globo, com sua equipe “de ponta”, não trabalha para oferecer uma transmissão de má qualidade, em qualquer aspecto (pelo menos, é o que se pensa!): Ela quer ser a “number one”! Mas isso nem sempre dá certo!
Pois bem! O que me levou a escrever esse artigo foi o fato de, além de ser interessado pelo futebol brasileiro (sobretudo sobre a nossa seleção), também sou um criterioso observador. E o que eu tenho a destacar, como observador que sou, foi a falha de Galvão Bueno, ao não narrar, como de costume, o primeiro gol da seleção, nessa partida. Isso porque ele não estava narrando o jogo – estava, na verdade, convocando os telespectadores/internautas a darem sua participação (como se lê acima, nas “Notícias do Yahoo!”.
O fato interessante é que Galvão Bueno, percebendo a sua falha, tenta por várias vezes se desculpar com o telespectador, talvez nem tanto por respeito ao público, e, sim, porque perdeu a oportunidade de narrar (com todos os “erres” que lhe são peculiares) o primeiro gol, na última partida amistosa do Brasil antes da Copa.
Minha mulher, que nem torcedora é de futebol, sempre que tem a oportunidade de estar na sala, assistindo comigo a uma partida, assim que percebe que há muita “falação” (como ela diz) e pouca narração” do jogo, como deveria ser, diz que isso só acontece quando o jogo está “desinteressante”. Pois acho que foi isso mesmo! – o jogo entre África do Sul estava tão desinteressante ( para não dizer “ruim”), que o narrador (Galvão Bueno) resolveu se dedicar á chamada da audiência e da participação dos telespectadores-internautas, e acabou levando um “gol de placa”.
Enfim, o jogo acabou em África do Sul 0 X 5 Brasil. Então, falemos sério (não é, Galvão?): nessa inusitada quarta-feira de cinzas, teve coisa mais “desinteressante” do que isso?!
“O narrador da Globo, Galvão Bueno, ignorou o primeiro gol da Seleção Brasileira em amistoso contra a África do Sul. Em vez do grito de gol, seguiu lendo um recado para a participação do "amigo internauta" na transmissão, irritando os telespectadores.” – Fonte: Yahoo Notícias (e segue):
"[...] ele narrou, de forma tímida, e atrasada, já com os jogadores comemorando. "O Brasil chega a 1 a 0 logo no princípio de jogo, aos nove minutos, Vamos rever com calma”."
“Até a vinheta da Globo entrou tardiamente por conta do que erro grosseiro do narrador, que depois se desculpou com os telespectadores. "Peço perdão, porque me fixei ali na mensagem que pedia pro telespectador. Vamos rever com calma...".”
"A posição era legal. Confesso que quando peguei a imagem pensei que fosse ser marcado impedimento, mas eu peço perdão a todos os telespectadores do Brasil inteiro. Repito, peço perdão pela falha", voltou a se desculpar Galvão.”
A última partida da seleção brasileira de futebol antes da Copa do Mundo no Brasil foi nesta quarta-feira de cinzas (05/03/14), na África do Sul. Uma data meio ofuscada pelo último dia de Carnaval, mas bastante comemorada pela FIFA, que promoveu, simplesmente 51 partidas em todo o mundo, e, no caso especial da partida entre África do Sul e Brasil, uma homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, falecido no final do ano passado.
Bem, o que realmente me levou a escrever esse artigo, se não sou técnico nem jogador de futebol; não sou comentarista nem narrador esportista? Ora, não é novidade que a mídia, seja ela noticiosa ou esportista, atualmente apela para o lado sensacionalista, buscando fisgar o maior número de pessoas que levam mais em consideração a “quantidade” do que a “qualidade” da notícia. Assim, a Globo, com sua equipe “de ponta”, não trabalha para oferecer uma transmissão de má qualidade, em qualquer aspecto (pelo menos, é o que se pensa!): Ela quer ser a “number one”! Mas isso nem sempre dá certo!
Pois bem! O que me levou a escrever esse artigo foi o fato de, além de ser interessado pelo futebol brasileiro (sobretudo sobre a nossa seleção), também sou um criterioso observador. E o que eu tenho a destacar, como observador que sou, foi a falha de Galvão Bueno, ao não narrar, como de costume, o primeiro gol da seleção, nessa partida. Isso porque ele não estava narrando o jogo – estava, na verdade, convocando os telespectadores/internautas a darem sua participação (como se lê acima, nas “Notícias do Yahoo!”.
O fato interessante é que Galvão Bueno, percebendo a sua falha, tenta por várias vezes se desculpar com o telespectador, talvez nem tanto por respeito ao público, e, sim, porque perdeu a oportunidade de narrar (com todos os “erres” que lhe são peculiares) o primeiro gol, na última partida amistosa do Brasil antes da Copa.
Minha mulher, que nem torcedora é de futebol, sempre que tem a oportunidade de estar na sala, assistindo comigo a uma partida, assim que percebe que há muita “falação” (como ela diz) e pouca narração” do jogo, como deveria ser, diz que isso só acontece quando o jogo está “desinteressante”. Pois acho que foi isso mesmo! – o jogo entre África do Sul estava tão desinteressante ( para não dizer “ruim”), que o narrador (Galvão Bueno) resolveu se dedicar á chamada da audiência e da participação dos telespectadores-internautas, e acabou levando um “gol de placa”.
Enfim, o jogo acabou em África do Sul 0 X 5 Brasil. Então, falemos sério (não é, Galvão?): nessa inusitada quarta-feira de cinzas, teve coisa mais “desinteressante” do que isso?!
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
DECLARAÇÃO NIETZSCHIANA
O CONHECIMENTO DAQUELE QUE SOFRE
O filósofo Friedrich Wilhelm Nietzsche foi sobretudo um combatente de sua própria vida e filosofia. Em seu livro "Aurora", destaca-se o tópico 114 intitulado "O Conhecimento daquele que sofre", onde podemos vislumbrar uma auto-observação sobre si mesmo e as dificuldades existenciais por que passou.
Abaixo, transcrevo na íntegra o texto original encontrado naquela obra.
A condição das pessoas doentes, durante muito tempo e horrivelmente torturadas pelo sofrimento, mas cuja inteligência, apesar disso, não se perturba, não deixa de ter valor para o conhecimento — sem falar até dos benefícios intelectuais que trazem consigo toda solidão profunda, toda libertação súbita e lícita dos deveres e dos hábitos. Aquele que sofre profundamente, encerrado de alguma forma em seu sofrimento, lança um olhar gélido para fora, sobre as coisas: todos esses pequenos encantamentos enganadores em que habitualmente se movem as coisas, quando são olhadas por alguém saudável, desaparecem para ele: ele próprio permanece envolto em si, sem encanto e sem cor. Supondo que viveu até aqui em qualquer perigoso devaneio, o supremo chamamento à realidade da dor constitui o meio de arrancá-lo desse devaneio: e talvez seja o único meio. (É possível que o fundador do cristianismo tenha feito esta experiência na cruz, pois as palavras mais amargas que já foram pronunciadas “Meu Deus, por que me abandonaste?” encerram, se interpretadas em toda a sua profundidade, como se tem o direito, o testemunho de uma completa desilusão, a maior clarividência sobre a miragem da vida; no instante do sofrimento supremo, Cristo se torna clarividente acerca de si mesmo, precisamente como foi também, segundo conta o poeta, esse pobre Dom Quixote moribundo). A formidável tensão do intelecto que procura se opor à dor ilumina com isso tudo o que diz respeito a uma nova luz: e a indizível atração que sempre exercem todas as novas iluminações é muitas vezes bastante poderosa para resistir a todas as seduções do suicídio e para fazer parecer realmente desejável para aquele que sofre a continuação da vida. Pensa com desprezo no mundo vago, quente e confortável, onde o homem saudável vive sem escrúpulos; pensa com desprezo nas ilusões mais nobres e mais caras que outrora ele próprio partilhava; sente verdadeiro prazer ao evocar de qualquer maneira esse desprezo, como se viesse das profundezas do inferno, infligindo assim à alma os mais amargos sofrimentos: é por esse contrapeso que consegue resistir à dor física — sente que agora esse contrapeso é necessário. Com uma impressionante lucidez sobre sua própria natureza, exclama: “Sê uma vez teu próprio acusador e teu próprio carrasco, toma teu sofrimento como uma punição que ti próprio infliges! Goza de tua superioridade de juiz; melhor ainda: goza teu belo prazer, tua arbitrária tirania! Eleva-te acima de tua vida como acima de teu sofrimento, contempla a fundo as razões e as desrazões!” Nosso orgulho se revolta como nunca antes: sente uma atração incomparável para defender a vida contra um tirano como o sofrimento e contra todas as insinuações desse tirano que gostaria de nos levar a testemunhar contra a vida — a representar a vida justamente diante do tirano. Nesse estado nos defendemos com amargor contra toda espécie de pessimismo, para que este não apareça como uma conseqüência de nosso estado e nos humilhe como vencidos. Nunca a tentação de ser justo nos juízos foi maior que agora, pois agora a justiça é um triunfo sobre nós mesmos e sobre o estado mais irritável que se possa imaginar, um estado que escusaria todo juízo injusto; — mas não queremos ser desculpados, queremos mostrar agora mesmo que podemos ficar “sem mancha”. Passamos por verdadeiras crises de orgulho. — E agora aponta a primeira aurora de apaziguamento, de cura — é quase o primeiro efeito com que nos defendermos contra a preponderância de nosso orgulho: consideramo-nos então patetas e vaidosos — como se nos tivesse acontecido qualquer coisa de único! Humilhamos sem reconhecimento a altivez todo-poderosa que nos fez suportar a dor e reclamamos com violência um antídoto contra a altivez: procuramos tornar-nos estranhos a nós próprios, despersonalizar-nos, pois a dor nos tornou por muito tempo pessoais com violência. “Longe de nós essa altivez, exclamamos, ela era uma doença e uma crise forte demais!”. Olhamos novamente os homens e a natureza — com um olhar de desejo: lembramo-nos, sorrindo com tristeza, que temos agora a respeito deles certas idéias novas e diferentes daquelas de outrora, que um véu caiu. — Mas como nos reconforta rever as luzes temperadas da vida e sair desse dia terrivelmente cru, no qual, quando sofríamos, víamos as coisas e através das coisas. Não nos encolerizamos se a magia da saúde recomeça seu jogo — contemplamos esse espetáculo como se estivéssemos transformados, calmos e cansados ainda. Nesse estado não se pode ouvir música sem chorar.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
GANDHI E MANDELA: OS ADVOGADOS DE AHIMSA
Quando, ao estudarmos a História, aprendemos que a Ásia e a África são consideradas berços da civilização, ainda estamos longe de imaginar o que mais aqueles continentes teriam a oferecer para a raça humana além do desenvolvimento da própria espécie. Na história oficial, a Mesopotâmia (em grego, terra entre dois rios), recorrentemente citada no Velho Testamento, é apresentada como a região onde floresceram grandes civilizações, dentre as quais o povo hebreu; já o Mahabharata, poema épico hindu, trata sobre os povos arianos que viviam no reino dos Bharatas (possivelmente a Índia, da Idade do Ouro). Também a África, de uma forma geral, é apontada como a região onde teria surgido o Homo Sapiens (por volta de 300.000 anos atrás) e dali se espalhado por todo o planeta. Muita coisa se passou de lá até aqui, em ambos os continentes, porém, na história recente da civilização humana, os séculos 19 e 20 nos surpreenderam não com o aparecimento de uma nova espécie de hominídeo, mas com dois grandes exemplares da espécie humana: Mohandas K. Gandhi e Nelson Mandela, um indiano e o outro, sul-africano, respectivamente.
Se hoje a Índia é um país livre e a África do Sul é mais feliz, isso se deve ao ativismo político, à força de caráter e à determinação de dois dos maiores exemplares humanos dos últimos dois séculos – Mahatma Gandhi e Nelson Mandela. Curiosamente, ambos têm algo mais em comum, além dessas características acima citadas. A África do Sul, embora não sendo o país de origem de Gandhi, foi o local do despertar do espírito libertador, tanto dele quanto de Mandela, e ambos foram advogados – mais que meros advogados, verdadeiros promotores da não violência.
Durante 21 anos (de 1893 a 1914), o jovem advogado indiano, Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), incumbiu-se da difícil missão de defender uma causa civil que recebeu de uma companhia comercial de Porbandar – 150.000 indianos vivendo e trabalhando sob condições injustas na África do Sul. Ali, começaria a ser esboçado um “gigante”, que aprenderia a lidar com as injustiças humanas de forma messiânica e desenvolveria seus próprios métodos pacíficos de alcançar seus objetivos. O primeiro deles foi chamado de satyagraha que, “interpretado habitualmente como ‘resistência passiva’, significa literalmente, como explica o próprio Gandhi, insistência pela verdade”, e outro, ahimsa, que é a exata expressão e prática da não-violência.
Com seu carisma, Gandhi logo tornou-se um líder dos indianos na África do Sul; procurou atenuar os atritos que encontrou e promover a educação e a higiene, que eram precárias por lá. “Criou uma associação de cultura indiana e fundou o jornal Indian Opinion e, mais tarde, o Young India que, espelhando seu pensamento, divulgavam notícias e davam pistas para conduta dos indianos”.
Aqueles 21 anos na África do Sul não foram nada fáceis para o destemido advogado indiano, cuja fidelidade aos princípios muitas vezes levou a sofrer todo tipo de violência, prisões e ameaças de morte. Mas nada disso foi suficiente para dobrar seu espírito indomável. Tendo cumprido brilhantemente seu compromisso no continente africano junto aos seus compatriotas, regressou à Índia, em 1915, para um novo e mais terrível desafio, que só terminaria com a libertação da sua pátria do domínio britânico e, infelizmente, com sua morte, 33 anos mais tarde.
Engana-se, porém, quem pensa que aquele que seria respeitado como o pai da Índia livre sempre fora um homem conciliador e exemplar. Seu temperamento, quando mais jovem, era difícil; ele era de natureza violenta, egoísta, ambicioso e até, poder-se-ia dizer, cruel. A mudança radical só veio após ele próprio reconhecer esses desvios em seu caráter e realizar um esforço consciente de modificar-se. Aí então começou a surgir o “Mahatma” (a grande alma), como ficaria conhecido.
Nessa luta pela libertação da Índia, foi muitas vezes preso, agredido pelos soldados ingleses e pressionado por facções políticas e religiosas, hindus e mulçumanas. Por diversas vezes recorreu ao jejum extremo para abrandar os conflitos internos ou forçar a Coroa Britânica a fazer concessões em favor dos indianos. Chamava as cadeias inglesas de “os hotéis de Sua Majestade”. Em 1913, após conduzir uma marcha, com mais de 20 mil pessoas, Gandhi foi preso, mas solto em seguida, sob pagamento de fiança. Essa seria apenas a primeira vez de muitas outras. Em 1922, por exemplo, depois de uma manifestação de “desobediência pacífica”, foi condenado a 6 anos de prisão, mas, dois anos depois, teve que ser solto, para passar por uma cirurgia de apendicite. Sua esposa, Kasturbai Makanji, com a qual casara, conforme os costumes indianos, ainda aos treze anos de idade, muitas vezes foi presa junto com o marido, sempre fiel a seus ideais e a seus próprios valores indianos. Sua morte, em fevereiro de 1943, foi sem dúvida um dos piores golpes em sua vida, o que viria a agravar sua saúde já frágil.
A 15 de agosto de 1947 a Índia conquista sua liberdade, mas, para dsgosto de Gandhi, passa a ser dividida em dois países: Índia e Paquistão. Em 30 de janeiro do ano seguinte, ao sair para sua caminhada, acompanhado por aproximadamente 500 pessoas que com ele iriam orar, Gandhi é assassinado, aos 78 ano, por Nathuram Vinayak, um hindu fanático, insatisfeito com a convivência tolerada pelo Mahatma com os mulçumanos. Ao levar o tiro fatal, o Mahatma teria dito apenas “He Rama!” (Ó Deus!).
Não existe, na história real da Índia, um nome maior do que o de Mahatma Gandhi. Sua epopeia só é comparável aos clássicos da literatura mítica hindu, como Bhagavad-Gita, no qual se narra a batalha entre os Pandavas e os Kauravas e os ensinamentos de Krishna ao general e discípulo Arjuna, e o Ramayana, no qual se lê os esforços de Rama e seu fiel companheiro Hanuman para salvar sua esposa, Sita, das mãos do perverso demônio, Ravana. Mas Gandhi não foi um personagem da mitologia hindu; ele foi um personagem histórico, um homem real que, como bem enfatizou Albert Einstein, ao declarar-se a seu respeito logo após sua morte, “Talvez as gerações futuras dificilmente acreditarão que alguém como ele, em carne e osso, tenha caminhado, um dia, sobre a terra”. Na verdade, dizer que Mahatma Gandhi foi apenas um homem é quase uma blasfêmia, é um despropósito – Gandhi foi um fenômeno que ocorreu na Índia e arregalou os olhos do mundo; um evento cósmico, universal, tão inusitado em probabilidades humanas que deixa marcas indeléveis na história da humanidade.
Três anos após o retorno de Gandhi à Índia, nascia na África do Sul, na província de Cabo Leste, mais precisamente num pequeno vilarejo de nome Qunu, do clã dos Madiba (aquele que puxa para cima o ramo de uma árvore, em tradução livre), Rolihlahla Dalibhunga Mandela . “Nelson” só seria acrescentado ao seu nome de batismo, anos mais tarde quando, já na escola, uma professora, atendendo a um costume da escola, resolveu dar-lhe um nome inglês. Seja como for, no ano de 1918, não só para a alegria África do Sul, mas para o mundo inteiro, nascia Nelson Mandela, o líder sul-africano que ensinaria a todos outra grande lição de persistência, resistência e força de caráter, assim como fora a de Mahatma Gandhi.
Anos mais tarde, já na Universidade de Fort Hare, começa a surgir o embrião de um ativista político. Ali fez muitos amigos, com os quais formaria, mais tarde, o núcleo de comando do Congresso Nacional Africano. Também participou de várias manifestações, uma delas contra a baixa qualidade da comida, e mesmo tendo boicotado, junto com outros colegas, a eleição do conselho de estudantes, acabou eleito. Apesar disso, Mandela foi aconselhado a não assumir o cargo, embora o reitor tenha lhe impingido duas opções: assumir ou deixar a faculdade. A despeito desse contratempo, em 1943, Mandela ingressa no curso jurídico da Universidade de Witwatersrand, onde gradua-se. Desde o ano anterior ano, já freqüentava informalmente as reuniões do CNA. Em 1949, o governo sul-africano aprovou o regime segregacionista, denominado Apartheid. Em 1951, Mandela foi eleito presidente da Liga Juvenil do CNA (ANCYL, em inglês) e, no ano seguinte, presidente do CNA na província de Transvaal, passando à vice-presidência nacional da instituição. Embora em 1953, em Sophiatown, Mandela tenha proferido um discurso em que pela primeira vez diz que os tempos da resistência passiva tinham passado, sua trajetória de resistência demonstrou-se mais pacífica do que nunca. Mas isso não evitou que tivesse sofrido restrições e sua desobediência a elas culminasse em sua prisão, a 5 de dezembro de 1956, época em que, apesar de ainda morar junto com sua mulher, Evelyn, completamente avessa à política e agora testemunha de Jeová, já não viviam como casados.
Em breve, Mandela estaria em liberdade, enquanto aguardava seu julgamento por traição. Nessa ocasião foi que viu, pela primeira vez, Winifred Zanyiwe Madikizela parada num ponto de ônibus, em seu uniforme de enfermeira, que logo se tornaria sua esposa, ficando conhecida no mundo todo como Winnie Mandela. Esse casamento, porém, surgiu em tempos muito turbulentos. Em 8 de abril de 1960, o CNA foi proibido e Mandela fica preso até o ano seguinte, quando passa para a clandestinidade, sendo obrigado a ver a esposa em encontros furtivos, que precisavam ser planejados com a máxima segurança.
Embora o princípio da não-violência continuasse a nortear o CNA, eventos, com ataques mortais por parte do apartheid, levaram o Chefe Luthuli a autorizar que Mandela levasse a cabo a constituição de um movimento de resistência pelas armas. Mandela, então, chega a declarar: "Nós adotamos a atitude de não violência só até o ponto em que as condições o permitiram. Quando as condições foram contrárias, abandonamos imediatamente a não violência e usamos os métodos ditados pelas condições”. No início dos anos de 1960, Mandela viaja a muitos países, como Inglaterra, Libéria, Nigéria, Botsuana, Etiópia, Egito, Marrocos, em busca de conhecimentos sobre estratégias de guerra e de guerrilhas. Enquanto isso, na África do Sul, a polícia está de prontidão para capturá-lo, assim ouvir rumores de seu retorno ao país. E, em 5 de agosto de 1962, a prisão acontece. Inicialmente, a detenção seria por 5 anos, mas, após a polícia encontrar documentos comprometedores sobre ele, um novo julgamento com acusações mais graves, sendo condenado à prisão perpétua, em 11 de junho de 1964. Em sua defesa, fez o seguinte discurso: "Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer".
Mas Nelson Mandela, o Madiba querido dos sul-africanos não morreria ainda – não dessa vez! O prisioneiro 46664, que ocupou uma cela de 2,5 por 2,1 metros, na prisão da Ilha de Robben, seria “hóspede” de outras prisões da África do Sul. Em 1982, Mandela, juntamente com outros presos, foi transferido para a prisão de Pollsmor, de segurança máxima; seis anos depois, foi novamente transferido, agora para um presídio de segurança mínima - a prisão de Victor Verster, passando a morar numa cabana no complexo penitenciário. O certo é que Nelson Mandela passou 27 anos de sua vida atrás das grades, sendo liberto em definitivo somente em 11 de novembro de 1990. Na ocasião, uma multidão de sul-africanos o esperava na saída da prisão de Victor Verster (hoje chamada de Drakenstein) para saúda-lo como pai da nação negra sul-africana, embora para ele não houvesse diferença entre estes e os sul-africanos brancos, pois todos formavam a mesma e única nação, à qual ele sacrificara quase três décadas da sua vida para ver liberta da diferença e da segregação raciais. Sobre isso, ele havia declarado: "Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou da sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E, se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar”.
Dali em diante, dias melhores e ventos mais favoráveis acalentam a vida sofrida do líder sul-africano. Em 1993, recebe o Prêmio Nobel da Paz, juntamente com Frederik de Klerk, que intermediou o período de transição, que culminaria com a eleição de Mandela para a Presidência do país, no ano seguinte. Em seu discurso, ao receber o Nobel, assinalou: "O valor deste prêmio que dividimos será e deve ser medido pela alegre paz que triunfamos, porque a humanidade comum que une negros e brancos em uma só raça humana teria dito a cada um de nós que devemos viver como as crianças do paraíso". Também fez questão de prestar homenagem a Frederik de Klerk, dizendo que ele “teve a coragem de admitir que um terrível mal tinha sido feito para o nosso país e nosso povo com a imposição do sistema apartheid”.
O escritor sul-africano, André Brink, em artigo publicado logo depois que Mandela encerrou seu mandato, cita-o como o maior nome do século XX; comparando-o a outros expoentes, como Gandhi e Martin Luther King Jr. Curiosamente, um biógrafo de Gandhi não hesitara em escrever, anos antes: “Com o fenômeno Gandhi entrou a história da humanidade numa nova fase de evolução. O mundo não pode mais ser o mesmo depois de Gandhi. Temos agora novas perspectivas para nosso viver ético, cultural, e espiritual”. Então, ao que parece, a semente que fora lançada, anos atrás, ali mesmo, no solo sul-africano, por fim vingara – e como vingara! A pequena, porém vigorosa semente de ahimsa, fez brotar uma nova flor – Nelson Mandela. Então, que venham os novos frutos, as novas flores, enfim a Primavera inteira. A humanidade está sedenta, faminta, de “Humanidade”.
sábado, 28 de setembro de 2013
EM BUSCA DE UM NOVO PARADIGMA
ANÁLISE DO FILME “PONTO DE MUTAÇÃO”*
A ideia, ao longo de todo do livro “The Turning Point” (Ponto de Mutação) do Capra, que virou filme, é demonstrar a inviabilidade da fragmentação da realidade, feita tanto pela ciência quanto por outras vertentes do pensamento, da modernidade até nossos dias, diante do fracasso que esse modelo parece apresentar às questões humanas fundamentais, uma vez que ele se ocupa em cuidar, tratar, consertar a parte, sem levar em conta sua totalidade, vez por outra, confundindo-se com um mero paliativo para os nossos problemas cruciais, como meio ambiente, recursos naturais, saúde e outros.
É claro que, por um longo tempo, esse modelo cartesiano pareceu satisfatório, e ainda há situações em que ele parece ser útil. No entanto, o que Capra propõe é uma saída urgente da dependência desse paradigma, antes que, segundo ele, haja um colapso, uma situação que nos tire a possibilidade de avançar e até mesmo de viver, enquanto seres humanos, enquanto componentes da natureza. Essa visão é compartilhada por outros cientistas que, de certa forma, se sentem frustrados com os métodos científicos até aqui empregados, sendo que, no filme, esses cientistas, e o próprio Fritjof Capra, são representados por Sonia, a cientista que conduz as discussões.
Ora, é necessário, porém, dizer que toda a lógica tem por modus operandi fragmentar. É assim que ela se articula com maestria e seduz o pensador e o cientista, pela capacidade que a fragmentação tem de dar a ele segurança no que pensa e no que faz. Porém, essa segurança nem sempre, ou melhor, no mais das vezes, não é sinônimo de verdade. Ou seja, esse estado agradável que vem desse seguir passo a passo em direção a uma resposta aos problemas humanos, muitas vezes, resulta em algo paliativo, temporário em sua eficácia. Isso porque não se levou em conta o todo, como pertencente ou participante do problema.
É por essa razão que autor nos apresenta três vertentes, três representantes do pensamento e da sociedade: uma cientista, um político e um poeta. Curiosamente, é a cientista que questiona o velho paradigma, julga-o e propõe a mudança. Ora, evidentemente, essa cientista é, por assim dizer, o alter-ego do próprio Capra – aquele que viu que o pensamento e a ciência já não poderiam seguir como antes, considerando em pedaços, de forma fragmentada, negligenciando o todo, incapaz de uma visão holística. Importante também é perceber que Capra vai beber nas fontes orientais, como um contraponto ao pensamento ocidental. Seu livro é fortemente baseado no I Ching dos chineses. Como se vê, Capra não apresenta algo tão novo assim – é verdade que sua proposta de mudança de paradigma é de certa forma inusitada, mas, se é capaz de surpreender ou chocar os ocidentais, não deve causar o mesmo nos orientais, porque a estes isso já é, há muito, conhecido. Além disso, de certa forma, a ciência em si não é tão diferente assim lá e cá, e quando lá a ciência se apresenta diferente, na medicina chinesa ou indiana, por exemplo, quase não é considerada no Ocidente como um ciência de fato.
Bem, o que Capra propõe é um imenso desafio, porque, como já disse , a própria lógica trabalha com tijolinhos e não com estruturas completas e prontas – isso é seu fim, é o resultado do seu trabalho, não o processo para esse fim. Esse desafio é posto aos três personagens, como representantes de suas categorias, e cada um deverá responder, reagir a esse desafio, de modo peculiar. O mais importante na obra de Capra é a exigência que se impõe ali de se refletir sobre o que temos feito até com o nosso mundo, a partir desse olhar obsoleto que lançamos até aqui sobre ele, desconsiderando apenas o que é imediato. Portanto, observo que esse cientista, seja a personagem do filme, seja o próprio Capra, são, em última instância, o filósofo, uma vez que cabe ao filósofo propor um lançar-se adiante, mas não cabe a ele dar respostas.
A Filosofia é considerada a mãe de todas as ciências e o conhecimento humano, a meu ver, tem duas importantes alavancas – a curiosidade e a necessidade. A curiosidade pode até nos permitir o uso e mesmo o abuso do tempo, a necessidade, jamais.
CONSIDERAÇÕES PARA O DEBATE
- A lógica considera um fragmento, estuda-o e ocupa-se dele até apontar um novo fragmento do qual o estudo deve se ocupar;
- Um dos personagens lembra a “Dança de Shiva”, referindo-se ao movimento do Universo, porque Shiva é o arquétipo da mudança e a sua dança representa o constante estado instável das coisas no mundo;
-A fragmentação não deve ser confundida com o mergulho em si mesmo, porque esse “si mesmo” não é o ego, e sim o todo do ser;
- Sonia, a cientista, também representa o ermitão, o santo retirado do mundo. Ela se isola em sua sabedoria e já não sabe lidar nem mesmo com suas relações pessoais, sua filha, por exemplo. Sua introspecção é uma exigência, sua negação em ver seu trabalho sendo utilizado para fins militares a inoja, seu isolamento é necessário para a gestão do novo paradigma. Mas como fazer isso vivendo no mundo, atuando profissionalmente, levando em frente as relações pessoais e seus conflitos diários?
- Sentir o universo é um trabalho interior, diz um dos personagens;
- Não seguir o velho padrão é frustrante, pois nele você tem logo ali “algo”, sem ele, é complicado, você se sente minúsculo diante do todo; na lógica há segurança, há certezas quase palpáveis, que são “verdades” por um bom tempo;
- O acaso, a coincidência, apesar de serem considerados logicamente, como possibilidades, não são do âmbito da lógica – ela precisa de certezas, possibilidades prováveis;
- A Poesia transcende a lógica, escapa dela; a poesia, tomada racionalmente, até confunde; o poeta perde a identidade, esquece o próprio nome;
- Visão mecanicista é igual a pensamento cientificista; lógica é igual à razão; como sair dessa teia?
- Consertar uma parte não resolve o problema do todo – a Ciência vive uma “Crise de Percepção”;
- Tudo o que funciona é bom?
- A noção do Karma foi expressa em “A dor foi embora, mas a causa não, então a dor pode voltar”;
- O tempo que a lógica pode dar conta e a visão humana embasada nos padrões da lógica são parciais. Então, que tipo de tempo podemos ter acesso, de forma a perceber completamente o seu movimento, e que abordagem podemos ter dos desafios e das necessidades humanas, deixando o paradigma da fragmentação?
* Este artigo é resultante do debate ocorrido na aula de Mestrado em Saúde e Ambiente, ministrada pela Profª. Drª. Andrea Alac (UFMA), no qual participei, juntamente com o artista plástico Claudio Costa, como um dos debatedores.
A ideia, ao longo de todo do livro “The Turning Point” (Ponto de Mutação) do Capra, que virou filme, é demonstrar a inviabilidade da fragmentação da realidade, feita tanto pela ciência quanto por outras vertentes do pensamento, da modernidade até nossos dias, diante do fracasso que esse modelo parece apresentar às questões humanas fundamentais, uma vez que ele se ocupa em cuidar, tratar, consertar a parte, sem levar em conta sua totalidade, vez por outra, confundindo-se com um mero paliativo para os nossos problemas cruciais, como meio ambiente, recursos naturais, saúde e outros.
É claro que, por um longo tempo, esse modelo cartesiano pareceu satisfatório, e ainda há situações em que ele parece ser útil. No entanto, o que Capra propõe é uma saída urgente da dependência desse paradigma, antes que, segundo ele, haja um colapso, uma situação que nos tire a possibilidade de avançar e até mesmo de viver, enquanto seres humanos, enquanto componentes da natureza. Essa visão é compartilhada por outros cientistas que, de certa forma, se sentem frustrados com os métodos científicos até aqui empregados, sendo que, no filme, esses cientistas, e o próprio Fritjof Capra, são representados por Sonia, a cientista que conduz as discussões.
Ora, é necessário, porém, dizer que toda a lógica tem por modus operandi fragmentar. É assim que ela se articula com maestria e seduz o pensador e o cientista, pela capacidade que a fragmentação tem de dar a ele segurança no que pensa e no que faz. Porém, essa segurança nem sempre, ou melhor, no mais das vezes, não é sinônimo de verdade. Ou seja, esse estado agradável que vem desse seguir passo a passo em direção a uma resposta aos problemas humanos, muitas vezes, resulta em algo paliativo, temporário em sua eficácia. Isso porque não se levou em conta o todo, como pertencente ou participante do problema.
É por essa razão que autor nos apresenta três vertentes, três representantes do pensamento e da sociedade: uma cientista, um político e um poeta. Curiosamente, é a cientista que questiona o velho paradigma, julga-o e propõe a mudança. Ora, evidentemente, essa cientista é, por assim dizer, o alter-ego do próprio Capra – aquele que viu que o pensamento e a ciência já não poderiam seguir como antes, considerando em pedaços, de forma fragmentada, negligenciando o todo, incapaz de uma visão holística. Importante também é perceber que Capra vai beber nas fontes orientais, como um contraponto ao pensamento ocidental. Seu livro é fortemente baseado no I Ching dos chineses. Como se vê, Capra não apresenta algo tão novo assim – é verdade que sua proposta de mudança de paradigma é de certa forma inusitada, mas, se é capaz de surpreender ou chocar os ocidentais, não deve causar o mesmo nos orientais, porque a estes isso já é, há muito, conhecido. Além disso, de certa forma, a ciência em si não é tão diferente assim lá e cá, e quando lá a ciência se apresenta diferente, na medicina chinesa ou indiana, por exemplo, quase não é considerada no Ocidente como um ciência de fato.
Bem, o que Capra propõe é um imenso desafio, porque, como já disse , a própria lógica trabalha com tijolinhos e não com estruturas completas e prontas – isso é seu fim, é o resultado do seu trabalho, não o processo para esse fim. Esse desafio é posto aos três personagens, como representantes de suas categorias, e cada um deverá responder, reagir a esse desafio, de modo peculiar. O mais importante na obra de Capra é a exigência que se impõe ali de se refletir sobre o que temos feito até com o nosso mundo, a partir desse olhar obsoleto que lançamos até aqui sobre ele, desconsiderando apenas o que é imediato. Portanto, observo que esse cientista, seja a personagem do filme, seja o próprio Capra, são, em última instância, o filósofo, uma vez que cabe ao filósofo propor um lançar-se adiante, mas não cabe a ele dar respostas.
A Filosofia é considerada a mãe de todas as ciências e o conhecimento humano, a meu ver, tem duas importantes alavancas – a curiosidade e a necessidade. A curiosidade pode até nos permitir o uso e mesmo o abuso do tempo, a necessidade, jamais.
CONSIDERAÇÕES PARA O DEBATE
- A lógica considera um fragmento, estuda-o e ocupa-se dele até apontar um novo fragmento do qual o estudo deve se ocupar;
- Um dos personagens lembra a “Dança de Shiva”, referindo-se ao movimento do Universo, porque Shiva é o arquétipo da mudança e a sua dança representa o constante estado instável das coisas no mundo;
-A fragmentação não deve ser confundida com o mergulho em si mesmo, porque esse “si mesmo” não é o ego, e sim o todo do ser;
- Sonia, a cientista, também representa o ermitão, o santo retirado do mundo. Ela se isola em sua sabedoria e já não sabe lidar nem mesmo com suas relações pessoais, sua filha, por exemplo. Sua introspecção é uma exigência, sua negação em ver seu trabalho sendo utilizado para fins militares a inoja, seu isolamento é necessário para a gestão do novo paradigma. Mas como fazer isso vivendo no mundo, atuando profissionalmente, levando em frente as relações pessoais e seus conflitos diários?
- Sentir o universo é um trabalho interior, diz um dos personagens;
- Não seguir o velho padrão é frustrante, pois nele você tem logo ali “algo”, sem ele, é complicado, você se sente minúsculo diante do todo; na lógica há segurança, há certezas quase palpáveis, que são “verdades” por um bom tempo;
- O acaso, a coincidência, apesar de serem considerados logicamente, como possibilidades, não são do âmbito da lógica – ela precisa de certezas, possibilidades prováveis;
- A Poesia transcende a lógica, escapa dela; a poesia, tomada racionalmente, até confunde; o poeta perde a identidade, esquece o próprio nome;
- Visão mecanicista é igual a pensamento cientificista; lógica é igual à razão; como sair dessa teia?
- Consertar uma parte não resolve o problema do todo – a Ciência vive uma “Crise de Percepção”;
- Tudo o que funciona é bom?
- A noção do Karma foi expressa em “A dor foi embora, mas a causa não, então a dor pode voltar”;
- O tempo que a lógica pode dar conta e a visão humana embasada nos padrões da lógica são parciais. Então, que tipo de tempo podemos ter acesso, de forma a perceber completamente o seu movimento, e que abordagem podemos ter dos desafios e das necessidades humanas, deixando o paradigma da fragmentação?
* Este artigo é resultante do debate ocorrido na aula de Mestrado em Saúde e Ambiente, ministrada pela Profª. Drª. Andrea Alac (UFMA), no qual participei, juntamente com o artista plástico Claudio Costa, como um dos debatedores.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
BUDA, A JOIA RARA DO MUNDO
“Havia em Kapilavastu, um rei sákia, firme em seus propósitos e reverenciado pelos homens, um dos descendentes de Ikchvaku, chamado Suddhodana. Sua esposa, Mayadevi, era maravilhosamente bela, como um lírio aquático, e de coração tão puro como a lótus. Qual rainha do céu, vivia na terra, imaculada e pura de desejos. Seu real marido reverenciava-a por sua santidade, e o espírito de verdade desceu sobre ela.”
Não fossem os nomes incomuns, esse trecho, retirado do livro O Evangelho de Buda, seria facilmente confundido com a história natalina, que narra a concepção do menino Jesus e seus pais, José e Maria. Mas, como acabo de explicar, esse é o relato sobre os pais de Siddhartha Gautama, mais conhecido como o Buda (ou Sakyamuni, o sábio entre os sákyas). Por volta de 565 a.C, nascia em Lumbini*, hoje território ao sul do Nepal, o filho do rei Suddhodana, que renunciou a tudo para buscar a “iluminação” e trazer respostas ao mundo sobre a causa do sofrimento e de todas as misérias existenciais. Embora envolto por riquezas e protegido pelo pai de ter contato com doentes, velhos e pobres, “para não conhecer as misérias do mundo”, e, além disso, mais tarde se casar com a bela Yashodara, nada disso impediu que aquele menino, a quem se dizia “predestinado”, empreendesse uma viagem solitária até a floresta e lá, debaixo de uma árvore, se pusesse a meditar profundamente em busca das respostas que tanto desejava.
Siddhartha foi contemporâneo do sábio grego Sócrates e sábio chinês Confúcio, mas Jesus, ao que se sabe, só nasceria uns cinco séculos depois deles. Termos como compaixão, piedade e humildade, que parecem tão próprios do cristianismo, já eram usados e praticados bem antes do Cristo. Naqueles tempos, por toda aquela região circundante do Himalaia, o que havia era o Brahmanismo. Siddhartha, depois de desperto e até mesmo antes de alcançar a iluminação, já questionava os rituais bramânicos e adoração aos deuses.
“O Tathágata foi depois ver os sacerdotes que oficiavam nos templos, e seu ser compassivo estremeceu ao presenciar a inútil crueldade realizada ante os altares dos deuses.
– Unicamente por ignorância esses homens realizam ruidosas festas e convocam magnas assembleias para celebrar cruentos sacrifícios. Vale mais adorar a Verdade do que o vão desejo de agradar os deuses com efusão de sangue”; e acrescentou: “Os ritos são ineficazes; as orações são fórmulas vãmente repetidas; os feitiços carecem de virtude salutífera.”
Antes, ele já teria dito: “Será que os deuses também estão precisando de auxílio? São tão fracos que não podem salvar os que com tristeza nos lábios os invocam?”
Somente um estudo criterioso sobre este tema, o budismo e o buda, poderá trazer à luz uma verdade há muito ofuscada pela força da tradição religiosa e popular – a de que, de forma nenhuma, o Buda renegaria e repudiaria o Bramanismo ou Vaishnavismo, para criar outro “ismo”. Somente aos sacerdotes, que se dizem herdeiros dos ensinamentos do Buda, interessa criar um rol de liturgias e ritos, para assim manter um séqüito de praticantes fiéis a um credo e não à Verdade, como se pode comprovar no que vem em seguida:
“Buda, homem santo completamente iluminado, continuou mantendo os pontos positivos da cultura existente e expurgando suas deficiências. Ele, que em resposta ao fanatismo ensinava a maravilha do espírito humano, reagiu com todas as suas forças contra o pensamento de que a humanidade era dividida em classes por natureza e como um médico, tendo reconhecido a doença, prescreveu o remédio e a sua posologia.
Buda com seus ensinamentos causou um grande reboliço pois rejeitava as seitas que continham instruções incorretas, preocupava-se com a igualdade humana, propagava princípios altamente humanísticos numa sociedade de castas, preocupava-se em desenvolver o pensamento e afastar as doutrinas enganadoras, bem como acabar com os complicados rituais. Além disso, pregava o amor, a compaixão e a simplicidade como caminho da purificação”, diz o monge budista Zen Getúlio Taigen.
Os homens comuns, sim, têm necessidade de fundar “ismos”, dedicar-se forçosamente a certas práticas, por mais insanas e dolorosas que sejam, no vã afã de domar seus instintos ou, como dizem, dominar a carne em nome do espírito. Tolos que são, pois nada disso foi ensinado pelo “Iluminado” e mesmo as suas prováveis reencarnações jamais perpetuariam tais tradições, uma vez que, sendo ainda ele mesmo, o mesmo Buda, seria um absurdo que desse apoio ao que outrora repudiara.
“O início do budismo está ligado ao hinduísmo, religião na qual Buda é considerado a encarnação ou avatar de Vishnu. Esta religião teve seu crescimento interrompido na Índia a partir do século VII, com o avanço do islamismo e com a formação do grande império árabe. Mesmo assim, os ensinamentos cresceram e se espalharam pela Ásia. Em cada cultura foi adaptado, ganhando características próprias em cada região.”
Ao longo dos séculos, o budismo se diversificou em muitas formas, mas existem pelo menos duas que vingaram ou são mais conhecidas nos dias atuais: o da Escola Theravada e o da Mahayana. "A primeira grande divisão dos praticantes budistas na Índia aconteceu cerca de 100 anos depois da morte de Buda (entre 500 e 400 A.C.), quando houve divergências sobre a doutrina".
“Foi no século VIII que o rei do Tibete convidou o grande mestre indiano Padmasambhava a ir ao Tibete ensinar o budismo. Na altura, o Tibete era povoado de seres rudes que possuíam como religião uma forma de xamanismo chamada Bön. [...] o Budismo adaptou-se à mentalidade e moldou-se aos costumes dos tibetanos. Ganhou raízes e properou através dos séculos até pouco tempo, quando nos anos cinquenta o Tibete foi invadido pelos chineses.”
Como bem está escrito num site, “com ar de cinema”, estreia hoje, no horário das 18h, a novela Joia Rara, de Thelma Guedes e Duca Rachid, inspirada na filosofia budista e ambientada no período que sucede a segunda Guerra Mundial – entre 1934 e 1945. "A base da novela é uma história de amor totalmente shakespeariana. A reencarnação de um monge é fruto dessa paixão, que vive em meio aos primeiros ecos da guerra e à boêmia da época", detalhou Duca. Em meio a uma trama de amor, ódio, intrigas e vinganças, a novela vai trazer também a cultura e a filosofia budistas e reforçar, de certa forma, o que até hoje é apregoado, do Oriente ao Ocidente – que Siddhartha Gautama, o Buda, teria fundado uma religião – o budismo, com seus rituais e suas preces –, quando ele, na verdade, repudiara tais práticas em seu tempo e apenas recomendara, aos que sentaram-se ao seu redor para ouvir, a busca da Verdade, com sinceridade e destemor.
Evidentemente que a emissora, através da produção da novela, procurou se respaldar ao máximo do que é vigente, apesar de errôneo, a respeito do budismo. No entanto, fica aqui a ressalva de que com isso a Globo apenas propaga e perpetua um erro.
Para encerra este artigo, gostaria de lembrar que aqui não se trata apenas de mero ponto-de-vista meu, pois o objetivo maior deste texto é trazer à luz as conquistas dos Avatares (como Krishna, Buda e Cristoo, por exemplo) e as distorções surgidas a partir dos seus ensinamentos, que em breve se tornam religiões, fazendo deturpar todo o esforço empreendido pelos "Iluminados". Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça!
“Buda não é Deus segundo a concepção do Budismo. Buda significa “aquele que despertou de um sono profundo”. Buda é um estado de Ser. Todos nós somos Buda, apenas estamos adormecidos deste estado." (Nello Júnior)
“Estudar o Caminho de Buda é estudar a si mesmo.Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo.
Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo o que existe. Transcender corpo e mente seus e dos outros. Nenhum traço de iluminação permanece e a iluminação é colocada a disposição de todos os seres.” - Mestre Zen Eihei Dogen (1200-1253)
*Lumbini, palavra sânscrita, que significa “a adorável”, é um dos quatro lugares sagrados de peregrinação budista. Está localizado no Nepal, no sopé dos Himalayas , a 25 km a leste da cidade nepalesa de Kapilavastu, distrito Rupandehi, perto da fronteira indiana.
Fontes de Referências:
O Evangelho de Buda, de Yogi Kharishnanda, Ed. Pensamento;
http://www.suapesquisa.com/budismo/
http://bemzen.uol.com.br/noticias/ver/2012/06/30/870-budismo-o-surgimento
http://diversao.terra.com.br/tv/novelas/com-ar-de-cinema-joia-rara-estreia-nesta-segunda-veja-quem-e-quem,6aebb01d5bd11410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html,
http://blog.opovo.com.br/yoga/227/
domingo, 8 de setembro de 2013
CARAS-PINTADAS, MASCARADOS E DESCARADOS
De repente, o “gigante” acordou. E fez muito barulho, pois sua energia veio da força jovem, de adolescentes, jovens e adultos que represaram durante anos sua repulsa, sua indignação e revolta com a corrupção política, o descompromisso dos políticos com seus eleitores e, em primeiro plano, o aumento na tarifa do transporte público. As ruas inflamaram, literalmente, e as praças viraram locais de uma manifestação incontrolável, uma vez que, infiltrados entre os manifestantes “sangue bom”, estavam ali aqueles que só tinham por objetivo causar o caos nas cidades, com atos de vandalismo, que em nada favorecem a legalidade dos movimentos e só ofuscam o brilho e a força das reivindicações,e que, portanto, não podem ser apoiados, de forma alguma, por qualquer de nós que saiba o real valor do direito democrático de se manifestar.
Policiais e políticos tiveram de encarar essa força jovem. Uns, utilizando recursos legais ou truculentos, como bombas de efeito moral e spray de pimenta, indiscriminada e injustificavelmente; os outros, tentando viabilizar projetos que “agradassem” o povo e sugerindo plebiscitos, como respostas desesperadas ao que não conseguiam conter. O certo é que de junho para cá tem havido uma série de conflitos entre manifestantes e policiais, provocando assim novas medidas, como a atual proibição das pessoas se manifestarem com o rosto coberto por máscaras ou por outro qualquer artifício que prejudique a sua identificação, no imediato momento de sua atuação ou, posteriormente, através das imagens captadas por câmeras de rua ou de emissoras de tv.
As autoridades, por todo o país, respaldando-se (dizem) numa interpretação errônea da nossa Constituição (inciso IV do artigo 5º, onde lê-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o seu anonimato”), desde então, deliberaram que a polícia teria o poder de exigir a retirada da máscara (ou, como já disse, qualquer outro artefato), sob pena de prender tal manifestante que se recusasse a fazê-lo. A emenda foi pior do que o soneto, evidentemente! A partir daí, os desentendimentos entre manifestantes e policiais se agravaram e a violência nas ruas ganhou ainda maiores proporções, como se pode ver neste 7 de setembro.
Voltando um pouco no passado, gostaria de lembrar aqui dos “caras-pintadas”, que se manifestaram fortemente contra o Governo Collor de Mello e contribuíram para o seu impeachment, em 1992. Naquela ocasião, sair às ruas de rosto pintado foi considerado um ato de patriotismo, hoje, ir para a rua de rosto coberto é considerado “crime” pelos governantes do país. Será que é assim somente porque desta vez a força juvenil, sua indumentária de luta e os motivos são exatamente contra eles? O fato é que os manifestantes não se dobraram a essas deliberações autoritárias do poder político. Muito pelo contrário, fizeram dessa truculência e desse desmando político a força motriz para saírem novamente, e com mais razão, às ruas.
Enfim, nosso grande problema, ao meu ver e a História passada, atual e futura se encarregará de comprovar, não são os jovens caras-pintadas ou mascarados, uma vez que estes nada mais fizeram e estão fazendo do que se manifestar democraticamente contra uma realidade sociopolítica insuportável e insustentável, mas sim “os descarados” – os políticos das várias esferas dos poderes executivo e legislativo deste país -, que insistem em querer deixar o povo brasileiro com “cara-de-palhaço”.
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