quarta-feira, 13 de julho de 2011

MINHA MONOGRAFIA (Parte II)

A MORTE DE DEUS - UM EVANGELHO PARA ESPÍRITOS LIVRES


2 NIETZSCHE: UM HOMEM, UM LOUCO – PURA DINAMITE

O século XIX teve o privilégio de ver nascer em um de seus dias um dos seres humanos mais controversos da história da humanidade e, curiosamente, um dos raros exemplos de sinceridade, determinação e amor à vida. A 15 de outubro de 1844, nascia no vilarejo de Röcken, na antiga Prússia, o menino que, anos mais tarde, abalaria os alicerces da moral, da cultural e da religião do ocidente – o pequeno Frederico – mas para o mundo inteiro, Nietzsche, o homem-dinamite.
Apesar de ser palco para a existência de Friedrich Wilhelm Nietzsche, o século XIX, no entanto, foi um campo inglório para um lutador pertinaz, e esse fato faria com que o próprio Nietzsche se intitulasse um “extemporâneo” – um homem fora de seu tempo, nascido póstumo ou predestinado ao amanhã. Na verdade, Nietzsche vivia para além de seu tempo, sua filosofia não soava bem aos ouvidos dos seus contemporâneos e, principalmente, a seus compatriotas, os alemães – contra os quais não poupará artilharia (Lutero, Kant, Schopenhauer e Wagner são alguns de seus alvos prediletos). A filosofia nietzscheana chegara cedo demais, antes do alvorecer dos “espíritos livres”. Não obstante, Nietzsche sempre escrevera e se pronunciara em suas obras como “nós, os espíritos livres”, vislumbrando no horizonte da humanidade esses seres superiores, vaticinando um novo alvorecer para uma nova, livre, humanidade.
A trajetória de Friedrich W. Nietzsche, ao longo dos seus 56 anos de vida, tem peculiaridades que dificilmente alguém acreditaria, não fossem as fontes fidedignas dos relatos a seu respeito. Filho e neto de pastores luteranos, com todas as probabilidades de se tornar mais um, pois já em sua infância fora apelidado de “pastorzinho” pelos colegas de escola, que testemunhavam seu ar austero de pequeno pregador, contraditoriamente, Nietzsche despontaria mais tarde como o maior opositor tanto da moral quanto da crença cristãs, fundamentando todo o seu levante contra o cristianismo em uma única declaração: “Deus está morto!”.
Com sua máxima, Nietzsche pouco se importa de ser acusado de blasfêmia – essas palavras do dicionário da moralidade cristã não surtem efeito nele. Se o critério é a moral cristã, então Nietzsche deve ser considerado “amoral” – e essa sim é uma acusação que lhe soa bem!
O filósofo, com sua declaração, não pretende matar nenhum deus, nenhuma divindade religiosa, nenhum ser supremo criador de todas as coisas. O que ele quer realmente é desbaratar essa invenção da fraqueza humana, esse ser metafísico criado na mente humana para se arvorar em juiz e caluniador das ações dos homens, esse dedo, teso, leviano, que nos imputa culpa ainda no berço da inocência, que não espera nem mesmo uma primeira ação e brada, antes de tudo, “tu és fruto do pecado!”.
Nietzsche denuncia que a busca (patológica) por um fundamento de si mesmo – um “explicar-se no mundo” – levou o homem, não exatamente a um “religare”, uma religião, e sim a uma decadência, a uma perda de auto-estima, à humilhação de si mesmo.

“Eis uma história lamentável: o homem busca um princípio no qual possa apoiar-se para desprezar o homem – inventa um mundo para poder caluniar e poluir este mundo: realmente estende sempre sua mão em direção do nada, e desse nada constrói “Deus”, a “verdade”, e por todas as maneiras, juiz e condenador deste ser...” (Nietzsche 2004, p. 231).

Após inventar um “Deus” que justificasse a existência, o homem inventou também uma “verdade”, um “destino supremo”, uma “salvação” – salvar-se a qualquer custo do medo do próprio destino. Todas essas invenções mirabolantes, para o filósofo, são frutos do pior tipo de covardia:
“(...) muitas vezes a submissão à vontade de Deus, e a humildade, nada mais são que o manto lançado sobre a covardia que sentimos no momento de afrontar com bravura o nosso destino”

(NIETZSCHE, 2004, p. 231).

A criança arredia, de difícil convívio social, porém imensamente dedicada à leitura e aos estudos, cresceu apreciando música e poesia de boa qualidade, estudou latim, hebreu e teologia, além de botânica, geologia e astronomia. Especializou-se em filologia clássica e, só veio a interessar-se por Filosofia, após ler “O mundo como vontade e representação”, de Arthur Schopenhauer (1788 – 1860). Aos 24 anos, foi nomeado professor de filologia clássica, na universidade da Basiléia. Dava cursos e palestras. Era apaixonado pela antiga Grécia – sua arte, sobretudo a tragédia, seu modo de vida, os homens e os deuses gregos. Se há um deus, então que seja Dioniso, o deus da exuberância, da desordem e da música. Até a Grécia, a pátria da beleza, foi corrompida. A “razão tirânica”, a dialética socrática roubou a beleza grega, e a “Tragédia” conheceu sua própria tragédia. Nietzsche fez críticas ferrenhas à música e à arte modernas, que para ele eram a própria expressão da decadência.
O que há de mais chocante, porém, na vida do homem Nietzsche, é seu constante estado doentio, iniciado por volta do ano de 1873 – dores de cabeça, dificuldades na fala, perturbações oculares, insônias, problemas estomacais. Apesar dos vários tratamentos a que se submeteu, sua saúde tornava-se cada vez mais deplorável, culminando com a loucura e, anos mais tarde, a morte, a 25 de agosto de 1900.
A despeito de todo sofrimento, o filósofo demonstrou, heroicamente, profundo amor à vida, nunca se deixando abater, e por que não dizer?, fazendo da adversidade sua razão de viver. Amor fati, amor ao destino, foi seu lema de resistência. O que há de contraditório em sua filosofia é exatamente o que a fundamenta: derrubar todos os valores, todos os ídolos, e ao mesmo tempo criar outros valores, fiéis ao sentido da terra e à natureza do homem e anunciar o super-homem; desconstruir a morada do Deus cristão e os alicerces de toda a moralidade de cunho religioso, para inaugurar ali um imenso salão, onde homens e deuses possam, finalmente, viver e dançar juntos. Nietzsche acreditaria somente num Deus que soubesse dançar: “Agora, estou leve; agora, vôo, vejo-me debaixo de mim mesmo; agora,um deus dança dentro de mim”
A crítica nietzscheana ao cristianismo não é leviana nem infundada, pois o filósofo sempre se baseia em evidências e perspectivas históricas, tanto da humanidade quanto do próprio cristianismo. A antiga Grécia e a moderna Alemanha são para Nietzsche provas incontestes de como Sócrates e Platão deturparam a beleza grega e, posteriormente, como o cristianismo alquebrou as forças dos povos bárbaros germânicos. A vida foi posta a grilhões e o homem transformado em réu e carrasco de si mesmo.
Também é infundada a acusação de revanchismo às adversidades de sua existência. Nietzsche não se prendeu unicamente a um anticristianismo, foi também antigermânico, demonstrando como o povo e a cultura alemães enfraqueceram a virilidade dos povos bárbaros da Europa e entre seus expoentes estão aqueles que mais reforçaram a filosofia e a moral cristãs.
Não nada em toda a filosofia nietzscheana que não traga, concomitantemente, o peso da abordagem histórica e psicológica. O filósofo jamais se deixou levar por lucubrações metafísicas ou fantasiosas de qualquer gênero. Sua linguagem é poética, porém agressiva; muitas vezes ela é bíblica, denunciando sua religiosidade mundana. Seu amor pelo sentido da Terra só lhe permitira uma idéia extravagante: a do super-homem - “O homem é algo que deve ser superado”, “o homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre um abismo”, assim falou Nietzsche.

- Este trabalho continuará em próximas edições. Aguardem!!!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

POEMA DE GOETHE

Goethe, um dos homens mais inteligentes que a Humanidade já produziu, escreveu este belíssimo poema e muitos outros, e sua obra influenciou pensadores de todos os estilos e tempos.
A reflexão deste poema certamente iluminará as trevas dos corações que, ainda iludidos, crêem em deuses ou em um Deus que possa consolá-los, neste mundo ou noutro.

PROMETEU

Encobre, ó Zeus!
o céu com suas nuvens.
E como o jovem
que gosta de colher
cardos no campo, em teu poder conserva
o robusto carvalho e o alto cume
da espaçosa montanha.
Mas consente que eu use
essa terra que é minha,
esse abrigo que eu fiz,
e esta forja que quando faço arder,
tu, no Olimpo, me invejas.

Nada mais pobre eu conheci, ó deuses
do que vós próprios.
Apenas vos nutris
de sacrifícios
e de preces,
dedicados a vossa majestade.
Morreríeis de fome se não fossem
as crianças, os loucos, os mendigos
que vivem de ilusões.

Quando eu era menino
e nada conhecia,
ao sol se erguiam meus sentidos olhos
como se lá houvessem
ouvidos que escutassem meus lamentos,
e um coração tivesse igual ao meu
capaz de consolar a minha angústia.

E quem contra insolência
da turba dos titãs me auxiliou?
Quem me salvou da morte
e me impediu a escravidão?
Não foste tu meu coração somente
ardendo numa chama inextinguível?
Jovem e ingênuo eu tudo agradecia
àquele que no céu
dorme na ociosidade.

Como prestar-te honra? Mas por que?
Deste jamais alívio
aos oprimidos?
Já enxugaste as lágrimas
dos que são infelizes?

Formei um homem,
mas um homem afinal que só se curva
perante o Tempo e o Fado
que são tão meus senhores como teus.

Pensaste tu talvez
que poderia desprezar a vida
e ao deserto fugir
porque nem todos
os meus sonhos floriram?

Aqui estou.
Homens faço segundo a minha imagem,
Homens que serão logo iguais a mim.
Divertem-se e padecem,
gozam e choram
mas não se renderão aos poderosos
como também eu nunca me rendi!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A MORTE DE DEUS - UM EVANGELHO PARA ESPÍRITOS LIVRES

MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DE CURSO

A partir de hoje, começo a publicar em capítulos aqui no blog minha monografia de conclusão de curso. Espero que ela possa ajudar os estudantes, principalmente os do Curso de Filosofia, a elaborar suas próprias monografias, espelhando-se na coerência com que foi planejada e escrita, além de incentivá-los a não se limitarem a temas simples e banais, somente para conseguirem sua aprovação; que eles sejam ousados (já que se pretendem filósofos) e que busquem temas polêmicos, instigantes e provocativos, embasados em pensadores que inscreveram seus nomes na História da Filosofia e continuam sendo marcos para outras perspectivas dentro de toda e qualquer sociedade.

Esta monografia, que ora lhes apresento, recebeu nota 9,0 (nove) da Banca Examinadora, em agosto de 2005, e representa para mim um orgulho, uma vez que a escrevi sozinho, sem nenhuma orientação, pois o professor que consta nos registros da Universidade (vide original desta monografia em seus arquivos) como sendo meu orientador, não cumpriu com a sua função, uma vez que: 1)NÃO ACOMPANHOU A ELABORAÇÃO DESTA MONOGRAFIA, 2) NÃO INDICOU LEITURAS, 3) NÃO FEZ RESSALVAS, COMENTÁRIOS OU ADENDOS, e, pior de tudo, 4)ABRIU OS TRABALHOS DE DEFESA DA MESMA DECLARANDO QUE ERA "CONTRÁRIO AO TEMA ESCOLHIDO".

Por essas e outras razões é que orgulho-me de ter sido aprovado, com nota expressiva, e de nunca me ter desviado do meu propósito e do meu tema, sendo fiel à boa Filosofia e ao compromisso em contribuir com minha formação para a libertação da sociedade de suas amarras culturais e religiosas, muito embora essas amarras sejam tidas como fundamentos para uma sociedade ética e justa, mas que, com o cristianismo ou mesmo sem ele, nunca foi nem seria a sociedade que homens instruídos como nós, os filósofos de todos os tempos, desejamos ou gostaríamos de fazer parte, uma vez que a Ética não pode ser construída sob a égide de desmandos religiosos e a Justiça não se estabelece sob conchavos do poder, mas tão-somente com a legitimidade da Razão, se e somente se esta também for direito e chancela da Sociedade como um todo.

Enfim, que esta monografia sirva de horizonte e mar aberto aos novíssimos filósofos, aos vindouros "espíritos livres".

MONOGRAFIA: A MORTE DE DEUS - UM EVANGELHO PARA ESPÍRITOS LIVRES

Dedico o presente trabalho a todos os “espíritos livres” que não conduzem, nem conduziram, suas vidas por preconceitos morais ou religiosos, de qualquer espécie, nem se prenderam a superstições infantis, ainda que sustentadas secularmente, e aos “extemporâneos”, em qualquer momento de sua passagem sobre esta Terra.


AGRADECIMENTOS


Ao Ser Supremo, criador de todas as coisas e bem-querente de todos os povos, de todas as raças, de todos os credos e de todas as culturas.

Aos meus filhos, luzeiros de minhas noites insones; às minhas irmãs, suporte desta empreitada; e aos “verdadeiros” amigos.

E, meus mais sinceros agradecimentos, a Denize Corrêa Mota, ex-companheira, que antes de todos incentivou e vislumbrou a realização deste momento.


RESUMO

Aqueles que podem vislumbrar uma novíssima humanidade, na qual a natureza e a vida sejam o sentido e o significado mais excelsos que se pode dar a todos os tipos de valor, e cujos conceitos morais tendem para fazer com que os homens compreendam-se como indivíduos singulares, espíritos livres, deuses entre deuses – porque são capazes de criar mundos interiores e potencialmente tornar este aqui um mundo melhor, não em favor ou pelo mando e ordem de qualquer ser metafísico transformado em Juiz Supremo (um olho que tudo vê), mas só e principalmente porque seu destino e vontade assim querem que seja; aqueles de fato compreenderão o real significado de “Deus está morto!”
Este trabalho pretende apresentar uma abordagem na qual perceba-se o quanto o cristianismo envolveu toda a Europa e Ocidente numa nuvem de obstáculos e de males, partindo da perspectiva filosófica de Friedrich Wilhelm Nietzsche, que se conduz estritamente de forma histórico-psicológica, analisando os postulados cristãos, a moral cristã, a noção do Deus único, contrapondo-se a tudo o que é natural e, conseqüentemente, opondo-se ao próprio homem.
Abordam-se, conjuntamente, os enunciados principais da filosofia nietzscheana, como: a moral de rebanho, a transvaloração de todos os valores, os espíritos livres e o advento do super-homem. A base deste trabalho são os postulados filosóficos de Friedrich Wilhelm Nietzsche. Nossa meta é alcançar “aquele novo horizonte”.

Palavras-chave: Deus – Moralidade - Espíritos livres – Cristianismo – Rebanho - Valores.
SUMMARY

Those who can foresee a brand-new mankind in which nature and life are ultimate sense and meaning that one can give to all kind of values, and whose moral concepts tend to make men comprehend themselves as singular individuals, free spirits, gods among gods – because they are able to create inner worlds, and potentially make this one a better world, not in favor or by the command and order of any metaphysical being turned into a Supreme Judge (an All-Sight-Eye), but only and mostly because their destiny and will wish to be this way – those ones will indeed understand the real significance of “God is dead!”
This work intends to present an approach on how the Christianism spread a shadow of obstacles and harm all over Europe and the Western World, according to the philosophical sight of Friedrich Wilhelm Nietzsche, whose parttern is a historical and psychologic point of view, showing that the Christian concepts, its morality and its notion of an Almighty God are against nature and man himself.
The basis for this work is fundamentally the thought of a free thinker – Friedrich Wilhelm Nietzsche – his plenty philosophy. Our aim is “that new horizon”.

Key-words: God . Morality . Free Spirits . Christianism . Herd . Values.



1 INTRODUÇÃO

A Filosofia, desde sua origem, aproximadamente 26 séculos atrás, na antiga Grécia, legou à humanidade as maiores inteligências, os maiores homens que pensaram e traçaram os rumos da História. Cosmólogos, geômetras, matemáticos, astrônomos, chefes de estado, intelectuais, doutores e professores, para ilustrar alguns, utilizaram-se e utilizam-se da Filosofia para estabelecer leis, elaborar estratégias, governar povos, divulgar suas idéias e transferir conhecimentos. Não há no conhecimento ou na atividade humana área na qual a Filosofia não seja aplicável, por necessidade ou por utilidade. De Tales de Mileto aos atuais filósofos produzidos em todo o ocidente o fio condutor comum é o profundo interesse pelo “homem”. Queremos saber “o que é o universo?”, “quem ou o que o criou?”, “qual é a nossa função e importância no mundo?” e, principalmente, “o que é isto – o homem?”
O que até aqui se sabe é que é o homem que, com sua razão, com sua observação e interpretação, dá sentido ao mundo. Esse sentido está contido no método utilizado por ele, a linguagem lógica – ou seja, esse sentido é um código comum à raça humana. Ora, perguntamos, e se esse sentido só fizer sentido para nós, seres humanos? E se a nossa interpretação do mundo só for válida dentro dessa linguagem lógica, isto é, se ela for apenas uma das perspectivas possíveis? E se... Bem, vejamos o que diria o filósofo que mais provocou esses questionamentos:
“Quando alguém esconde uma coisa atrás de um arbusto, vai procurá-la ali mesmo e a encontra, não há muito o que gabar nesse procurar e encontrar: e é assim que se passa com o procurar e encontrar da “verdade” no interior do distrito da razão. Se forjo a definição de animal mamífero e em seguida declaro, depois de inspecionar um camelo: “Vejam, um animal mamífero”, com isso decerto uma verdade é trazida à luz, mas ela é de valor limitado, quero dizer, é cabalmente antropomórfica e não contém um único ponto que seja “verdadeiro em si”, efetivo e universalmente válido, sem levar em conta o homem. O pesquisador dessas verdades procura, no fundo, apenas a metamorfose do mundo em homem, luta por um entendimento do mundo como uma coisa à semelhança do homem e conquista, no melhor dos casos, o sentimento de uma assimilação. Semelhante ao astrólogo que observava as estrelas a serviço do homem e em função de sua sorte e sofrimento, assim um tal pesquisador observa o mundo inteiro como ligado ao homem, como a imagem multiplicada de uma imagem primordial do homem. Seu procedimento consiste em tomar o homem por medida de todas as coisas: no que, porém parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente, como objetos puros diante de si. Esquece, pois, as metáforas, intuitivas de origem, como metáforas, e as toma como as coisas mesmas”.
NIETZSCHE (1991, p. 36)

Abaladas estão todas as nossas convicções, senhores! Melhor retroagirmos ao patrono da filosofia, Sócrates, e fazer coro com ele: “Só sei que nada sei!”. Talvez seja válido dizer aqui que o homem sabe muito do que “quer” saber e pouco do que “deve” saber. Porque ele transforma o sentido do mundo em verdade, ele categoriza as coisas, os seres e os eventos, ele sintetiza idéias e formula leis dentro da linguagem e do método que só diz respeito a ele próprio. Ele é senhor do universo somente no domínio da “Razão”, ele é agente fazedor da história e da cultura, mas está sujeito às intempéries da “vida”. A certeza é uma estaca que fincamos, para nos segurar, em um chão que não estava ali. Blaise Pascal (1623 – 1662) propõe a seguinte situação: “Se um trabalhador manual tivesse certeza de sonhar cada noite, doze horas a fio, que é rei, acredito que seria tão feliz quanto um rei que todas as noites durante doze horas sonhasse que é um trabalhador manual”. Moral da estória: se o sonho for a realidade, a realidade não será uma espécie de sonho?
Voltando aos gregos, chegamos a Platão e seu mundo das idéias – aqui, tudo não passa de aparências, lá, tudo é real. Que lugar é esse “lá”, que o intelecto do filósofo grego captou e considerou de sua obrigação comunicar aos seus contemporâneos? Por que, desde então devemos concluir que o tangível é apenas o fenômeno, o que se mostra, de uma essência real intangível? Sejam quais forem as respostas, o fato é que esse pensamento platônico fundou uma Escola filosófica, avançou no tempo, apoderou-se de outras mentes e finalmente foi tragado pelo Cristianismo para fundamentar sua filosofia e sua moral posteriormente.
É desse pormenor exatamente que este trabalho se ocupa. O senhor Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 -1900) extenuará sua obra integralmente em tentar demonstrar o quanto a religião ocidental, a fé cristã, se apoderou desse pensamento platônico, para cometer os maiores delitos contra o homem, a natureza e a vida na Terra. Fundamentando-se numa metafísica religiosa, ou seja, em mundos, seres, conceitos e idéias que não são encontrados neste mundo, inventou um Deus-juiz, um pecado original, um sacrifício divino, uma remissão das faltas, um castigo eterno, um reino dos céus e um inferno. Segundo Nietzsche, como pretendemos deixar claro aqui, foi alquebrando nossa força, tirando nossa “vontade de potência”, negando a vida na Terra, deturpando a inocência da natureza e prometendo extra-mundos que o cristianismo disseminou por toda a Europa e todo Ocidente sua cultura, sua ética, as quais só serviriam ao homem de condenação e entrave. Inventou um livre arbítrio para um falso sentido de liberdade para eximir seu Deus da culpa de todos os erros encontrados no mundo. A partir desse postulado – o livre arbítrio – tudo que o homem realiza corretamente é fruto de sua retidão para com Deus ou da graça incondicional deste; e tudo o que o homem comete de erro é de sua própria e máxima culpa, por ter se afastado dos mandamentos desse mesmo Deus.
Nietzsche combaterá essa forma injusta e desumana de julgar a humanidade e procurará deixar evidente como o intelecto, raciocinando a partir de um erro - qual seja, o de que no metafísico se encontra a verdade e de que o fenômeno é distorção, erro ou ilusão – deu vazão a uma cultura contra o próprio homem e uma moralidade que fere a natureza e a vida.

O presente trabalho procurará levantar os principais postulados da filosofia nietzscheana - a saber: a morte do Deus cristão, a moral de rebanho, o advento do super-homem, a humanidade como nação dos espíritos livres e os conceitos de bem e mal sob as perspectivas de novíssimos valores. As obras do filósofo alemão que aqui serão trabalhadas para a nossa documentação serão: “A Gaia Ciência”, “Assim Falou Zaratustra”, “Para Além do Bem e do Mal”, O Anticristo” e “Vontade de Potência”. Faremos referências a outros filósofos como Schopenhauer e Kant, e comentadores da obra de Nietzsche. Temos por objetivo elucidar um pensamento autêntico, que, devido à polêmica que causou e ainda causa, foi relegado em sua época e, mesmo hoje, é alvo do preconceito e da incompreensão por parte de muitos que inocentemente, é preciso dizer, se deixaram apanhar pelas teias dessa aranha chamada moral cristã.
Seremos nós, autores deste trabalho, também alvo de “olhares” não muito amistosos – já o sentimos. Mas, lembrando as palavras daquele que justifica essa nova verdade revelada, ousamos dizer: “Peço-vos perdão, meus amigos: tive a audácia de rabiscar minha felicidade na parede”. Nietzsche, in A Gaia Ciência.

*** Esta publicação será continuado em breve, aguarde!

sábado, 2 de julho de 2011

DEUS, NÃO! DESUMANO!

DESUMANO, DEMASIADO DESUMANO


Ontem à tarde, meu amigo de infância, José Henrique Cordeiro Mendonça (Zeca para os íntimos), 46 anos de idade, casado, dois filhos, engenheiro civil e matemático, faleceu após 27 dias internado, sendo ontem o 17º dia na UTI de um hospital daqui de São Luís do Maranhão.

A morte do meu amigo nada tem de extraordinário ou especial diante de tantas mortes que acontecem todos os dias, em todos os lugares do mundo, que abalam, chocam e entristecem aqueles que ficam - parentes e bem-querentes dos que partem. A morte é sempre “a morte”, destino de todos, portanto, já deveríamos estar acostumados - mas não estamos!

O objetivo do presente artigo não é tratar sobre a morte, seja a dos entes queridos, seja a dos desconhecidos, mundo afora. Este artigo é um desabafo, uma denúncia, um manifesto contra a mentira que se perpetua há séculos, contra a superstição que domina o coração e a razão de pessoas que, desenganadas ou desesperançadas, elevam seus desenganos ao "supremo engano", alçam suas desesperanças ao "supremo desespero" - numa palavra, à "mentira suprema". Elas perderam o que tinham e agora, em desatino, clamam a um “ser que não existe”, e que jamais existiu. Um Deus bom e misericordioso, pronto a ouvir seus lamentos, suas súplicas e a atender suas orações - produzido não do "barro", mas de toneladas de "algodão-doce".

Não importa que religiões inteiras venerem seu nome e propaguem suas glórias. Seu próprio nome (seja lá como o chamem nas diversas "mães da mentira", as religiões) e sua suposta “glória” são e sempre foram fruto de mentes doentias, alquebrantadas, sofridas, desesperadas, fracas, psicóticas, para não dizer obscenas. Basta ver o que fazem os denominados "fiéis". Não enxergam a realidade que se passa a sua volta. Bem ao contrário, põem suas vidas a serviço do "nada supremo", à deriva no mar da existência, na vã esperança do "triunfante amanhã" (que jamais virá!).

Essa gente religiosa e seus sacerdotes deviam se envergonhar de suas pregações, de suas orações, de seus joelhos dobrados e de todas as veleidades que praticam em nome do “NADA SAGRADO”, do inexistente, desse corruptor de vidas, desse demônio mental – "o Deus-mentira”.

Toda essa gente tola, fraca de consciência e de razão, acredita que suas preces, súplicas e orações são ouvidas e atendidas por um "Deus bom e misericordioso", mas, ao fim das contas, precisam encarar a realidade cruel dos fatos: "o cretino sagrado não está lá". Ainda que passem horas, dias, noites, orando por seus entes queridos, pedindo ao seu Deus-mentira para curar seu filho ou filha, pai ou mãe, amado ou amada, amigo ou amiga, a resposta que ouvirão será sempre mais débil e desoladora do que o eco produzido pela própria voz dentro das cavernas ou no alto das montanhas. No entanto, apesar de todas as evidências em contrário, com total falta de vergonha e de escrúpulos, tentarão convencer os outros e a si mesmas que não importa o resultado de suas orações, pois cumpriu-se “a vontade de Deus e não a nossa”. A isso chamam "resignar-se e manter-se na fé". Amém!: eis a palavra mais mentirosa e desavergonhada que se pode ouvir. Essa gente lota igrejas, mesquitas, templos, sinagogas – antros da mentira, moradas do desespero e da falsidade, altares dos demônios mais perniciosos que uma mente insana pode conceber, e, supondo estarem salvando suas almas, entregam suas vidas, seus bens e sua coragem ao "desumanizador Deus" - a mentira de muitos e muitos séculos!

Serei um soldado aguerrido em combate contra esse Deus-mentira e seus seguidores, esse exército de vulgares, essa multidão de incapazes, essa legião de santos vivos (apesar de mortos para a razão e para a sapiência). Combater esse trono da mentira é para mim tão salutar quanto buscar o meu pão-de-cada-dia, por isso, declaro guerra ao Pai de toda essa doença sagrada, divina, religiosa. Não combato "o inexistente", pois o inexistente encarnou-se nos "existentes", combato esses "desumanizados" - esses que, para criar e amar seu "ídolo desumano" (sua versão do "bezerro de ouro"), lançaram seu ódio contra a espécie humana e puseram sobre ela o estigma da culpa.

Sei que alguns deles dirão: "ele está revoltado com a morte de seu amigo e pensa que Deus é o culpado". Eu, porém, replicarei: "Não, seus cretinos, não é a perda de "um" amigo que me fez combatente dos pregadores da mentira, é a certeza de que, agindo desse modo, me mantenho fiel à Terra e não a quimeras, brindarei um dia, com toda a raça humana, a vitória sobre os "muitos-demais"".

terça-feira, 28 de junho de 2011

AS VANTAGENS EM SE PUBLICAR ARTIGOS

Por que publicar artigos?*


Você escreveu um artigo profissional e de qualidade. E agora? vai querer que ele "junte poeira" ou que alcance apenas um ou dois clientes potenciais? Na certa a resposta é não... A publicação de seus artigos, seja em periódicos, seja em sites da Internet, ajuda muito a divulgar o seu trabalho como escritor, seja de qual área for, alcançando milhares de usuários sedentos por informação e conteúdo para os seus sites.
A publicação de seus artigos faz com que você compartilhe seu conhecimento, ganhe reconhecimento e muitas outras vantagens, como publicidade. O autor pode incluir seus dados de contato e ter um link para o seu site. Isso significa publicidade gratuita para o seu negócio e/ou seu site. Além do mais, seu artigo provavelmente será lido por pessoas interessadas no assunto sobre o qual você escreveu. Isto é, pessoas que provavelmente se interessarão pelos serviços que você tem a oferecer.
No caso da Internet, quando você publica seu artigo em um diretório, ele pode vir a aparecer em muitos outros sites ao mesmo tempo. Isto acontece graças à tecnologia RSS. RSS permite que sites publiquem os seus artigos. Alguns sites, após receber o artigo, irão repassá-lo para outro site, e assim em diante. Em pouco tempo seu artigo pode ser publicado em centenas de sites sem nenhum esforço de sua parte. Publicar seus artigos aumenta sua credibilidade pessoal e profissional, pois inicia um ciclo da confiança com seus leitores. Através de seus artigos seus leitores percebem seu nível de profissionalismo e tem uma melhor impressão de você. Ao distribuir seus artigos pela internet, você traz tráfego ao seu site de várias áreas diferentes. Imagine, por exemplo, que seu artigo é sobre tecnologia mas acaba sendo publicado em um diretório de artigos de negócios e sendo lido por executivos que poderão autorizar a compra de seus produtos para a própria empresa. Seu artigo pode ser um exemplo do seu negócio e pode incluir informações como seu e-mail ou endereço, permitindo que clientes potenciais possam entrar em contacto. Certifique-se apenas que seu artigo está bem escrito e não soa muito comercial. De forma potencial você pode divulgar seu site/negócio e aumentar sua reputação online.
Eu, por exemplo, só este ano, tenho três artigos publicados em revistas nacionais e três no site do Artigonal. Já estão programadas, pelo menos, mais 4 publicações até o final do ano em revistas, como Conhecimento Prático Filosofia (Editora Escala), Filosofia (Mythos Editora) e Sexto Sentido (Mythos Editora), além de outros que ainda publicarei no Artigonal.
A importância de ter um artigo publicado não se resume, nem deve se resumir, a meramente "ganhar dinheiro". Publicando seu artigo, você transmite seus conhecimentos, gera informação, dá visibilidade a seu trabalho, além de usufruir de uma satisfação ímpar de se ver publicado e divulgado.
O reconhecimento virá tão logo o seu público-alvo comece a responder às suas publicações e indicar seus textos a outras pessoas, assim como a partir da procura de outras editoras por seu trabalho.

* Este texto foi adaptado do original que se encontra no site www.artigonal.com do qual sou colaborador.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

NIETZSCHE EM FOCO

Por que Nietzsche não é cristão?
Por Gerson Nei Lemos Schulz*




Friedrich Nietzsche (1844-1900) ainda hoje é um autor que chama a atenção de muitos leitores. Seja porque Foucault, Heidegger ou Sartre o tenham citado amplamente, seja porque tantos outros o chamaram de maldito (em relação à sua herança: as críticas à religião cristã). Ou ainda por causa das deturpações que sua irmã, Elisabeth Nietzsche, promoveu em suas obras; especialmente em Vontade de Potência, para agradar Adolf Hitler e os nazistas e se promover na década de 1930.

Nietzsche escreveu sobre arte (literatura e música), moral e ética, religião, antropologia, teoria do conhecimento e também é autor de um romance losó co, o Assim falou Zaratustra. A di culdade para ler Nietzsche está no fato de, além das traduções do alemão para o português nem sempre serem éis, ele não separar tais assuntos em obras sistematizadas (por exemplo, Kant - 1724/1804 - o fez), mas aqueles que querem escutar Nietzsche por meio de suas obras devem executar verdadeiro trabalho de pesquisador atento, pois são muitos os jogos de linguagem que ele usa, os trocadilhos e ironias, interjeições etc.

Mas Nietzsche era um lósofo do porvir, como gostava de salientar, e isso porque talvez, mais do que um a Feuerbach (1804-1872) ou um Schopenhauer (1788-1860), tenha vivido na própria carne seu tempo e as mazelas da Europa de m de século com a Guerra Franco-Prussiana, que abalou as bases culturais do continente.

Enquanto Feuerbach desmisti cava o cristianismo (em sua A essência do cristianismo) e Schopenhauer losofava racionalmente (aos moldes ocidentais em O mundo como vontade e como representação) sobre a ideia oriental budista da a ascese, e fazia avançar o pensamento humano para considerar a existência da possibilidade de uma "vontade cega" que guia o universo, concluindo, com isso, que não há sentido último no universo, que o mundo não está aí para o homem se deleitar com seus frutos (ao contrário, tudo está aí por mero acidente), não há planejamento, não há deuses por trás das coisas, o homem, grosso modo, para Schopenhauer, também é um acaso da "vontade cega" que comanda o universo.



FEUERBACH
Teólogo, filósofo e antropólogo nascido em Landshut, no atual território da Alemanha, Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872) foi um pensador humanista que se destacou por suas obras em que abordou a religiosidade, como A essência do cristianismo. Considerado um dos "jovens hegelianos", a filosofia de Feuerbach exerceu influência na obra de Karl Marx, que analisou a contribuição feuerbachiana no livro A ideologia alemã.



NIETZSCHE E AS CRÍTICAS AO CRISTIANISMO

Nietzsche não é o primeiro autor moderno a criticar a religião cristã. Feuerbach, Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895) já o tinham feito. Feuerbach mostra que foi o homem quem criou "deus" e não o contrário, e isso se deu quando o homem projetou em um ser imaginário tudo aquilo que desejava ter: imortalidade, sabedoria, onipresença, onipotência e onisciência.

Marx mostrou que são as condições econômicas e materiais que condicionam as ideias do ser humano e que eles estão atrelados a seu horizonte histórico. Além disso, a sociedade, para Marx, é constituída pela luta de classes (que é o motor da história), sendo assim há uma luta entre proprietários dos meios de produção (burgueses) e operários (proletários), estes últimos são espoliados pelos patrões, que se bene ciam deles pela mais-valia (o lucro que o trabalhador produz e que vai para o bolso do patrão); logo Marx advoga pelo m dessa luta, ou seja, a abolição das classes sociais, o socialismo. Isso para que todos tenham acesso às benesses da vida moderna (e não apenas alguns poucos que podem pagar por isso). Consequentemente, Marx a rma que a religião também desapareceria, pois "Deus" não passa de uma criação do homem para justi car a vida de sofrimentos que tem na Terra (com ideias como pecado e redenção ou sofrimento e recompensa no além).

Mas aí surge Nietzsche com outro foco crítico contra a doutrina cristã, a moral e sua gênese. E é para entender isso que não se poderia inescrupulosamente apresentar o autor sem seu contexto histórico e sem aqueles que o antecederam. Da mesma forma como é importante avisar àqueles que tomam primeiro contato com Nietzsche e suas polêmicas declarações de que ele não con ita apenas uma das igrejas cristãs, mas todas.

CONTRAPOSIÇÃO: A ÉTICA CRISTÃ NEGA A VIDA NA TERRA

Para Nietzsche, o Ocidente, adotando a ética cristã, negou a vida real (material). Então, segundo ele, a doutrina judaico-cristã, com o conceito de "Deus castigador", moralista e juiz de homens como no Antigo Testamento, serviu apenas como um "cabresto". Jesus, com ideias como "ressurreição" e "mundo melhor" após a morte, apenas contribuiu para que todos se penitenciassem para escapar do pecado original. Mas esse pecado é impossível para Nietzsche quando ele pressupõe que o homem não tem "alma" (no sentido de algo que sobrevive após a morte) e que "Deus" não existe fora da mente humana.

O homem, então, é concebido apenas pela força da natureza e se perece com a morte. Caso isso seja verdade, infere Nietzsche que o "pecado" não passa de invenção que alimenta o medo (medo de morrer e ir para o "inferno"), medo este que é o fundamento da moral cristã. Em sua Genealogia da Moral, Nietzsche a rma que primeiramente a moral foi criada para impedir o homem de cair no niilismo e para dar explicações para a vida e seus sofrimentos. Entretanto, seu principal fator de fundamentação se constituiu no medo (NIETZSCHE, Genealogia da Moral In: Os Pensadores, p. 333). Quer dizer, o que o autor percebe de nocivo aí é que não há nenhuma relação de amor ou gratuidade com um suposto "Deus", o que há é o culto de "Deus" pelo homem porque o homem é um "covarde da vida". Teme suas mazelas e se esconde atrás de "Deus", que serve como muleta.

Nietzsche diz que é esse medo que gera a angústia diante da vida e acarreta a busca do perdão de "Deus". O problema para Nietzsche está no administrador do perdão, o sacerdote. Para Nietzsche, a lei, falando pela boca do sacerdote, transforma-se na moral vigente. Há uma máscara sobre "Deus", porque o sacerdote ganha para si o poder da lei, personi cando "Deus". E, como a lei vem de um "Deus" que precisa de intérpretes (pois os textos bíblicos são a única manifestação que o crente aceita como tal), os homens elegem o sacerdote como o intérprete de "Deus". Mas aí surge outro problema, diz Nietzsche: se "Deus" é juiz dos homens e o sacerdote (padre ou pastor cristão) é seu porta-voz, então, na realidade, é o sacerdote quem julga os homens? Sim, diz ele, porque mesmo que "Deus" exista quem dá a última palavra é o sacerdote.

Assim, o sacerdote, se é quem controla o divino (porque interpreta a lei e "sabe" o que "Deus" quer dos homens), controlando o mundo terreno e controlando as coisas da Terra, controla o comportamento das pessoas por meio da moral. Assim Nietzsche mostra como os homens se deixam aprisionar por uma metafísica, ou seja, moral cristã, que é reproduzida de geração a geração e pela qual são punidos aqueles que desejam apontar suas contradições. É por isso, conclui Nietzsche, que a moral é uma "prisão" para os homens.

Quanto ao crente (cristão), este se deixa guiar passionalmente por acreditar que o sacerdote o levará ao paraíso com a graça de "Deus". Mas, para Nietzsche, esse "Deus" (como já foi dito) é uma muleta que serve para o homem amenizar sua fraqueza carnal diante do mundo real. Logo, Nietzsche rejeita a doutrina cristã, chamando-a de "moral de rebanho". "Moral de fracos" que se unem para louvar "Deus" (o cabresto) e pedir perdão a "ele". A moral cristã que arrebanha crentes para cultuar "Deus" recruta culpados para que "ele" seja reconhecido como tal. O menosprezo pelo homem que eleva "Deus" torna-o algoz do homem. Foi por isso que Nietzsche a rmou no Anticristo: "Deus está morto".


O PROBLEMA DA MORAL CRISTÃ


O problema da moral cristã, seu maior erro, diz Nietzsche, é querer mudar o homem para algo melhor. Em outras palavras, ele quer dizer que quando Jesus instituiu sua moral, o fez em nome do "Deus-cabresto." É como se Jesus dissesse: "Obedeça-me ou o meu 'Deus' te punirá. A pergunta que surge da re exão nietzschiana é: "se perdoar signi ca apenas contentar um 'Deus' ou cumprir a lei, que valor tem o perdão?" Perdoar por esse motivo é comprar "Deus" e isso pode ser ilustrado no sacrifício que os judeus realizavam no Templo de Javeh na antiga Israel.

Para superar isso é que Nietzsche propõe uma ética a ser praticada por aqueles que têm coragem de enfrentar a vida sem se ajoelhar diante dos cabrestos. Por quem não acredita no reino dos céus nem espera recompensas no além-mundo. Nietzsche queria, sim, a abolição do cristianismo. Pode-se argumentar que a ética nietzschiana é para aqueles que se sentem grati cados com a simples felicidade do próximo. Como exercício de ilação pode-se inferir que aqueles que pensam assim perdoariam ou não de acordo com sua consciência (com o sentimento de bem-estar consigo mesmo) e não a partir dos padrões morais vigentes ou por causa da vontade da igreja ou do sacerdote e muito menos por medo do castigo divino.



ASCESE
Expressão de origem grega que significa "exercitar", a ascese, segundo o dicionário Aurélio, é um "exercício prático que leva à efetiva realização da virtude". É, pelo viés do dogma religioso, uma busca pela contenção do prazer em busca de uma virtude moral. Em livros como A ética protestante e o espírito do capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber estuda o ascetismo religioso.


Para Nietzsche, foi o ideal ascético (a vontade de se puri car) o principal motivo que levou ao surgimento da moral. Por isso ela é (aparentemente) uma autoridade superior à qual se obedece não porque ordene o que é "melhor", mas simplesmente porque ordena e questioná-la já é por si uma imoralidade. É o medo perante essa "inteligência" superior que ordena, é o medo de um poder incompreensível e impreciso de qualquer coisa que ultrapassa o individual, um medo que está impregnado de superstição, como diz em O crepúsculo dos ídolos (p. 69): "Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor é o que chamamos de moral. Porém sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes.

A domesticação do animal humano e a criação de uma espécie determinada de homens são um melhoramento e essas noções zoológicas, as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, o sacerdote, ignora e não quer saber nada a respeito. Chamar melhoramento à domesticação do animal soa aos nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Contudo, duvido muito que o animal acabou melhorando. É debilitado, é efeito menos perigoso; com um sentimento deprimente do medo, com a dor e as feridas faz-se dele um animal enfermo. O mesmo sucede ao homem domesticado, que o sacerdote tornou melhor".

Nietzsche diz que o homem era uma "caricatura", um "aborto" e que assim é que foi feito um pecador. "Estava enjaulado, fora encerrado no meio de ideias espantosas. Doente e miserável se aborrecia a si mesmo, estava repleto de ódio contra os instintos da vida, repleto de descon ança em relação a tudo que permanecia sendo forte e feliz. Em uma palavra: era cristão" (Idem).

"Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor é o que chamamos de moral. Porém, sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes. A domesticação do animal humano e a criação de uma espécie determinada de homens são um melhoramento e essas noções zoológicas as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, o sacerdote, ignora e não quer saber nada a respeito."
Aqui Nietzsche aponta alguns malefícios que a moral cristã fez ao homem em geral, enjaular o humano (o animal) e domesticá-lo foi já transformálo em algo doente e estabelecer nele valores niilistas, porque se negou uma parte de sua própria natureza para dar lugar a outra (mutilada), ao racionalismo, apenas. Pretende perguntar com isso onde está, a nal, o humano no cristão quando se comporta negando a sexualidade, o corpo, o amor como encontro com o outro (encontro até sexual). Em outras palavras, é possível perguntar: Que validade tem, a nal de contas, ser cristão se este vive ameaçado pela terrível punição de ser excluído da presença de Deus se não se comportar "bem"? Se não se enquadrar na sua "moral"? Para responder a isso, Nietzsche propõe "transvalorar" todos os valores.

A TRANSVALORAÇÃO DOS VALORES

Diz Nietzsche que o que ele exige do " lósofo é que se coloque além do bem e do mal, que ponha sob si a ilusão do juízo moral" (Anticristo, p. 69). Ainda diz que o "juízo moral tem comum com o juízo religioso o crer em realidades que não existem."

Para ele, a moral é uma interpretação de certos fenômenos, mas uma falsa interpretação: "O juízo moral pertence, como juízo religioso, a um grau de ignorância em que a noção da realidade, a distinção entre o real e o imaginário não existe, de modo que em tal grau a palavra 'verdade' serve para expressar coisas que hoje chamamos imaginação. Por isso não se deve nunca tomar ao pé da letra o juízo moral, pois entendido assim seria um contrassenso. Entretanto, como semiótica possui um valor inapreciável, pois revela ao que sabe entender, ao menos, realidades preciosas acerca das civilizações e dos gênios que não souberam o bastante para compreender a si mesmos. A moral é apenas uma linguagem de signos, uma sintomatologia, é preciso saber de antemão do que se trata para se poder tirar partido dela (Crepúsculo dos ídolos, p. 69)"

Nietzsche conclui ainda que o erro da moral está em acreditar que seus princípios são absolutos e ideais. E que seus extremos estão nos ditos homens morais. Para mudar a moral é preciso mudar a maneira de julgar ("quem disse que o bem e o mal se medem a partir do homem?", pergunta-se), e também mudar o seu modo de sentir. Por isso, ele a rma que a moral, como instituição, surgiu para tirar o homem do estado de natureza, legalizar a vida em sociedade, perpetuar os costumes e dirigir as sociedades pelas gerações como sua cultura, mas falsa cultura porque foi construída por outros homens e não por divindade alguma.

A moral imortalizou a prática religiosa na vida cotidiana, impôs a noção de culpa (ao sujeito que a transgredia) e determinou as relações comerciais e afetivas entre os cidadãos por meio dos castigos: "[...] ca aqui o esquema a que eu mesmo cheguei, com fundamento em um material relativamente pequeno e contingente. Castigo como tornar-inofensivo, como impedimento de novo dano. Castigo como pagamento de dano a quem sofreu o dano, sob qualquer forma (também sob a forma de uma compensação afetiva). Castigo como forma de isolamento de uma perturbação do equilíbrio, para impedir a propagação da perturbação" (Genealogia da Moral, p. 318)

A partir daí, pode-se argumentar por que Nietzsche propõe a transvaloração dos valores, ou seja, a abolição da moral, o que acarreta, por conseguinte, a abolição de sua principal viga mestra, a religião que domina o Ocidente há mais de 2 mil anos, o cristianismo. Diferentemente de Marx, Nietzsche não pregava uma revolução para que isso acontecesse, o que ele almejava (como solução, se é que se pode usar essa palavra) é que cada um de seus leitores tomasse consciência desses argumentos e percebesse que ser cristão é entregar sua vida para uma fantasia (crença em "Deus") ou para a vontade da moral dos padres. En m, é mais uma proposta de cunho individual do que coletiva, pressupondo que seja possível cada homem e mulher no Ocidente se conscientizar dos equívocos de sua própria cultura.

REFERÊNCIAS

FEUERBACH, L. A essência do cristianismo.
Petrópolis: Vozes, 2007.
MARX, K.; ENGELS, F. Os Pensadores. São Paulo:
Abril, 1987. (Coleção Os Pensadores, diversas obras)
NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo. São Paulo: Martin Claret, 2000.
_____. Crepúsculo dos Ídolos. 4. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
_____. A Genealogia da Moral. In: Os Pensadores. V. XXXII. 1. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1974
_____. Além do Bem e do Mal. 2. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1982.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Unesp, 2005.

* Gerson Nei Lemos Schulz é filósofo, professor na universidade do estado do Amapá (UEAP), doutorando em educação e mestre em educação pela universidade federal de pelotas-rs (UFPEL). Seu blog é www.filosofiadomarcozero.blogspot.com