quinta-feira, 21 de março de 2013

POEMAS QUE NIETZSCHE JAMAIS ESCREVEU (I)

OS QUE SABEM...*


Os que sabem por que nasceram
Não aceitam que digam por que estão neste mundo;
Os que sabem por que vivem
Não toleram que lhes digam como devem viver.

Os que sabem o que dizem
Não esperam que lhes ponham palavras na boca;
Os que sabem por que gritam
Não pedem que lhes façam silêncio.

Os que sabem donde vieram
Não perguntam pelo caminho de casa;
Os que sabem o que encontrar
Não procuram pelo que perderam.

Os que sabem a hora de partir
Não carregam relógios com ponteiros;
Os que chegam na hora marcada
Não se perturbam com o tempo perdido.

Os que sabem o que fazem
Não querem que lhes digam o que fazer;
Os que sabem suas próprias tarefas
Não tentam cumprir as obrigações de outrem.

Os que sabem ver o sol do meio-dia
Não se incomodam com a cegueira dos tolos;
Os que sabem da escuridão da meia-noite
Não precisam de luzes no fim do túnel.

Os que sabem contar estrelas cadentes
Não perdem seu tempo olhando vagalumes;
Os que sabem sonhar acordado
Não esperam que o sono lhes roube os sentidos.

Os que sabem escrever profecias
Não se ocupam em fazer previsões do tempo;
Os que sabem medir quadrantes celestes
Não carregam consigo régua ou compasso.

Os que sabem onde habita o Deus dos corações
Não se deslumbram ao ver os tronos dos reis;
Os que sabem como surgem e desaparecem impérios
Não se admiram com templos feitos de pedras.

Os que sabem voar imensidões sem fim
Não sentem vertigem à beira de penhascos.
Os que sabem criar ouro e marfim
Não desdenham dos que trazem coroas de espinhos.

Os que sabem onde fica o Esconderijo do Altíssimo
Não repreende os que se escondem em escuras cavernas;
Os que sabem dos obstáculos e grilhões do mundo
Não se perdem em labirintos feitos de vidro.

Os que sabem por onde a água acha seu caminho
Não pedem ao solo que desfaça suas frestas.
Os que sabem que o fogo é mais que um brilho
Não acendem fogueiras em meio a florestas.

Os que sabem caminhar sobre o mar bravio
Não precisam de barcos para sua travessia;
Os que sabem ouvir as palavras das conchas
Não esperam que o vento lhes sussurre ao ouvido.

Os que sabem andar sobre areias escaldantes
Não se importam com o sol de um deserto infindo;
Os que sabem acalmar tempestades gigantes
Não imploram que a brisa já esteja vindo.

Os que sabem ler as palavras malditas
Não escrevem em tábuas de doze iletrados;
Os que sabem correr por terras infinitas
Não deixam de ter o Universo em seus passos.

Os que sabem compreender a Vida
Não temem as aflições da Morte,
Pois mesmo os eternos não são imortais.

*Parte integrante do livro "Poemas que Nietzsche jamais escreveu - Filosofia Poética"
*Proibida a reprodução total ou parcial deste poema, sem a devida autorização por parte do seu autor.

POEMAS QUE NIETZSCHE JAMAIS ESCREVEU (II)

QUEM NÃO PODE MAIS VOAR*


Quem não pode mais voar
Aprende a fazer seu caminho,
Sozinho;
Quem não pode mais voar
Contorna o leito desse rio,
Tranquilo.

Quem não pode mais voar
Acende seu olhar, no escuro,
No tempo;
Aprendendo a caminhar
Mais leve do que o pensamento.

Eu, que caminhei,
Rolei as pedras
Que encontrei pelo caminho;
Chutei as latas, as garrafas,
Os espinhos;
Parei para descansar
Na sombra que encontrei.

Eu, que caminhei,
Virei esquinas,
Não temi encruzilhadas.
Ó minha mãe,
Teu santo nome, minha espada.
À luz do sol,
À meia-luz, eu caminhei...

Quem não pode mais voar
Aprende a calejar o chão
Com os sapatos;
Quem não pode mais voar
Não sonha com lugares altos
Descalço.

Quem não pode mais voar
Aprende a caminhar com pernas
Ligeiras;
E, aprendendo a caminhar,
Descansa dessa vida
Inteira.

Eu, que já voei,
Por céus e terras nunca antes
Voejados;
Por sobre mares nunca antes
Navegados.
No horizonte, o teu olhar
Me possa ver...

Eu que já voei
Nos pontos cardeais gritei
Aos sete ventos;
Ouvi um deus gemer
De tanto sofrimento.
À luz do sol,
À meia luz, também voei...

* Parte integrante do livro "Poemas que Nietzsche jamais escreveu - Filosofia Poética".
* Proibida a reprodução total ou parcial deste poemas, sem a devida autorização do seu autor (direitos reservados Copyright)

quarta-feira, 13 de março de 2013

CIÊNCIA, FILOSOFIA, RELIGIÃO E AUTO-CONHECIMENTO (Parte I)



As fronteiras do conhecimento estão cada vez mais se estreitando e fazendo, de certa forma, com que a Ciência e a Religião tendam para um mesmo ponto, embora ainda haja resistências por parte de alguns cientistas mais tradicionais e religiosos mais radicais. No entanto, essa espécie de obstáculo ao novo tem seu lado bom, pois evita um “boom” de euforia que, muito provavelmente, prejudicaria a boa avaliação dessas tendências e seus resultados. Podemos destacar alguns expoentes disso tudo, na Filosofia, com Arthur Schopenhauer(1), que foi beber nas fontes budista e hinduísta para escrever sua obra-prima “O Mundo como Vontade e Representação”; na Física, com Fritjof Capra(2) e o seu “O Tao da Física”; na Mecânica Quântica, com William Arntz(3), Betsy Chasse(4) e Mark Vicente(5) e seu ousado filme (que virou o livro) “Quem somos nós?”; na Medicina, o doutor Deepak Chopra(6) e seus inúmeros livros, que mostram sua prática médica recheada de elementos da Medicina Ayurvédica; na Religião, com Allan Kardec(7) (Espiritismo) e Swami Rama(8) (Hinduísmo), além do professor de auto-sugestão mental, Arthur Riedel(9), entre outros.

A leitura que tenho feito, ultimamente, nesse sentido, isto é, os artigos e obras aos quais tenho me dedicado, despertou em mim o desejo de escrever aqui uma série de textos, nos quais procurarei mostrar aos meus leitores como a Ciência vem (e não é de hoje) demonstrando maior interesse pelos textos antigos, de tradições orientais, por ter feito descobertas no campo da Física, por exemplo, que vão ao encontro do que há muito fora expresso naqueles compêndios ditos religiosos.

Abaixo, transcrevo um artigo muito interessante, que abre esta nova seção neste blog. Boa leitura a todos!

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O QUE, AFINAL, É A REALIDADE?*

O grande esforço do homem tem sido, no curso da história, o de procurar compreender a realidade, revelar o real. Como a realidade pode ser conhecida. Aristóteles e, muito mais tarde, Locke, proclamara que todo conhecimento era proveniente dos sentidos; os sentidos e os aparelhos que os ampliam seriam os instrumentos do conhecimento. Essa visão do senso comum vem sendo contrariada desde o início do século pela Física, que nos tem mostrado, de modo contínuo, uma realidade bem distinta: aos poucos, os denominados corpos simples foram reduzidos a partículas idênticas; estas foram sendo reduzidas a outras ainda mais elementares, enquanto, por suas vez, as mais diferentes radiações foram sendo reconhecidas como expressões de ondas, distintas apenas no comprimento e em sua freqüência. Mais ainda, energia e matéria foram unidas pela teoria da relatividade restrita, enquanto o espaço e o tempo vieram a formar um continuum na visão da teoria da relatividade geral. Matéria e energia, espaço e tempo, e gravitação tornaram-se apenas deformidades do continuum. A própria matéria do mundo, no dizer de Arthur Eddinton(10), não seria senão matéria da mente. Todos os processos físicos, as mudanças existentes no universo, resultam da intermediação de quatro forças elementares – a força nuclear forte, a força nuclear fraca, a força eletromagnética e a força gravitacional.

Isso tudo nos permite reconhecer que aquilo que vemos e julgamos ser a realidade não é senão uma aparência, sem dúvida dependente da mente do observador e da estrutura física dos sentidos a aparelhos com que observa o mundo. De qualquer modo, são estas as únicas “realidades” ou conexões de acontecimentos capazes de serem percebidos? Peat(11) e Bohm(12), em Ciência, Ordem e Criatividade (1987), destacam que toda a percepção sensória depende da disposição total da mente e do corpo, disposição esta que depende da cultura geral e da estrutura social, fatores que também condicionam a percepção através da mente.

De que modo foi possível conceber este universo? Possui ele alguma realidade ou é a realidade? As religiões que se apossaram da revelação passaram a expressá-la através de mitos e dogmas, porém são apenas formas de expressão. No fundo, percebemos que uns e outros procedem de experiências pessoais diretas que foram cristalizadas pelo sacerdócio na forma de princípios, tornando-se artigos de fé. Este universo realmente existe? E, se existe, é possível redescobri-lo. Se se pretende experimentar, é necessário conhecer que instrumento deve ser utilizado para a investigação.


(1)Arthur Schopenhauer (Danzig, 22 de fevereiro de 1788 — Frankfurt, 21 de setembro de 1860) - filósofo alemão do século XIX;
(2)Fritjof Capra - físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica;
(3)William Arntz - diretor e produtor de cinema americano;
(4)Betsy Chasse - cineasta internacionalmente conhecida, autora e palestrante;
(5)Mark Vincente - palestrante, autor, e diretor premiado;
(6)Deepak Chopra - médico indiano radicado nos Estados Unidos, formado em medicina pela Universidade de Nova Deli. É também escritor e professor de Ayurveda, espiritualidade e medicina corpo–mente;
(7)Allan Kardec - pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail (Lyon, 3 de outubro de 1804 — Paris, 31 de março de 1869), educador, escritor e tradutor francês, notabilizou-se como o codificador do espiritismo (neologismo por ele criado), também denominado de Doutrina Espírita;
(8)Swami Rama - (1925-1996) era um índio yogi, conhecido por ser um dos primeiros iogues a permitir que cientistas ocidentais, da Clínica Menninger, ainda na década de 1960, estudassem a sua capacidade de controlar voluntariamente os processos corporais (tais como batimentos cardíacos, pressão arterial e temperatura corporal), que normalmente são considerados não-voluntários;
(9)Arthur Riedel - professor de otimismo, autor do livro “Hei de Vencer”, uma filosofia de vida prática, baseada na auto-ajuda mental e no desenvolvimento da vontade;
(10)Arthur Eddinton (Kendal, 28 de dezembro de 1882 — Cambridge, 22 de novembro de 1944) - astrofísico britânico do início do século XX;
(11)F. David Peat - físico holístico, realizou pesquisa em física do estado sólido e participou da fundação da teoria quântica;
(12)David Bohm (1917-1992) – físico que influenciou significativamente a cultura do nosso século.

*Adaptado de “Mediunidade e Autoconhecimento”, revista Luz do Espiritismo (autor não mencionado)

terça-feira, 19 de junho de 2012

DA ANTIGUIDADE GREGA À ATUAL POLÍTICA BRASILEIRA

O texto que transcrevo na íntegra aqui é de autoria do jornalista João Mellão Neto, escrito a convite do Instituto Millenium. Transcrevo-o por tratar-se de um artigo de "primeiríssima qualidade", de teor filosófico, que ao mesmo tempo em que resgata personagens e eventos da História, contextualiza-os com o deplorável estado da política brasileira, unindo-os por um mesmo fio - a húbris*. Em suma, um texto útil e instrutivo, inteligente e inspirador, que, certamente, acrescentará aos leitores deste blog, amigos e alunos, informação e deleite. Boa leitura!


HÚBRIS
João Mellão Neto

Na Grécia da antiguidade, era o sentimento de extrema autoconfiança que acometia os heróis após a realização de seus feitos. Não raramente, eles passavam a se sentir invencíveis, chegando até a desafiar as próprias divindades que lhes haviam concedido a glória. Os deuses gregos não admitiam tal afronta. Havia um senso da “exata medida de todas as coisas”, e não era lícito ao homem desafiar essa ordem. A alguns os deuses davam mais, a outros, menos. E cada um deveria contentar-se com aquilo que lhe era concedido.

Júlio César, alguns séculos mais tarde, introduziu nesse conceito a questão do mérito. Para ele não havia limites à ousadia humana. Os deuses sempre abençoariam os seus pupilos, desde que estes se mostrassem merecedores de tal graça. Já na época de César, como contrabalanço ao excesso de soberba, os romanos instituíram um ritual cuja finalidade era trazer os seus generais de volta à realidade. Após seus triunfos, nos campos de batalha, eles deixavam suas tropas no Campo de Marte e seguiam, sob ovação geral, até as escadarias do Senado. Em sua companhia – na biga – seguia um sacerdote constantemente a repetir: “Memento mori” (lembra-te de que és mortal).

Avancemos dois milênios na História e encontraremos nas palavras de Napoleão Bonaparte uma visão mais fatalista desse desígnio: “Enquanto eu for útil aos deuses, não haverá força no mundo capaz de me vencer. Mas bastará que eu deixe de sê-lo que até mesmo uma mosca me derrubará”.

Napoleão fora acometido pela húbris e terminou melancolicamente os seus dias, isolado na Ilha de Santa Helena. Júlio César não teria melhor sorte: foi brutalmente esfaqueado às portas do Senado romano. Seus assassinos receavam que ele viesse a tomar para si o poder absoluto e tornar-se rei. O temor era tão grande que até mesmo discípulos seus participaram da carnificina.

A húbris, por si só, já era um instrumento de loucura. Quem sofria os seus efeitos era tomado por uma sede insaciável de glória e reconhecimento. Como bem lembrou Bertrand Russell: Napoleão invejava Carlos Magno. Carlos Magno, por sua vez, invejava Júlio César. Este invejava Alexandre, que invejava Hércules, que nunca existiu. Alertavam os persas de que nem todo o ouro, nem toda a glória, nem todo o poder do mundo são suficientes para saciar a cobiça de um único homem. Há que se compreender e se conformar com isso.

Não foi fácil construir a nossa liberdade. Ninguém tem o direito de atentar contra ela.

Pois bem! Estamos aqui a nos deleitar com história e filosofia, e não nos apercebemos de que há, entre nós, um homem que, enlouquecido pela húbris, pretende implodir as nossas instituições. Ele já investiu contra as prerrogativas do Poder Judiciário, incentiva movimentos contra a liberdade de expressão, trata o Poder Legislativo com desdém e vem dando sinais de que pretende novamente se eleger presidente da República. Ele atende pelo nome de Lula.

Ninguém entende as razões de sua implicância com a ordem democrática, uma vez que foi a própria democracia que permitiu que ele alçasse voos tão altos. Ele foi de torneiro mecânico a presidente da República graças a ela. Mérito ele demonstrou, sem dúvida.

Mas isso não faz dele alguém acima das instituições. Não foi fácil construir a nossa liberdade. Ninguém tem o direito de atentar contra ela.

Há quem veja em Lula alguns traços de caudilhismo. E não é difícil imaginá-lo trajando sombreiro e poncho a arengar as massas. Nos oito anos em que ocupou o poder, ele deu repetidas demonstrações de sua fixação em líderes carismáticos. Incensou os irmãos Castro, flertou com Evo Morales, genuflexou-se perante Hugo Chávez e persignou-se à frente de inúmeros ditadores africanos. Isso tudo sem contar a vergonhosa atitude de apoiar o ditador do Irã e o episódio de Honduras, em que o Brasil, por orientação de Chávez, custeou sozinho a sobrevida de Manuel Zelaya.

Com exceção deste último, todos os demais “caudillos” permanecem no poder, o que faz Lula se perguntar por que só ele se dispôs a entregar a faixa presidencial e voltar para São Bernardo.

Por trás de Lula existe o PT – o Partido dos Trabalhadores -, e talvez seja esse o seu “calcanhar de Aquiles”.

O substrato ideológico do partido é de origem marxista, e aos seguidores dessa seita não basta alcançar o poder e exercê-lo com excelência. É preciso, também, eliminar os adversários, estabelecer uma verdade única e emudecer aqueles que dela discordam. O conflito entre essa visão de mundo e a democracia é, portanto, inevitável.

Para o bem ou para o mal, é com essa qualidade de mão de obra que Lula conta. E, de quando em quando, é preciso tratá-la com carinho.

Criar uma elite ideologicamente confiável e minimamente capacitada é o sonho de consumo de qualquer ditador. Mussolini pretendeu criá-la permitindo o acesso ao nível superior de ensino unicamente aos jovens identificados com a sua causa.

Aqui, nestas plagas, Getúlio Vargas e o movimento militar de tudo fizeram para que os postos de confiança na administração pública fossem ocupados exclusivamente pelos seus simpatizantes.

O problema de Lula é que a húbris já o está a contagiar. E aqueles acometidos por ela costumam deixar de lado prudência, passam a subestimar os seus adversários e perder a noção do perigo.

O recente episódio de abordagem imprópria e insinuação de chantagem de um ministro do Supremo Tribunal Federal é emblemático. Lula não bebe mais somente aquele líquido refugado pelos pássaros. Ele agora ingere também a húbris. E a dependência, aí, é muito pior.

*A húbris ou hybris (em grego ὕϐρις, "hýbris") é um conceito grego que pode ser traduzido como "tudo que passa da medida; descomedimento" e que atualmente alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou insolência (originalmente contra os deuses), que com frequência termina sendo punida. Na Antiga Grécia, aludia a um desprezo temerário pelo espaço pessoal alheio, unido à falta de controlo sobre os próprios impulsos, sendo um sentimento violento inspirado pelas paixões exageradas, consideradas doenças pelo seu caráter irracional e desequilibrado, e concretamente por Até (a fúria ou o orgulho). Opõe-se à sofrósina, a virtude da prudência, do bom senso e do comedimento. (Fonte: Wikipédia)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

KANT: IMPERATIVO E CATEGÓRICO

IMMANUEL KANT, UM DIVISOR DE ÁGUAS



A Filosofia tem pelo menos dois pensadores reconhecidos como "divisores de água": Sócrates e Kant. Enquanto o primeiro mudou o olhar empreendido pelos pensadores anteriores (por isso chamados de pré-socráticos), Kant traçou os limites do conhecimento humano, no período em que a crença na "Razão" propalava a ideia de que o homem tudo podia conhecer
Por: Jaya Hari Das*

Dizem que as crianças, assim que começam a falar, fazem perguntas "filosóficas", do tipo que iniciam sempre com "como" ou "por quE". Assim sendo, não seria descabida a comparação da "infância" com o período do nascimento da Filosofia entre os gregos, uma vez que aqueles antigos pensadores começaram também a indagar sobre o Universo perguntando-se "Como o Cosmos foi formado?" ou "Por que os seres nascem e morrem?", por exemplo. Antes disso, houve todo um período mitológico, no qual narrativas simplórias preenchiam a curiosidade e o imaginário das pessoas, tal qual os vários contos de fada, construídos em um mundo de fantasias, são contados até hoje às crianças, visando simplesmente aplacar seus medos ou adverti-las de certos perigos.

A humanidade pode parecer a mesma para alguns; os filhos podem parecer sempre pequenos para seus pais, mas, na verdade, algo muda inexoravelmente. Com o passar do tempo, todos começam a fazer perguntas diferentes. E isso é um bom sinal de que eles estão crescendo. As perguntas são mais incisivas e as respostas, portanto, precisam ser mais conclusivas. Sócrates, por exemplo, mudou, ainda na Antiga Grécia, o rumo das indagações de seus compatriotas, inaugurando com isso um novo momento na história da filosofia. Mas ele não seria o único, pois, apesar de, durante vários séculos, os homens deverem a ele tudo o que se construiu em termos de conhecimento do próprio homem, o tempo, senhor de todas as transformações, não deixaria tudo tão indelével assim. Bem que Platão e Aristóteles tentaram, e até foram bem-sucedidos por muitos e muitos anos!

O obscurantismo da Idade Média cobriu a humanidade sob nuvens tão escuras que os homens mal puderam se dar conta do trabalho lento e silencioso que o tempo andava fazendo em suas mentes juvenis. Como todo a adolescente, o homem medieval estava para eclodir não com espinhas, mas com espadas, que fariam estourar revoltas e revoluções por toda a Europa, em breve. Em breve, também, homens como Francis Bacon, Voltaire e Rousseau surgiriam, trazendo luzes, para afastar de uma vez por todas as trevas medievais. E a Filosofia, que ainda não havia despertado completamente do "sono dogmático" de uma obscura noite de dez longos séculos que lhe fora imposta, vai despertar de vez sob os auspícios de um filósofo que sabia muito bem viver uma vida sob as simples badaladas do seu relógio. Esse filósofo chamava-se Immanuel Kant.

Nascido em Königsberg (atual Kaliningrado), na antiga Prússia, em 1724, Emanuel Kant (que depois mudaria seu nome de batismo para Immanuel), foi o quarto de nove filhos do casal Johann Georg Kant, um artesão, e Anna Regina Reuter, uma religiosa pietista praticante. A mãe foi tão marcante na vida do filósofo que ele, como uma espécie de reação a tanto rigor religioso, manteve-se afastado da Igreja assim que cresceu, apesar de ter o ar inconfundível de um puritano alemão. Estudou no Collegium Fredericianum até entrar para a Universidade de Königsberg, aos 16 anos. Foi lá que se deparou com a filosofia de Leibniz e de Isaac Newton duas de suas grandes influências, mais tarde trocaria correspondências com Voltaire (outra grande influência). Com a morte de seu pai, seis anos após ingressar na universidade, precisou lecionar como tutor, o que o fez interromper seus estudos, mas não evitou que os concluísse com sucesso. Sua dissertação de mestrado, em 1755, intitulou-se "Novo Esclarecimento Acerca dos Primeiros Princípios Metafísicos ou simplesmente Nova Dilucidatio (título em latim). Em seguida tornou-se Privatdozent, espécie de professor particular sem remuneração pela universidade e, sim, pelos alunos que conseguisse, tendo sido bem-sucedido, porquanto muitos dos seus cursos se repetiram várias vezes, durante anos, em vista da demanda de alunos. Somente em 1770 é nomeado professor ordinário de lógica e metafísica. Só deixou sua cátedra por motivo de debilidade e velhice, sete anos antes de morrer, em 1804.

No mesmo ano da publicação de seu Nova Dilucidatio, no dia 1º de novembro, ocorrera também, um terrível a terremoto em Lisboa. Fato marcante em sua vida e na de muitos outros pensadores iluministas. Voltaire, por exemplo, escrevera no ano seguinte um poema de lamento pela condição humana (uma de suas críticas a "o melhor dos mundos possíveis" de Leibniz) e Kant, por sua vez, escrevera três pequenos trabalhos, que juntos foram publicados sob o título de Escritos Sobre o Terremoto de Lisboa (donde teceria o conceito de sublime, desenvolvido, anos depois, em sua Crítica do Juízo. Mais tarde, em 1762, após ler Emílio e O Contrato Social, rende-se a mais uma grande influência dessa vez, trata-se do genebrino Jean-Jacques Rousseau. "Quando Kant leu Emílio, não deu seu passeio matinal sob as tílias, a fim de terminar logo o livro. Foi uma acontecimento, em sua vida, encontrar ali outro homem que tateava para sair da escuridão do ateísmo e que afirmava audaciosamente a prioridade do sentimento em relação à razão teórica naqueles casos supra-sensíveis" (DURANT, 2000). Essas influências culminariam com a David Hume que, segundo o próprio Kant, foi quem o despertou do "sono dogmático". Curiosamente, esses mesmos homens que lhe serviram de influência seriam os que, mais tarde, ele procuraria refutar - "[...] a diferença radical, fundamental, que existe entre Kant e seus predecessores é que os predecessores de Kant, quando falam do conhecimento, falam do conhecimento que vão ter, do conhecimento que se vai construir, [...] da ciência que está em constituição, em germe [...], quando Kant fala do conhecimento, fala de uma ciência físico-matemática já estabelecida [...], refere-se ao conhecimento científico-matemático da Natureza" (MORENTE, 1979).

A Europa iluminista tem seus fundamentos bem definidos na Europa renascentista, do retorno à Antiguidade Clássica, da valorização do homem, em que o jargão socrático "Conhece-te a ti mesmo" é retomado. Novamente Sócrates, e não por acaso, uma vez que, logo de início, foi estabelecida aqui uma relação entre ele e Kant, ao citá-los como dois grandes "divisores de água" na Filosofia. O Iluminismo, ou Era das Luzes, como também ficou conhecido, desabrochou em uma Europa marcada por grandes transformações sociopolíticas, na qual a França fora uma das protagonistas. Os pensadores iluministas franceses se autodenominavam "les philosophes", muitos deles burgueses e boêmios, mas todos, sem exceção, cidadãos da "república das letras" - espírito que se generalizou em clubes, cafés e salões literários. "Les philosophes tornam-se sinônimo de subversão e pornografia por defender e praticar a liberdade de pensamento, de que resulta uma nova concepção do mundo e do homem" (ABRÃO, 2004). Dentre eles estavam Voltaire, Diderot, a d'Alembert, Montesquieu, Rousseau e a Condorcet.

O Iluminismo alemão não precisou de uma "revolução" como a "francesa", no entanto, a futura Alemanha, que nada mais era, naquela época, que um aglomerado de Estados, que via sua língua sendo preterida ao latim ou ao francês, consequentemente não ficou incólume a uma revisão geral de valores, ambiente ideal para uma "crítica radical", até mesmo da própria razão, que recebeu o nome de Aufklärung. É nesse contexto que Kant, então, propõe que a razão "estabeleça um tribunal que, ao mesmo tempo que assegure suas legítimas aspirações, rechace todas as que sejam infundadas, e não o fazendo mediante arbitrariedades, mas segundo suas leis imutáveis".

O idealismo transcendental kantiano, como ficou conhecida a filosofia do pensador de Königsberg, não é de fácil compreensão, mas pode ser estudado em suas duas grandes obras: Crítica da Razão Pura (1781) e Crítica da Razão Prática (1788). Conta-se que Herz, depois de receber o manuscrito da Crítica das mãos do próprio Kant, o teria devolvido, sem lê-lo por completo, dizendo temer "ficar louco" se o fizesse "Kant é a última pessoa do mundo que devemos ler sobre Kant" (DURANT, 2000). Essa dificuldade em lê-lo se deve a que, ao elaborar sua estratégia de ataque aos critérios do conhecimento, o filósofo, antevendo os ataques que também receberia de seus oponentes, decide, perspicazmente, que deveria "falar outra língua", tecer suas ideias em uma linguagem própria, de difícil compreensão vulgar. Assim, para combatê-lo, é necessário subir às suas alturas, onde seu contestador terá de escolher entre "respirar ou lutar", "Aproximemo-nos dele por desvios e com cautela, começando a uma distância segura e respeitosa; [...] e depois avancemos tateando em direção àquele sutil centro em que o mais difícil dos filósofos guarda o seu segredo e o seu tesouro".

Em 1784, em um pequeno artigo, intitulado Beantwortung der frage: Was ist Aufklärung? (Resposta à pergunta: O que é o esclarecimento?), Kant diz: "Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento". Como se pode ver, conquistar a maioridade é uma questão que está nas mãos do próprio indivíduo, na medida em que se assume como "livre, autônomo e racional".

Se o Iluminismo buscou o esclarecimento do ser humano, a antropologia kantiana caiu, por assim dizer, como uma luva nesse movimento sociopolítico, artístico-cultural, da burguesia europeia. A indagação "O que é o homem?", em Kant, encontraria resposta a partir de três outras questões: "O que se pode saber?", "O que se deve fazer?" e "O que é lícito que se espere?". Kant considerava "escandaloso" que em mais de dois mil anos de pensamento filosófico nenhum pensador tenha sido capaz de "realmente" provar se há ou não "um mundo lá fora", externo a nós. Destarte, lançou- -se a dar uma solução ao "impasse" estabelecido entre racionalistas, como Descartes, e ceticistas, como Hume. Na filosofia racionalista de Leibniz, reaparecera a teoria dos "dois mundos", enquanto isso, os empiristas se empenhavam em criticar as pretensões da metafísica. Para dar conta desses mundos, aparentemente tão díspares, e dessas filosofias, presumivelmente irreconciliáveis, o sábio de Königsberg vai distinguir 3 modos de saber: a sensibilidade (Sinnlichkeit), o entendimento discursivo (Verstand) e a razão (Vernunft ). A partir daí é que ele destrincha, em sua Crítica da Razão Pura, as possibilidades do conhecimento e o fundamento da sua validade. "O espaço e o tempo separam- -nos da realidade das coisas em si. A sensibilidade limita-se a apresentar fenômenos ao entendimento, coisas que são 'deformadas' ou elaboradas por essa sensibilidade" (MARÍAS, 1978). Em outras palavras: tudo o que chegamos a conhecer não passa de uma "construção" forjada por nossas sensações, uma espécie de "produto artificial", gerado por nossa inexorável submissão ao espaço e ao tempo, portanto, a posteriori; enquanto, o que está para além de nossa percepção sensorial (ou a priori) nos é inacessível. Eis o grande golpe que o filósofo de Königsberg desferiu contra a metafísica que se sustentara até então e à qual dedicaram seu valoroso tempo pensadores desde a Parmênides até Leibniz. Daí a razão de admoestar os pretendentes a metafísicos, dizendo: "É incontornavelmente necessário pôr de lado provisoriamente seu trabalho, considerar tudo o que aconteceu até agora como não acontecido e antes de todas as coisas formular primeiramente a pergunta: se algo como a metafísica é simplesmente possível?".

Porém, se a metafísica clássica fora posta em "seu devido lugar" por Kant, a própria razão também o foi, porquanto foi dito a ela o que pode e o que não pode vir a conhecer. Isso estabelecido, segue, então, o filósofo para a parte prática no campo do conhecimento e escreve a sua Crítica da Razão Prática. Dali emana toda a "ética kantiana", a partir da qual lhe vem o "imperativo categórico", "Age de tal modo que trates a humanidade tanto na tua pessoa como na pessoa de todo outro sempre e ao mesmo tempo como um fim e jamais simplesmente como um meio [...]". Kant resgata a antiga tradição socrática quando postula uma máxima que não deixa dúvidas de que o indivíduo "esclarecido" é o mais "apto" a exercer a virtude e praticar o bem. É, então, sob essa nova égide que a Filosofia passará a desenvolver sua teoria do conhecimento, sabendo bem até que ponto a razão humana é capaz de penetrar em certos domínios e empreender ali sua atividade por excelência: conhecer. Também é a partir daí que o homem deverá compreender "o dever", não como obrigação, mas no sentido de "integridade", assumindo-se definitivamente como um ser racional. Essa nova noção de "dever" consiste na passagem do alienum júri (quando o indivíduo age coagido por leis exteriores ou por vontade de outrem) para o suis júri (quando o indivíduo age por uma espécie de vontade ou determinação própria, interior). O conceito de autonomia, em Kant, tem sua base em Rousseau, ele apenas a transferiu do âmbito político para o da moral.

Sendo, como já foi dito, um "divisor de águas" na Filosofia, Kant conquistou adeptos e admiradores, e também críticos ferrenhos. Friedrich W. Nietzsche, por exemplo, provavelmente tendo visto nele algo de muito similar a Sócrates (eis que surge outra vez aquela "ligação"!), tratou de apontar seu "idealismo romântico" como mais uma tentativa de negar os mais viris instintos do homem, impondo-lhe uma moralidade "de fora para dentro", capciosamente travestida de "imperativa", ou seja, inegável e necessária ao agir racional, em direção ao bem que ele deve sempre almejar. Embora tenha declarado que Sócrates fora o instaurador da metafísica no mundo, enquanto Kant é reconhecido como o destruidor dela, Nietzsche dirá que "esse chinês de Königsberg" foi, como todos os outros filósofos antes dele, seduzido pela "santa supremacia da moral" e, assim como Lutero dera sobrevida ao cristianismo, em vez de enterrá-lo, Kant fizera o mesmo com a metafísica, como podemos ver nesse trecho do prefácio de Aurora: "Kant era, justamente, com um tal propósito delirante, o bom filho do seu século, que mais que qualquer outro pode ser denominado de o século do delírio [...]. Também ele foi mordido pela tarântula moral Rousseau, também ele tinha no fundo da alma o pensamento do fanatismo moral [...]. Pode-se talvez [...] lembrar-se de algo aparentado a Lutero, naquele outro grande pessimista [...]". Até mesmo Arthur Schopenhauer, tão influenciado por Kant, ao perceber que sua segunda Crítica resgatava ideias religiosas, como Deus, liberdade e imortalidade (aparentemente destruídas na primeira), atirou: "A virtude de Kant, que a princípio se voltava para a felicidade, perde sua independência mais tarde e estende sua mão pedindo uma gorjeta".

"Kant era, justamente, com um tal propósito delirante, o bom filho
do seu século, que mais que qualquer outro pode ser denominado
de o século do delírio [...]. Também ele foi mordido pela tarântula
moral Rousseau, também ele tinha no fundo da alma o pensamento
do fanatismo moral [...]"

A filosofia kantiana, embora reconhecidamente elevada, complexa e até incompreensível, não se mantém sempre nas alturas ela, em vários momentos, desce à instância dos pobres mortais, quando, apesar de mantidas as características do seu autor, trata questões como a educação, a justiça e a teologia. Em sua obra Sobre a Pedagogia (conjunto de notas retiradas de suas preleções no curso de Pedagogia), Kant vai dizer que o fim último da educação é a liberdade "Deve-se começar a educar a criança pela lei que está dentro dela", propõe. O livro Emílio, de Rousseau, o impressionou de tal forma que Kant, ao dividir seu projeto pedagógico em duas partes a educação física e a educação moral, pautou a primeira em tudo o que lera na obra do pensador francês. Em Kant, a educação deve ter como objetivos a formação do caráter e a conscientização dos deveres do indivíduo para consigo mesmo. Disciplina, instrução, formação e cultura estão na base estrutural da pedagogia kantiana. Prudência e moralidade são as duas características fundamentais daquele que recebeu a devida educação, de forma que saiba e possa viver em sociedade (uma sociedade no estrito sentido do idealismo kantiano, é claro!) "Reformando-se o homem, reforma- se também a sociedade, e eis que surge o perfeito cidadão". Ao que parece, a concepção kantiana de "homem" destoa daquela defendida por Rousseau, do "bom selvagem", uma vez que o francês acusava a sociedade (com seus agressivos processos civilizatórios) pela deturpação do "homem natural" e o alemão primava pela formação cultural do ser humano para seu pleno desenvolvimento como cidadão "A Educação é uma arte, cuja prática necessita ser aperfeiçoada por várias gerações precedentes. Cada geração, de posse dos conhecimentos das gerações precedentes, está mais bem aparelhada para exercer uma educação que desenvolva todas as disposições naturais na justa proporção de conformidade com a finalidade daquelas e, assim, que caminha toda a espécie humana seu destino". Kant pensava no homem, não como "um ex-bom selvagem", mas como um "futuro melhor ser humano".

Embora muitas pessoas tenham a tendência a relacionar moralidade com religião, acreditando erroneamente que sem a religião os valores morais se perderiam, a ética kantiana passa longe de qualquer concepção ou tendência religiosa, da mesma forma que, em seu projeto pedagógico (do qual acabamos de tratar), uma educação ou formação religiosa é incogitável. Nem tanto porque o Iluminismo tenha sido uma proposta de domínio do pensamento racional sobre o teológico, mas simplesmente porque Deus, alma, reencarnação e imortalidade estão para Kant naquele patamar metafísico, no qual todas as lucubrações não passam de especulações mentais vazias de sentido racional, uma vez que, como o próprio Kant vai dizer, nossa razão jamais terá acesso a eles. Logo no Prefácio da 1ª edição (1793) de sua obra A Religião nos Limites da Simples Razão, lemos: "A moral que é baseada no conceito do homem, enquanto ser livre que por isso mesmo se obriga, por sua razão, a leis incondicionais, não tem necessidade nem da ideia de um ser diferente, superior a ele para conhecer seu dever, nem de outro móvel a não ser a lei pela qual o observa", donde percebe-se claramente como o filósofo desvincula Deus e a Religião em geral da questão moral do homem.

"O nosso filósofo [...] sentiu, à medida que envelhecia, uma grande
vontade de preservar para ele e o mundo pelo menos os pontos
essenciais da fé tão profundamente inculcada nele por sua mãe" (DURANT, 2000)

Trazendo de volta, outra vez, aquele link proposto desde o início entre Kant e Sócrates, não seria descabido dizer que a postura ética do filósofo ateniense diante da sentença que lhe foi proferida, com sua recusa em fugir de Atenas, como sugerido por seus amigos e discípulos, para livrar-se da morte por envenenamento, é sem dúvida a postura moral defendida por Kant.

Embora tendo sido criado por uma mãe extremamente religiosa e sob seus rigores devocionais, o pequeno Immanuel cresceu avesso à Igreja e a qualquer credo religioso. No entanto, segundo alguns autores, seu fervor religioso apenas estava envolto e escondido dentro de um coração racional "O nosso filósofo [...] sentiu, à medida que envelhecia, uma grande vontade de preservar para ele e o mundo pelo menos os pontos essenciais da fé tão profundamente inculcada nele por sua mãe" (DURANT, 2000). Não devemos esquecer, no entanto, que as questões de fé, como Deus e a alma imortal, por exemplo, são um prato cheio para a metafísica a primeira vítima do idealismo transcendental kantiano "Por exemplo, podemos desejar afirmar que Deus é a causa do mundo, mas causa e efeito é outro conceito a priori, como substância, que Kant acreditava ser válido apenas para o mundo percebido, mas não para as coisas em si. Então, a existência de Deus (considerado, como geralmente é, um ser independente do mundo conhecido) não é algo que possa ser conhecido" (O Livro da Filosofia, Ed. Globo, 2011).

Em A Religião nos Limites da Simples Razão, Kant propõe um culto e um comportamento religioso estritamente racional. Assim, ir à igreja, tanto quanto ler um livro considerado sagrado, deveria ser uma atividade simples que, no entanto, lembrasse ao devoto que o divino que ali está sendo cultuado é aquele que representa nele mesmo (o fiel) a mais alta moralidade, do contrário, tal ato poderia preencher seu coração, (como é sabido que o faz), mas, em contrapartida, serviria de testemunho de uma mente vazia, irracional "[...] a pura fé literal corrompe mais do que melhora o verdadeiro pensamento religioso". Provavelmente nenhuma das igrejas e credos que conhecemos atualmente escaparia à crítica movida pelo nosso nobre idealista à religião. No entanto, é muito provável também que ele admitisse, ainda que a contragosto, o quanto elas são "um mal necessário", considerando-se o que ele disse: "Só existe uma religião (verdadeira), mas podem existir muitas formas de crenças. Pode-se acrescentar que nas diversas igrejas que se separam umas das outras por causa da diversidade de seu gênero de crença, pode-se, no entanto, encontrar uma só e mesma religião", porém, acrescentou: "mas somente a pura fé religiosa, baseada inteiramente na razão, pode ser reconhecida necessária, como a única, por conseguinte, que se distingue a verdadeira igreja". Essas declarações do filósofo não foram bem acolhidas pelo recém-chegado ao trono da Prússia, a Frederico II, que era contrário às medidas iluministas do seu antecessor (Frederico, o Grande), e proibiu o pensador de se pronunciar sobre religião, no que foi prontamente atendido, até sua morte, em 1797.

O imperativo categórico kantiano não se pretende uma "máxima ecumenicorreligiosa", mas caberia muito bem em qualquer dos Evangelhos, sem destoar das pregações do Cristo "Não julgueis, e não sereis julgados. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos" (Mateus, 7:1-2). Kant acreditava fielmente na capacidade do ser humano de dominar seus instintos mais perversos através da assunção de sua racionalidade. Ele tentou a todo custo, em sua obra, deixar isso bem claro "[...] a malignidade da natureza humana não deve, na verdade, ser chamada de maldade, se esta palavra for tomada em sentido rigoroso, isto é, como intenção (princípio subjetivo das máximas) de admitir o mal enquanto mal como motivo em sua máxima (pois isso seria uma intenção diabólica), mas, antes, perversão do coração, o qual segundo a consequência, é designado então igualmente de má vontade. Esta não é incompatível com uma vontade em geral boa: provém da fragilidade da natureza humana [..]". Se isso por si só não bastar para fundamentar o argumento que acabo de levantar, que tal, então: "Toda má ação, quando procuramos sua origem, deve ser considerada como se o homem tivesse chegado a isso diretamente do estado de inocência"? Com isso ele pretendia dizer: "Se estivesse em pleno usufruto de sua autonomia, de sua liberdade e de sua racionalidade, jamais cometeria um ato infame, ainda que forças volitivas em seu espírito tentassem movê-lo a tal!". Alguns comentadores do filósofo e de sua "máxima moral" perceberam também a proximidade que há entre ela e o ideal religioso: "Vivamos de acordo com este princípio, e em breve iremos criar uma comunidade ideal de seres racionais; para criá-la, precisamos apenas agir como se já pertencêssemos a ela; [...] só assim poderemos deixar de ser animais e começar a ser deuses" (DURANT, 2000).

Sim! O idealismo kantiano, visto por nós, homens do século 21, que sabemos perfeitamente que aquelas luzes do século 18 não foram capazes de iluminar suficientemente as mentes e os corações dos homens, de modo a evitar duas a Grandes Guerras, no século 20, e toda uma série de outras pequenas e grandes calamidades perpetradas pela malignidade humana, sim! O idealismo kantiano pode ser chamado de utópico. Mas não esqueçamos que "utopia" não significa apenas o lugar impossível, irreal. Ela também é o "lugar dos sonhos", e por que, então, não poderia ser também "o lugar dos nossos objetivos"? Um homem pequeno e franzino viveu toda sua vida sem nunca tirar o pé de sua cidadenatal. Influenciou dali mesmo outros homens que, como ele, ousaram edificar um mundo melhor. Destruiu os pilares de uma pseudociência, chamada metafísica, desconstruindo assim os argumentos de nobres pensadores de mais de 20 séculos. Sem ser religioso, viveu dentro da mais estrita moralidade e no respeito ao seu semelhante. Morreu aos 79 anos, sem ter casado, sem ter filhos, tão simples quanto veio ao mundo, contudo, ciente do "dever" cumprido. Se essa história é mesmo, como os anais atestam, verídica, é melhor que alguém entre nós, homens do século 21, assuma imperativa e categoricamente a nobre tarefa de dar uma resposta a esta pergunta: O que, afinal, é utopia?

REFERÊNCIAS

ABRÃO, Bernadette Siqueira (Org.), A História da Filosofia, Nova Cultural, 2004;

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, São Paulo: Ática, 1998;

DURANT, Will, A História da Filosofia, Ed. Nova Cultural, 2000;

KANT, Immanuel, A Religião nos Limites da Simples Razão, Ed. Escala, 2008;

MARÍAS, Julián, História da Filosofia. Porto: Edições Sousa & Almeida, 4ª edição, 1978;

MORENTE, Manuel García. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Editora Mestre Jou, 7ª edição, 1979; NIETZSCHE, Friedrich W., Aurora Ed. Escala, 2007.

* Jaya Hari Das é filósofo, criador da Terapia Hari, diretor/fundador do MOFICUSHINTH. E-mail: moficushinth@yahoo.com.br

sexta-feira, 25 de maio de 2012

ABRINDO CAMINHOS ATÉ NIETZSCHE (Parte IV)

NIETZSCHE: AMORES, AMIGOS E SOLIDÃO


Como filósofo, Nietzsche não foi compreendido pelos seus contemporâneos; como homem, foi um solitário, sem amores correspondidos e com poucos amigos. Essa solidão física e intelectual é outro traço marcante na vida do filósofo que não deve ser esquecida, pois também ela direciona sua obra e está presente nela, tanto nos momentos mais poéticos quanto nos mais agressivos.

A jovem finlandesa, Lou Andréas Salomé foi pedida em casamento, mas recusou, queria apenas ser sua amiga e, quem sabe, uma espécie de discípula. Porém, nem isso aconteceu, pois, em breve, haveriam de se afastar definitivamente. Ela preferiu cair nos braços de Paul Rée, um amigo comum, e Nietzsche, desiludido, desandou a escrever aforismos contra as mulheres. O barão Heirinch von Stein fora para Nietzsche uma esperança de alguém que, ainda em sua época, compreendesse o seu “Zaratustra”. No entanto, von Stein veio a falecer muito cedo, levando consigo tal esperança, o que amargurou profundamente o filósofo. O intelectual, Paul Lanzky, lera “Assim falou Zaratustra” e escrevera um artigo num jornal de Leipzig e na Revista Européia de Florence. Dirigiu-se a Nietzsche, chamando-o de “mestre”, ao que o filósofo respondeu: “Sois o primeiro que me trata dessa maneira”.

Seus livros não eram lidos nem mesmo por seus amigos. Erwin Rohde, para quem o filósofo enviara uma de suas obras, jamais agradeceu o envio nem respondeu à carta que Nietzsche lhe escreveu. A primeira edição de sua obra-prima, “Assim falou Zaratustra”, vendeu apenas 40 exemplares; sete foram dados de presente, só uma pessoa agradeceu e ninguém teceu um único elogio.

Nietzsche apaixonou-se pela música de Richard Wagner, chegou a dizer, sobre a obra do compositor: “Bayreuth significa, para nós, o sacramento matutino no dia da batalha”. Enviou a ele o seu “Humano, Demasiado Humano” e recebeu em troca o libreto “Parsifal”. Porém, em breve, veria na obra de Wagner “a decadência”, todo “o niilismo” e adulação ao cristianismo. Então, rompeu definitivamente com o compositor.

Poucas vezes o filósofo teve a satisfação de ler algo positivo sobre seus escritos, como se deu com o “admirável” ensaio de Georg Brandes, “a mais conclusiva de todas as análises críticas sobre sua obra, então ainda pouco conhecida”. Numa carta a Brandes, datada de 2 de dezembro de 1887, Nietzsche escrevera: “Uma filosofia como a minha é igual a um túmulo: não se vive mais com ela”. Dentre os comentadores, Eugen Fink alfineta que “Nietzsche mais dissimulou do que publicou sua filosofia”; Martin Heidegger, que “é nos escritos póstumos que será preciso buscar a autêntica filosofia de Nietzsche”; e Muller-Lauter nos faz lembrar que o próprio filósofo se compreendia “como o mais escondido de todos os ocultos”.

É através de Zaratustra que Nietzsche supera essa falta de amigos, de amores e de comentadores de sua obra. Ele cria seus próprios amigos, já que não os tem de verdade. “Eu vos conjuro, meus irmãos, continuai fiéis à Terra e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres! Envenenadores eles são, quer saibam, quer não”. E, talvez, pensando em si mesmo: “Ó solitários de hoje, ó vós que viveis separados, um dia sereis um povo; de vós, que escolhestes a vós mesmos, nascerá um povo escolhido; e dele o super-homem”.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

ABRINDO CAMINHOS ATÉ NIETZSCHE (Parte III)

NIETZSCHE E A EUROPA DO SÉCULO XIX

Para melhor compreensão da filosofia nietzschiana, é necessário despojar-se de algumas concepções e valores culturais e religiosos, pois, de uma forma ou de outra, foram esses os atacados por esse filósofo. Isso não significa que o estudante deva abdicar de suas convicções ou ignorar seus valores em definitivo, não! Significa que seus valores e convicções não devem se impor aos temas e pontos estudados, sob pena de este estudo se tornar um embate de valores e convicções, o que não será nada proveitoso. No decorrer desta série, a maior compreensão dessa filosofia abrirá horizontes e perspectivas sobre seus próprios valores e convicções, de forma natural e proveitosa!

Compreender o universo nietzschiano é mergulhar na solidão, na doença e no contexto historicocultural do filósofo. Nenhum desses três elementos pode ser considerado isoladamente ou mesmo deixado de lado. Outro fator importante é manter sempre uma análise interpretativa e psicológica direcionada para os conceitos e representações do autor. Assim, um passeio pela História, mais precisamente pela Europa do século XIX, nos mostrará o contexto em que surge e vive nosso filósofo.

O excerto abaixo foi retirado de “Nietzsche e sua época”, publicado na revista Discutindo Filosofia Especial Ano 1 Nº1 (por uma questão de objetividade, clareza e espaço, os textos aqui apresentados poderão sofrer cortes e adaptações, sem prejuízo de sua informação):

“Nenhuma filosofia surge, por assim dizer, do nada. Intimamente ligada às circunstâncias de seu aparecimento, bem como aos pontos de vista que a introduziram, a Filosofia nietzschiana foi também criada em algum momento e em algum lugar.
A filosofia de Nietzsche abriga determinados valores e decorre de uma dada avaliação de seu tempo. [...] Comprometido com a crítica de nossos supremos juízos de valor, [Nietzsche] acreditava que o estudo das relações sociais só poderia adquirir o ápice de seu conteúdo com uma investigação retrospectiva das diversas morais que marcaram a História.
Avessa às tendências ideológicas dominantes na segunda metade do século 19, a filosofia de Nietzsche surgiu e amadureceu em contraponto aos movimentos que se insinuavam pela Europa adentro e, em especial, pelas janelas do mundo germânico – a unificação alemã industrial e a militarização da sociedade germânica”.

A Europa vivia um momento de reestruturação geopolítica e, consequentemente, a Alemanha, também. O filósofo, então, lança seu olhar sobre os acontecimentos e valores culturais de sua época, tecendo ali sua filosofia de contraposição. Aí, logo se vê que ele se tornará uma pedra no sapato do convencionalismo e do tradicionalismo, em vista de que percebe que “o valorar errado levou toda a Europa a um viver errado”. Esse papel de intérprete crítico e psicológico do seu tempo e do seu lugar exigirá dele que lance mão de novos valores e representações, sob pena de sucumbir às mesmas “velhas verdades e convicções” que vitimaram seus contemporâneos.

O trecho que vem a seguir foi extraído do meu artigo “O Crepúsculo dos Sonhos”, publicado pela Editora Escala em Coleção Guias de Filosofia – Nietzsche Vol. II:

“Antes mesmo que a Europa fosse o palco das duas Grandes Guerras, Nietzsche analisava a desilusão e a falta de esperança na vida da sociedade européia.
Na primeira metade do século 19, a Europa estava mergulhada em decepção e pessimismo. [...] O continente europeu tornara-se uma imensidão de miséria e sujeira, após o furacão chamado “Napoleão”. Nietzsche fora beber no realismo amargo (para muitos, no pessimismo de Arthur Schopenhauer). Era fácil perceber naqueles dias que a satisfação, ou felicidade, era mais incomum ou estranha à vida do que a dor e o sofrimento”.

A preocupação da Filosofia com os conflitos interiores e exteriores do homem são, como se sabe, os fomentadores do surgimento da Psicologia e da Sociologia. As guerras entre povos e nações, os conflitos políticos, a desagregação social, a submissão da razão à fé serão para Nietzsche a matéria-prima de sua nova filosofia.

“No limiar do pensamento contemporâneo, a filosofia enfrenta um desafio crucial: o questionamento do valor absoluto que se atribuía aos critérios que serviam como base à civilização ocidental. Com Nietzsche, começa-se a expor a fragilidade das certezas seculares” (Bernadette Siqueira Abrão).

Ler com atenção a obra de Friedrich W. Nietzsche nos fará entender o que seu papel como filósofo representou para a Europa do século XIX e como sua obra iria influenciar a cultura e outros pensadores do início do século XX.