quinta-feira, 3 de maio de 2012

ABRINDO CAMINHOS ATÉ NIETZSCHE (Parte III)

NIETZSCHE E A EUROPA DO SÉCULO XIX

Para melhor compreensão da filosofia nietzschiana, é necessário despojar-se de algumas concepções e valores culturais e religiosos, pois, de uma forma ou de outra, foram esses os atacados por esse filósofo. Isso não significa que o estudante deva abdicar de suas convicções ou ignorar seus valores em definitivo, não! Significa que seus valores e convicções não devem se impor aos temas e pontos estudados, sob pena de este estudo se tornar um embate de valores e convicções, o que não será nada proveitoso. No decorrer desta série, a maior compreensão dessa filosofia abrirá horizontes e perspectivas sobre seus próprios valores e convicções, de forma natural e proveitosa!

Compreender o universo nietzschiano é mergulhar na solidão, na doença e no contexto historicocultural do filósofo. Nenhum desses três elementos pode ser considerado isoladamente ou mesmo deixado de lado. Outro fator importante é manter sempre uma análise interpretativa e psicológica direcionada para os conceitos e representações do autor. Assim, um passeio pela História, mais precisamente pela Europa do século XIX, nos mostrará o contexto em que surge e vive nosso filósofo.

O excerto abaixo foi retirado de “Nietzsche e sua época”, publicado na revista Discutindo Filosofia Especial Ano 1 Nº1 (por uma questão de objetividade, clareza e espaço, os textos aqui apresentados poderão sofrer cortes e adaptações, sem prejuízo de sua informação):

“Nenhuma filosofia surge, por assim dizer, do nada. Intimamente ligada às circunstâncias de seu aparecimento, bem como aos pontos de vista que a introduziram, a Filosofia nietzschiana foi também criada em algum momento e em algum lugar.
A filosofia de Nietzsche abriga determinados valores e decorre de uma dada avaliação de seu tempo. [...] Comprometido com a crítica de nossos supremos juízos de valor, [Nietzsche] acreditava que o estudo das relações sociais só poderia adquirir o ápice de seu conteúdo com uma investigação retrospectiva das diversas morais que marcaram a História.
Avessa às tendências ideológicas dominantes na segunda metade do século 19, a filosofia de Nietzsche surgiu e amadureceu em contraponto aos movimentos que se insinuavam pela Europa adentro e, em especial, pelas janelas do mundo germânico – a unificação alemã industrial e a militarização da sociedade germânica”.

A Europa vivia um momento de reestruturação geopolítica e, consequentemente, a Alemanha, também. O filósofo, então, lança seu olhar sobre os acontecimentos e valores culturais de sua época, tecendo ali sua filosofia de contraposição. Aí, logo se vê que ele se tornará uma pedra no sapato do convencionalismo e do tradicionalismo, em vista de que percebe que “o valorar errado levou toda a Europa a um viver errado”. Esse papel de intérprete crítico e psicológico do seu tempo e do seu lugar exigirá dele que lance mão de novos valores e representações, sob pena de sucumbir às mesmas “velhas verdades e convicções” que vitimaram seus contemporâneos.

O trecho que vem a seguir foi extraído do meu artigo “O Crepúsculo dos Sonhos”, publicado pela Editora Escala em Coleção Guias de Filosofia – Nietzsche Vol. II:

“Antes mesmo que a Europa fosse o palco das duas Grandes Guerras, Nietzsche analisava a desilusão e a falta de esperança na vida da sociedade européia.
Na primeira metade do século 19, a Europa estava mergulhada em decepção e pessimismo. [...] O continente europeu tornara-se uma imensidão de miséria e sujeira, após o furacão chamado “Napoleão”. Nietzsche fora beber no realismo amargo (para muitos, no pessimismo de Arthur Schopenhauer). Era fácil perceber naqueles dias que a satisfação, ou felicidade, era mais incomum ou estranha à vida do que a dor e o sofrimento”.

A preocupação da Filosofia com os conflitos interiores e exteriores do homem são, como se sabe, os fomentadores do surgimento da Psicologia e da Sociologia. As guerras entre povos e nações, os conflitos políticos, a desagregação social, a submissão da razão à fé serão para Nietzsche a matéria-prima de sua nova filosofia.

“No limiar do pensamento contemporâneo, a filosofia enfrenta um desafio crucial: o questionamento do valor absoluto que se atribuía aos critérios que serviam como base à civilização ocidental. Com Nietzsche, começa-se a expor a fragilidade das certezas seculares” (Bernadette Siqueira Abrão).

Ler com atenção a obra de Friedrich W. Nietzsche nos fará entender o que seu papel como filósofo representou para a Europa do século XIX e como sua obra iria influenciar a cultura e outros pensadores do início do século XX.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

ABRINDO CAMINHOS ATÉ NIETZSCHE (Parte II)

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE NIETZSCHE

Em 15 de outubro de 1844, nascia em uma casa pastoral de um vilarejo de Röecken, na Alemanha, Friedrich Wilhelm Nietzsche, filho de Karl Ludwig Nietzsche, pastor luterano e Franziska Oehler. Descendente de uma família de pastores luteranos (seu avô, Friedrich August Ludwig Nietzsche, era pastor e sua mãe também era filha de um pastor luterano), não obstante, esse legado pastoral, assim como sua hereditariedade germânica, em nada seria o traço marcante da vida do futuro filósofo.

A morte do pai (cinco anos após seu nascimento) e a do irmão logo depois deixaram marcas indeléveis na infância do pequeno Friedrich. “Privado do seu melhor amigo (o pai), sentia-se preterido. Se o mundo é regido pela potência do Bem, como explicar o acontecido? Malvadez divina? Punição?”. Viúva e recebendo uma mísera pensão, insuficiente para a manutenção da família, sua mãe resolve partir com a família (ou o que sobrou dela) para Naumburg, onde poderia contar a ajuda de amigos e parentes.

Em Naumburg, Nietzsche foi educado em casa, aos cuidados da própria mãe. Já entre 1850 e 1858, ele freqüenta várias escolas, onde era visto pelos colegas como um menino introvertido e estranho, ao qual apelidaram de “o pequeno pastor”. Mais tarde, ao ganhar da mãe um piano, passou a ter aulas de música na própria casa. A partir de então, sua vida pareceu ficar mais alegre – dedicava-se à música e à poesia, conquistava amigos e se divertia, e também gostava muito de literatura. Mas essa alegria foi interrompida mais uma vez pela experiência da doença e da morte – morreram sua tia Auguste e sua avó paterna Erdmuthe. Também, ele foi acometido pelas primeiras crises de dores de cabeça e nos olhos, por essa razão teria pedido licença escolar.

Aos 14 anos ganhou uma bolsa de estudos para o Colégio Real de Pforta (internato de elite, onde grandes nomes da cultura alemã, como Fichte, estudaram). Ali conheceu a solidão, a distância e a saudade da mãe e da irmã – o regimento escolar só permitia uma saída de quatro horas, aos domingos. Para aplacar essa solidão atirava-se à composição musical e à leitura de Homero e Virgílio. Em Pforta, Nietzsche recebeu sólida formação humanista, conheceu os grandes autores da Antiguidade, por outro lado, sua saúde começava a dar sinais de fragilidade. O relatório médico do ginásio atesta que as congestões na cabeça, o reumatismo e os distúrbios oculares estavam se tornando cada vez mais constantes.

Na década de 1860, conhece a obra A Essência do Cristianismo, do filósofo Ludwig Feuerbach. A partir daí, se manifestam suas primeiras reações contrárias ao cristianismo, que o afastarão da vocação familiar para a Teologia. Em 1864, matricula-se em Teologia e Filologia na Universidade de Bonn, onde assiste às aulas de Ritschl (eminente helenista, que aprimorou os estudos e abriu novos caminhos para a Filologia Clássica. Graças a Ritschl, Nietzsche descobre sua vocação para a Filologia Clássica e, em 1865, segue para Leipzig, para continuar seus estudos com Ritschl. Nesssa época, o filósofo (ainda filólogo) desfrutou de certa felicidade, equilíbrio e saúde; seu trabalho foi profícuo e coroado de êxito: proferiu várias conferências e escreveu inúmeras resenhas. Foi em Leipzig que leu os dois volumes de O Mundo como Vontade e Representação, de Arthur Schopenhauer (seu primeiro contato real com a Filosofia); também por essa época que veio a conhecer a obra de Richard Wagner. Tanto Schopenhauer quanto Wagner tornam-se assim dois luzeiros de inspiração para a Filosofia nascente em Nietzsche. Por meio do mestre Ritschl, Nietzsche é então convidado a lecionar na Universidade da Basiléia, na Suíça.

Ao mesmo tempo em que se ocupava com ponderações sobre os gregos do período trágico, em 1870, obteve licença para participar como enfermeiro na Guerra Franco-Prussiana. Embora breves, as provações da guerra atingiram-lhe profundamente, causando-lhe crises de disenteria e icterícia. No campo de batalha, assistira aos horrores da destruição em massa: eram tantos os feridos que mal podiam ser medicados e morriam aos milhares pelos ferimentos ou por febre infecciosa.

A doença produziu uma significativa ruptura na vida do filósofo – ele teve de deixar para trás amigos, família, suas ocupações; tudo distanciou-se dele, e ele de tudo. O rompimento desses laços o empurrou outra vez para a solidão – só que desta vez profunda e definitivamente. Transformou-se, pouco a pouco, em seu próprio médico, prescrevendo a si mesmo regimes alimentares e valendo-se de diferentes drogas.Também tornou-se, na prática, seu próprio editor, porém, não tendo retorno, só gastos, empobreceu de modo progressivo.

Vivia de sua própria filosofia – errante e solitário. Nem a solidão, nem a enfermidade, nem a vida errante conseguem distanciá-lo de seu trabalho intelectual. Entre1883 e 1885, escreve aquela que seria sua obra-prima: Assim falava Zaratustra. A rotina da elaboração dos textos comprometeu terrivelmente sua saúde já debilitada. A partir daí, pode-se ver claramente como a vida e o corpo, a saúde e a doença, adquirem um valor central em sua crítica da moralidade cristã. Algumas vozes se levantaram louvando suas obras, mas eram muito dispersas e tardias, não conseguiam acrescentar algo de bom àquela solidão desamparada e àquela saúde atormentada.

Em 1888, o filósofo apresentou graves sinais de desequilíbrio mental. Em janeiro de 1889, sob forte tensão psíquica, foi visto abraçando um animal para protegê-lo das chicotadas do cocheiro, em plena praça de Turim. Nos dias subsequentes, escreveu várias cartas a amigos, cada uma delas assinada com um nome diferente – às vezes, Dionísio. Tomado por convulsões, passava da agressividade à doçura. O Dr. Willi diagnosticou nele “paralisia progressiva”. Foi internado pela mãe, dias depois, na clínica universitária de doenças nervosas em Jena. Quando saiu de lá, foi morar com a mãe em Naumburg. Entre 1891 e 1894, sua saúde só piora e muito rapidamente. Em 1892 já não reconhece os amigos que o visitam e tem repetidos acessos de fúria. Em 1893 sofre uma paralisia da espinha dorsal e é obrigado ficar numa cadeira de rodas. Com a morte de sua mãe, em 1897, Nietzsche fica em Weimar, sob os cuidados da irmã Elizabeth, que havia retornado do Paraguai, após sete anos de uma empreitada frustrada com o marido.

Nosso filósofo recebe o definitivo alívio de seu sofrimento por volta do meio-dia de sábado, 25 de agosto de 1900. Enfim... “Raramente um homem pagou um preço tão alto pelo gênio” (Will Durant).

quarta-feira, 25 de abril de 2012

ABRINDO CAMINHOS ATÉ NIETZSCHE (Parte I)

LITERATURA OU FILOSOFIA?

A literatura e a filosofia se unem, mas não se confundem. Para a literatura são necessários o escritor e o leitor – o primeiro deve ter habilidade na escrita, conhecimento da língua e das normas gramaticais dela, e, muitas vezes, boa dose de imaginação ou criatividade; o segundo deve ser capaz ler e compreender, com certa sensibilidade, e também precisa dominar a língua em questão. À filosofia são necessários o pensador/escritor e o pensador/leitor – o primeiro também deve ter habilidade na escrita e domínio da língua e da gramática, mas, além disso, deve ter raciocínio lógico, visão crítica da realidade e capacidade de argumentação; o segundo, do mesmo modo, também deve ser capaz de ler e compreender, porém, acima de tudo, deve ser capaz de apreender e aplicar na vida, se for possível, o conhecimento que se desprende do que lê.

Alguns filósofos possuem obras que podem ser lidas apenas como literatura. Nesse caso, o leitor utiliza-se delas como entretenimento, às vezes, fazendo anotações, para serem utilizadas, posteriormente, como citações, que, de certa forma, podem conferir a ele certo grau de “erudição”. Outros jamais poderão ser lidos como entretenimento, devido à rigidez do estilo e à exigência de um raciocínio atuante ao longo de toda a obra.

A obra de Friedrich W. Nietzsche encontra-se no limiar desses dois casos e, eventualmente, um livro ou outro, se isola apenas dentro de um desses casos. Quem optar por ler “Assim falou Zaratustra”, por exemplo, terá em suas mãos um bom livro de literatura, pois nele há uma trajetória narrativa repleta de personagens fictícios, típica do imaginário de um literato; porém, por outro lado, quem optar por ler “A Gaia Ciência” terá que ter a habilidade de interpretação filosófica e, além disso, um conhecimento prévio da própria filosofia do autor, para evitar que tome a liberdade de fazer suas próprias interpretações, que, certamente, nada terão a ver com a obra.

Nesse sentido, proponho que o pretenso leitor de Nietzsche, em primeiro lugar, esteja ciente da sua própria intenção ao decidir-se por ler esse filósofo, isto é, saber de antemão se ele está em busca de literatura ou de filosofia, e, em segundo, mas não menos importante, em caso de buscar por filosofia, assegurar-se de que tem, ou pretende desenvolver, a habilidade para tanto. Devo acrescentar que em nenhum dos casos há demérito para o leitor, ou mesmo para a obra. Como disse anteriormente, é puramente “opcional”, pois, em ambos os casos, tomadas essas precauções, indubitavelmente, cada leitor alcança o seu objetivo.

Convido, portanto, o leitor deste blog, a partir deste artigo, a acompanhar minhas considerações sobre a obra de Nietzsche, no intuito de facilitar sua compreensão e colaborar na apreensão das principais ideias levantadas em cada obra, que vir a ser analisada. Tendo a pretensão de considerar-me suficientemente competente para tanto, uma vez que, muitas são as razões que me fazem pensar assim, a saber: 1)leio sua obra há mais de três décadas; 2)graduei em Filosofia defendendo uma monografia embasada nela; 3)tenho vários artigos sobre ela, publicados em revistas nacionais e em vários blogs espalhados Internet afora; e, 4)acima de tudo, por ser também eu um filósofo, me identifico com boa parte do que ele deixou escrito, à qual já tive acesso. Isso explicado, sigamos!

Apresento-o como uma ferramenta útil e não como uma chave que abre uma espécie de "segredo", sem a qual o leitor não teria sucesso. Essa “ferramenta”, como escrevi no título deste texto, pretende "abrir caminhos até Nietzsche". Então, que venham muitos através dele, é o que sinceramente espero!


Nota: Espero contar com professores, filósofos, estudiosos e colegas na correção de algum deslize, de qualquer ordem, que eu venha a cometer, pois, certamente serão de grande contribuição para o presente trabalho.
Muitíssimo obrigado, desde já, a todos!

quinta-feira, 15 de março de 2012

ENTREVISTA À SEXTO SENTIDO (Na íntegra)

ESTAMOS SÓS NO UNIVERSO?

SS- Considerando que somente na Via Láctea podem existir cerca de 2 bilhões de planetas parecidos com a Terra, qual a possibilidade de estarmos sós no universo?

JHD- Isso depende muito de qual tipo de vida, ou de seres, pensamos encontrar. Estamos presos à ideia de que a vida só é possível onde há água e elementos como hidrogênio, oxigênio e gás carbônico. Além disso, só conseguimos imaginar seres antropomórficos. Creio que, para considerarmos seriamente tal possibilidade, é preciso avançar mais um pouco, pois se “há muitas moradas” dentro do que denominamos “a criação de Deus”, é possível que haja também moradores – seres com características bastante peculiares, para os quais não possuímos nem sentidos, nem instrumentos, capazes de detectar. Pelo menos, ainda não. Se queremos realmente chegar a esse conhecimento, precisamos estar abertos a novas possibilidades e não fechados na convicção que “tem de ser assim”.

SS- Mesmo considerando todas as provas que ciência já demonstrou, de que há possibilidade de existir vida em outros mundos, é possível crer que essa vida possa ser inteligente e ser semelhante a nós?

JHD- Bem, se a pergunta é “é possível crer?”, responderei que “sim”. Não queremos apenas que exista um Deus racional e inteligente como supomos, queremos também que esse Deus tenha espalhado essa racionalidade e inteligência por todo o Universo. Isso justificaria nossos devaneios sobre invasões alienígenas, destruição da humanidade por uma raça superior vinda do espaço e coisas desse tipo. Também acalentaria nosso sonho de enviar ou deixar mensagens para os habitantes das estrelas, de forma a comunicar nossas experiências e falar sobre quem somos ou quem fomos. Essa temerosa crença, ao mesmo tempo em que nos põe em alerta para o perigo que é ter vizinhos que pensam tão ambiciosamente quanto pensamos, também nos põe em comunhão com todo o Universo, acolhendo como irmãos esses possíveis seres de outros planetas. Toda crença fala sempre mais de uma necessidade do que de um desejo. Temos necessidade de que “assim seja”, e não doutra forma.

SS- Durante anos, cientistas e teólogos tem defendido que a vida é uma exclusividade da Terra. Isso hoje já está em dúvida, contudo, ainda existem muitos partidários dessa tese, visto que até o momento só existem possibilidades, mas não provas científicas. Mas pensar dessa forma - a vida é somente terrestre - não soa egoísta?

JHD- Em meu livro “O Governante das Estrelas – Da Materialidade do Eterno” (ainda não publicado), dedico o capítulo “A Reencarnação e os Mundos Possíveis” a esta questão. É de lá que trago essas comparações que faço entre a crença em extraterrestres e a crença religiosa. Enquanto a crença inventa, digamos assim, condições de possibilidade para o inusitado, a ciência cria empecilhos para o improvável. Portanto, esse suposto egoísmo é cientificamente justificável. A ciência quer saber se há vida fora da Terra e, uma vez que ela quer saber, é necessário que, de certa forma, também creia que haja, no entanto, a racionalidade imposta à pesquisa científica não permite que essa crença seja mais do que uma mera propulsora da busca pelo desconhecido. Assim, até prova em contrário, dirá a ciência: “só há vida neste pequeno recanto do Universo”. Não obstante, quando olhamos para aqueles pequenos pontos luminosos na imensa escuridão do céu, alguma coisa nos convoca a imaginar se não estaríamos também nós sendo observados de lá. Penso que a vida é teimosa demais para ter se fixado num único ponto da vastidão do Universo.

SS- A visão mais comum de vida fora da Terra foca nos contatos com seres alienígenas, alimentado pelas fantasias da ficção científica. Seria esta uma visão correta de vida fora da Terra?

JHD- A ficção científica está para a verdade assim como o mito está para a racionalidade: é útil até certo ponto e, a partir dali, deve ser abandonada. Sabemos que livros e filmes de ficção científica inspiraram muitos artefatos usados na exploração espacial e, de certa forma, propiciaram avanços científicos, pois imaginação e curiosidade são fundamentais para o espírito científico, mas para por aí sua utilidade. Exigir que seres extraterrestres se pareçam com anfíbios ou sejam uma espécie de homens lindos e reluzentes, a meu ver, é um absurdo! Precisamos ser mais sérios e menos fantasiosos, se quisermos avançar nessas pesquisas. Não há necessidade de pressa em inventar corpos e rostos não-humanos que tenham como modelo as formas humanas reconhecidas. Sabemos que os seres da Terra desenvolveram esta ou aquela característica por necessidade e adequação às condições particulares de seu habitat natural. Penso que, se aplicarmos esse mesmo critério para os possíveis seres de outros planetas, teremos mais chance de conhecer a verdade dos fatos.

SS- Se existirem seres evoluídos em outros mundos, e se eles criaram uma civilização igual a nossa - nem entraremos na questão de “mais avançada” - como as religiões podem explicar as questões da evolução e da “salvação” dos terrestres e dos extraterrestres?

JHD- O que essa questão tem de interessante, tem de polêmica também. No tocante à evolução, não vejo empecilhos em aceitarmos que tudo está em constante movimento de melhoramento, ou de adaptação, como diria Darwin. Evoluir é próprio de tudo que houver no Universo – se há seres em outros planetas, fico bastante à vontade para dizer que devem passar por processos evolutivos semelhantes ao nosso. Por outro lado, nas questões que dizem respeito às religiões, como a salvação, por exemplo, não encontraremos muito apoio para argumentações. Toda religião é retrógrada e obtusa; está presa à letra morta de suas Escrituras e fechada em suas doutrinas, não dando lugar para o avanço do conhecimento. A ideia de salvação há muito já deveria ser um absurdo para nós terráqueos, que dizer então para extraterrestres? A ciência precisa de critérios, não de censuras, ainda mais de doutrinas religiosas que, se pudessem, manteriam toda a humanidade na Idade da Pedra. A questão da “salvação” é em si mesma o maior dos absurdos já produzidos pela incapacidade do homem de admitir seus próprios erros, não como pecados, mas como próprios da sua natureza de conhecedor e explorador das possibilidades da vida. Que um homem magnânimo e extemporâneo como Jesus Cristo é um exemplo de sabedoria, autoconfiança e determinação não tenho como negar. Daí a construir uma doutrina religiosa que torne o homem opróbrio de si mesmo, e deixar que ela predomine durante mais de vinte séculos, transforma o que tinha tudo para ser um néctar no mais letal veneno.

SS- É muito comum, entre vários grupos, a ideia de que discos voadores vem à Terra fazer contato e investigar os seres humanos, é plausível? Porque até hoje nenhum desses seres apareceu em praça pública acabando com todas as dúvidas quanto a sua existência?

JHD- Em primeiro lugar: que necessidade eles teriam de sanar nossas dúvidas? Remetendo à religião, isso é o mesmo que pedir ao Cristo que ele prove que é o “Filho de Deus”. Particularmente, não sei se Jesus é ou não “O Filho de Deus”, não sou um religioso, sou um filósofo, mas creio nele quando diz que, se ele provasse que realmente é, então “o Reino de Deus estaria aqui”. Similarmente, considerando a possibilidade de que existam extraterrestres que nos visitam, se eles tirassem nossas dúvidas quanto à sua existência, consequentemente nos dominariam, pois seriam realmente superiores a nós, uma vez que conseguiram fazer várias visitas ao nosso planeta, passaram anos estudando nossos hábitos, nossas forças, nossa inteligência – coisa que nós não fomos capazes de fazer com eles – e, sendo superiores, nos subjugariam. Ou seja: a revelação de uma verdade só é possível onde e quando há condições de compreensão e instauração dessa verdade. Em outras palavras: se eles realmente existem e nos visitam há anos, e não se apresentaram ainda, de forma indubitável, a nós, ou ainda não estão prontos para nós, ou nós não estamos prontos para eles, ou as duas coisas. A própria ufologia, hoje, primeiro tenta negar que certas “luzinhas no céu”, certos fenômenos malexplicados, sejam OVNIS ou obras de extraterrestres, para só depois incluí-los entre seus anais. Apesar de que, para alguns, a ufologia seja quase uma religião, a maioria dos ufologistas supostamente sérios são bastante céticos em muitos casos. As dúvidas são importantes para a busca de conhecimento e devem persistir ainda por um bom tempo, creia-me.

SS- Da mesma forma que os humanos, podemos imaginar, que se houver vida em outros mundos e essa vida for inteligente, você acha possível eles estabelecerem contato com nós humanos, da mesma forma que os humanos estão fazendo na atualidade?

JHD- A comunicação, como sabemos, pressupõe sempre dois lados: o comunicador, ou orador, e o interlocutor, ou ouvinte, os quais alternam seus papéis. Permita-me comparar novamente essa questão de vida extraterrestre com a questão religiosa. As pessoas religiosas acreditam que se comunicam com Deus, ou seja, que elas são capazes de falar com Ele e que Ele transmite suas ordens, de maneira inteligível (apesar de misteriosa), direta ou indiretamente a elas. Pois bem! Essas pessoas religiosas acreditam que sabem exatamente o que Deus quer de nós (mas absurdamente, no caso dos cristãos, por exemplo, não são capazes de explicar porque um Ser com tamanha sapiência e poder deixou o mundo chegar a um ponto tal de depravação e insubordinação que precisou mandar em sacrifício seu próprio Filho, como única correção de tamanho problema). Ora, voltando à sua pergunta, havendo seres extraterrestres, com inteligência e capacidade suficiente para viajar tão longe, em veículos sofisticadíssimos, não seria demais considerar que também sejam capazes de saber ou aprender a se comunicar conosco de forma inteligível, não é mesmo? Já é mais que hora de deixarmos de brincar de “eram os deuses astronautas?”.

SS- A pergunta que sempre se pensa em termos de vida extraterrestre é se seremos capazes de percebê-la, pois afinal: O que é vida?

JHD- A resposta a essa questão está imbricada naquela que dei para a pergunta inicial. Mas, concluindo, gostaria que me permitisse encerrar minhas respostas da mesma forma que me conduzi até aqui, ou seja, fazendo comparações com as questões religiosas. Creio que, se um dia fizermos contato real e inegável com seres de outros planetas, será um fato tal qual o profetizado pelo Cristo sobre seu retorno: não precisaremos nos deslocar de um ponto a outro para testemunhar tão inusitado evento, pois ele será visível e compreensível para todos em toda parte deste planeta. Porém, prefiro considerar que esses possíveis seres de outros planetas talvez levem uma vida tão bem resolvida e agradável que não tenham razões para se preocupar com a vida alheia; talvez sua sabedoria os aconselhe a cuidar da própria vida, em vez de ficarem inventando deuses e alienígenas, que só servem para tirar a paz daqueles que só queriam admirar as estrelas. Muito obrigado pela oportunidade!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

MINHA MONOGRAFIA (Parte XI)

PARA ALÉM DO BEM DO MAL
Uma das idéias mais combatidas na obra de Friedrich Nietzsche é, sem dúvida, a noção do “dever” – tanto no sentido kantiano, quanto como dogma cristão (se é que há alguma diferença entre ambos!). O “imperativo categórico” elaborado por Immanuel Kant (1724 – 1804), filósofo também alemão, do século XVIII, para Nietzsche, não passa de disfarce ou reelaboração dos mandamentos cristãos, de forma sucinta: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo; não matarás; não levantarás falso testemunho, etc, etc. A elaboração kantiana da “ação livre por dever” soa aos ouvidos do homem-dinamite como absoluta insensatez e absurdo. Para um filósofo que se mostrou contrário à metafísica deveria ser vergonhoso “cair nas malhas do velho Deus cristão”, assim pensava o destruidor de todos os valores.
Nietzsche denuncia que todas as tentativas dos filósofos nos últimos séculos de fundar uma ética foram simples remendos e arremedos de platonismo e cristianismo. As concepções de “bem” e de “mal” de dada cultura são sub-produtos de uma avaliação – mas de que perspectiva partem essas avaliações? A resposta nietzscheana é que, partindo do pressuposto de que a moral vigente é peso e medida para a valoração, bem e mal aí não passam de “pré-conceitos”, tendo como perspectiva algum ser metafísico, extra-mundano, juiz a-histórico, pois para a natureza há espiritualidade, necessidade e utilidade tanto num princípio quanto noutro.
“A moral tirou a inocência do mundo e a metafísica se constitui em verdade” – é o que diz Mauro Araújo de Sousa, em seu prefácio a “Para além do bem e do mal”, e segue citando o próprio Nietzsche: “O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esquecem que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas” (Nietzsche, 2002, p.27).
O platonismo condenou o mundo sensível à pura aparência, à inutilidade, à vulgaridade; inventou o mundo das idéias, um “mundo ideal” - quer dizer, “real” - para Nietzsche, no entanto, tudo isso não passa de divagação metafísica, devaneios platônicos, desatino. O cristianismo soube apoderar-se de “tão elevada filosofia” e montar, a partir dela, seu próprio sistema ético-filosófico – sobre isso entendem muito bem Agostinho e Tomás de Aquino, filósofos cristãos – como se isso fosse possível, diria Nietzsche. O mundo natural, a vida sobre a Terra, desde então só serviu de escárnio e pilhéria para tais filósofos, santos e deuses de toda a espécie. Qualquer extra-mundo é melhor que aqui, eis a “grande avaliação universal”. Caso não simpatizemos com tal lógica, que tal volvermos para o pessimismo schopenhaueriano, que elaborou enunciados, tais como: “sem dúvida a necessidade e o tédio constituem os dois pólos da vida humana”, ou “podemos conceber nossa existência como um episódio a perturbar, inutilmente, a bem-aventurada paz do nada”, e ainda, “Hoje está mal, amanhã será pior, até que sobrevenha o mal definitivo”? Não há o que estranhar se o suicídio, a partir desse prisma, se estabelecer como ato de maior sensatez!
Quando Nietzsche expôs seu pensamento em “Para além do bem e do mal – Prelúdio de uma filosofia do futuro” (1886), ele já havia escrito dois outros livros fundamentais para seu projeto de apresentar ao mundo a necessidade de uma transvaloração dos valores. Em “A Gaia Ciência” (1882), ele nos sai com: “A piedade é o sentimento mais agradável para aqueles que são pouco orgulhosos e que não têm possibilidades de fazer grandes conquistas: a presa fácil – qualquer ser sofredor é presa fácil - é coisa que os encanta” (p. 46); e em “Assim falou Zaratustra” (1884), sentencia: “Bem e mal, prazer e dor, eu e tu – tudo parecia-me colorida fumaça diante de olhos criadores. Queria o Criador desviar o olhar de si mesmo – e, então, criou o mundo” (p. 48). Faltava ainda “O Anticristo”, talvez para dar o desfecho final contra o demasiado tempo da moral cristã, mas esse só seria publicado postumamente. Na introdução a “Para além do bem e do mal”, Mauro Araújo de Sousa esclarece: “(...) o filósofo elabora uma crítica cultural utilizando o seu perspectivismo para abordagem, em vários aspectos, da formação do espírito no Ocidente, sempre tendo em vista reverter o quadro valorativo estabelecido pelo platonismo e sua metafísica. Também, o que é destaque na obra, é a questão dos “filósofos do futuro”, estabelecedores de novas condições culturais. Denomina esses filósofos como aqueles que são capazes de tentativas, de experimentos consigo mesmos e que, por não serem dogmáticos e nem se prenderem a nada, conseguem a liberdade do espírito. Esses filósofos do futuro seriam eles próprios os seus criadores, estando, por isso, além do bem e do mal, esse vício dualístico da “moralina cristã” .”
Portanto, estar além do bem e do mal é criar e nada temer; é soltar as amarras, porque a liberdade é galardão maior que todos os tesouros extra-mundanos da decadente moral cristã.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

ROSENFIELD - UM DEFENSOR DE NOSSAS "LIBERDADES"

O artigo que passo a transcrever é de autoria do filósofo brasileiro Denis Rosenfield. Faço-o porque considero importantíssimo divulgar o pensamento de um "sóbrio" defensor de nossas "liberdades", atento ao que o Estado não só pretende fazer, como faz, conosco, supondo-nos e colocando-nos na posição de "incapazes" - isto é, incapazes de agir e cuidar de nossa própria liberdade (caso ela exista).

O SEQUESTRO DAS LIBERDADES
Denis Lerrer Rosenfield - O Estado de S.Paulo

A liberdade é conquistada a duras penas. Sua perda pode ser relativamente rápida, mesmo imperceptível. Lutas políticas e civis se estruturam segundo suas diferentes acepções, que terminam por ser bandeiras que, com dificuldades, são levadas adiante. Frequentemente essas diferentes acepções são objeto de disputas acirradas, podendo até mesmo perverter a essência mesma do que seja a liberdade.

A liberdade é dita diferentemente segundo os interlocutores, os contextos e as definições. A rigor, caberia falar de liberdades, nas quais entram em linha de consideração a liberdade de empreender, a liberdade de escolha, a liberdade de pensamento e expressão, a liberdade da pesquisa científica, a liberdade de ir e vir, a liberdade de organização sindical e política, a liberdade religiosa e a liberdade de escolha dos dirigentes e representantes políticos.

A questão, porém, reside em que pode ocorrer um sequestro progressivo de certas acepções, outras permanecendo aparentemente intactas, até que outro sequestro reduza ainda mais o seu espectro. Tomemos a liberdade de imprensa e de expressão. O Estadão, pasmem, continua sob censura, configurando uma situação "normal", como se essa "anormalidade" fosse minimamente aceitável. O governo recuou, diante da pressão dos meios de comunicação, das medidas mais liberticidas de seu Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) em relação à imprensa e à mídia em geral. Para esse setor empresarial, as coisas aparentemente voltaram ao normal.

O problema, contudo, consiste em que se trata de uma simples aparência, pois sob a cobertura eufemística de "direitos humanos" outras medidas atentatórias às liberdades continuam constando em seus outros 500 itens e propostas. Pense-se, por exemplo, nos ditos "conselhos ambientais", que deveriam ser necessariamente consultados para a criação e ampliação de uma empresa em geral ? siderúrgica, de construção, de mineração, entre outras. Trata-se, sob a cobertura do politicamente correto, de propor a criação de "conselhos sindicais", "sovietes", para utilizar a linguagem russa, que passariam a ter ingerência na vida mesma das empresas, cerceando a liberdade de empreender.

A confusão de acepções chega a ser de tal monta que o próprio sentido da democracia é deturpado em função de um linguajar baseado numa doutrina "superior" dos direitos humanos. Assim, a democracia representativa se torna a bola da vez, com propostas de sua substituição progressiva pela democracia dita participativa. A linguagem utilizada é a da busca de uma sociedade mais justa e solidária. No entanto, quando vem à tona o significado dessas novas palavras, surgem as verdadeiras definições, como se a verdadeira sociedade justa e solidária fosse a que nasceria da destruição do capitalismo, definido como fonte de todos os males. Mais concretamente, a sociedade "justa e solidária" vem a ser identificada às propostas comunistas e socialistas dos irmãos Castro e de Hugo Chávez. Este último chegou até a ser defendido por nossos governantes como um verdadeiro democrata. Liberticidas são apresentados como libertários.

Há, também, toda uma campanha em curso que defende maior ingerência do Estado na vida dos cidadãos, cerceando a sua liberdade de escolha. Aqui, o sequestro da liberdade é dito ser feito em nome da saúde do cidadão, como se este fosse incapaz de discriminar por si mesmo aquilo que lhe convém ou não. O prazer, em particular, faz parte da escolha individual, não devendo o Estado ingerir num domínio que deveria estar ao abrigo de qualquer intervenção externa. O ato de regular os direitos individuais a partir dos direitos dos outros não pode ser confundido com uma ação administrativa estatal que se apresenta como a representação da virtude. O que não cabe é o indivíduo simplesmente receber uma imposição, dita do "bem", do que lhe deveria convir. A própria noção de prazer ? isso cada um sabe de sua própria experiência de vida ? tem os mais diferentes significados, podendo estar associada também à dor. Já Freud tinha concebido a indissociabilidade entre as pulsões de vida e morte. Cada um tem o direito de escolha de seu próprio corpo, de suas formas de expressão e de satisfação.

A liberdade de expressão e de empreender é vista igualmente com desconfiança a propósito da publicidade, como se essa atividade devesse ser cada vez mais controlada, retirando de sua alçada uma série de produtos considerados como "nocivos". Segundo essa concepção, o Estado é que determinaria o que seria tido por nocivo ou não para os cidadãos. A questão é de monta por estar baseada na confusão entre "influenciar" e "determinar". A rigor, a publicidade "influencia" o cidadão, não retirando deste sua capacidade de livre escolha. Ao contrário, ela a pressupõe. Posso comprar ou não um produto que me é apresentado publicitariamente. Daí não se segue que o cidadão seja completamente determinado, como se fosse um robô manipulável, desprovido de livre-arbítrio.

Causa espanto, também, que propostas ditas inovadoras de um "Brasil do século 21" estejam baseadas em posições retrógradas, avessas à liberdade de conhecimento e de pesquisa. Fala-se um pouco menos, neste período eleitoral, dos enormes problemas enfrentados pela CTNBio a propósito da pesquisa com transgênicos e da liberalização de sua comercialização. Até ainda recentemente, o dito "princípio da precaução" era identificado com o "princípio do imobilismo", na verdade, o princípio de restrição da própria pesquisa científica.

A liberdade de pesquisa foi conquistada após longos esforços, que perpassaram vários séculos, tornando as universidades lugares de realização das liberdades. Algumas ditas "novidades" são, agora, apresentadas como se estivéssemos diante de uma nova postura ante o mundo, quando são propostas de volta a um mundo anterior à conquista dessas liberdades.

PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS. E-MAIL: DENISROSENFIELD@TERRA.COM.BR

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

UMA EXPERIÊNCIA EM SALA DE AULA

O SENHOR É ATEU?
Por Jaya Hari Das*


Minha experiência até o ano passado como professor de inglês me dizia que eu já sabia muito sobre uma sala de aula, dando aulas para alunos de cursos específico do idioma e outros do ensino médio. A relação entre mim e meus alunos sempre foi boa e a receptividade deles na primeira aula pode ser considerada dentro do esperado. Mas, no início do ano passado, comecei a dar aulas de Filosofia numa escola pública de ensino médio. Um novo desafio – nada de ensinar a conjugar to be e to do, ou meter a língua entre os dentes para pronunciar o difícil “th” inglês. Agora eu teria de “mexer” com as cabeças daqueles jovens recém-apresentados à disciplina, apresentar a eles aqueles “gregos esquisitos”, despertar neles a tal da “atitude filosófica”, o senso crítico, um olhar diferente do mundo. Assim, logo na minha primeira aula, achei conveniente saber o que eles pensavam sobre a Filosofia e quais suas expectativas para a disciplina.

Estudantes são “criaturas barulhentas”, mas se o professor lhes faz um questionamento, mesmo deixando-os à vontade para dizer o que bem entenderem, eles fazem um silêncio angustiante. É preciso convocá-los, provocá-los, escolher alguém entre eles, receber um monte de “eu, não!”, até que um deles resolve falar. E foi assim que um deles falou: “O senhor é ateu?”.

Juro que não contava com aquela pergunta. Uma pergunta difícil de ser respondida, sobretudo para aqueles com os quais você conviverá por todo o ano letivo, tentando ser simpático, para que sua disciplina seja bem-aceita e seu dever como professor seja cumprido, ao menos, de maneira “razoável”. Tive de ser ágil o suficiente para não dar a impressão de que fora posto em “cheque- mate” por um aluno do ensino médio, logo na minha estreia.Sem querer, aquele aluno me deu a grande oportunidade de criar, ao mesmo tempo, um chavão e uma metodologia de ensino para minha nova disciplina. Foi, sem dúvida, Sócrates, o grego, quem me acudiu naquela tarde calorenta de início de maio. Fui em direção ao aluno que fizera a pergunta e, sob os olhares apreensivos de seus colegas, diante da “ousadia” do perguntador, cheguei bem perto dele e perguntei: “O que significa ‘ser ateu’ pra você?”.

É claro que ele não me respondeu, mas também não retrucou que eu estava tentando fugir à sua pergunta. Isso, no entanto, foi o suficiente para começar aquela aula inaugural. E, como disse anteriormente, orientou todo o meu trabalho na disciplina de Filosofia, pelo menos para aquele ano. Esse fato que se passou tal qual acabo de relatar, numa experiência real em sala de aula, prova que a Filosofia como disciplina pode ser tão fascinante e prática quanto é em seu sentido mais originário. Existem muitas possibilidades de se ensinar Filosofia, vivenciando seus elementos mais estruturais e básicos: a dialética, a maiêutica, a crítica e até o ceticismo.

A cada início de aula, eu convocava meus alunos a serem “sem-vergonhas”. Provocava-os a falar e a perguntar, sentenciando que “só os ignorantes” são “envergonhados”, por isso não ousam saber, e que, ao mesmo tempo, são “desavergonhados” por não terem vergonha da própria ignorância e imbecilidade em que se acomodaram. Disse a eles que só se pode responder bem a uma pergunta, não quando se sabe a resposta, mas quando se conhece bem “aquilo” sobre o que ela pergunta. Ensinei-lhes que é fácil “crer”, pois é uma atitude “negativa”, “passiva”, que não necessita de esforço, porém, “saber”, por ser uma atitude “positiva”, “ativa”, resultante da vontade, é a atitude daqueles que conhecem a “fé” pelo seu lado “prático”, e que, só assim, fé e conhecimento podem caminhar juntos, como a Filosofia (que sempre foi uma espécie de “advogado do diabo”) tem caminhado com a Ciência e a Religião, sempre aparando as arestas do absurdo.


*Jaya Hari Das é Filósofo e Fundador do Moficushinth – Movimento Filosófico “Cura do ser humano integral” – Terapia Hari.
E-mail: moficushinth@yahoo.com.br
Blog: http://terapiahari.blogspot.com
Twitter: jayaharidas